O que é a síndrome que pode ter inchado corpo de mergulhador peruano?

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

  • Juan Cela

O estranho caso do pescador peruano que ficou com partes do corpo inchadas após mergulho chamou a atenção para um risco chamado síndrome descompressiva. O inchaço sofrido pelo homem pode estar relacionado à formação de bolhas de nitrogênio nos tecidos do seu corpo, causando retenção de líquido. Mas esse é um risco alto para mergulhadores?

No caso de mergulho esportivo, o risco é baixíssimo. "A incidência é ínfima", diz Gabriel Ganme, coordenador do ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Já no mergulho comercial -- aplicado na exploração de petróleo, por exemplo -- há a necessidade de realizar paradas de descompressão, para evitar que o nitrogênio se transforme em gás nos tecidos do corpo.

Essas paradas ocorrem em diferentes níveis de profundidade, na volta do mergulhador para a superfície. Com o retorno feito vagarosamente, o nitrogênio concentrado nos tecidos e no sangue vai sendo eliminado aos poucos. Evita-se assim a formação de bolhas (entenda mais abaixo). 

O caso do peruano Alejandro Ramos chama a atenção por conviver há quatro anos com o corpo inchado, seus bíceps chegam a 72 cm de circunferência.

Pescador pobre, Ramos acredita que seu problema é sequela de um acidente de trabalho em 2013, quando mergulhou mais de 30 metros de profundida para colher mexilhões, e por problemas na mangueira de ar teve de voltar rapidamente à superfície, sem fazer paradas.

O mergulho comercial deve ser feito por profissionais com equipamentos para evitar o mal, o que o peruano não tinha. "É aplicado em plataformas de petróleo, para inspeção de tubos e máquinas. Felizmente, hoje em dia, esse tipo de mergulho comercial profundo está sendo substituído pela robótica", afirma o especialista. Contudo, ele lembra que ainda existe pesca profunda feita por mergulhadores de forma precária, como a praticada pelo peruano. 

Mergulho esportivo evita necessidade de descompressão

No mergulho esportivo busca-se evitar a necessidade de descompressão. "A regra é ficar o máximo permitido para voltar à superfície sem paradas", explica o especialista. O tempo que o mergulhador pode ficar submerso varia de acordo com a profundidade. A 10 metros, seria possível permanecer por cerca de 3 horas. Já a 40 metros, é possível ficar apenas 10 minutos.

"A 40 metros de profundidade a pessoa não fica quase nada [em termos de tempo transcorrido]. Quanto mais fundo, menos luz, menos cores e menos coisas para ver. A pessoa está lá para se divertir. Então nem vai até essa profundidade", diz ele. Exceções ocorrem, por exemplo, quando alguém quer ver uma embarcação naufragada a 30 ou 40 metros, lembra Ganme, que também é instrutor de mergulho.

Um mergulhador iniciante costuma submergir no máximo 18 metros. Nessa profundidade, é possível ficar até uma hora sem realizar descompressão. Ganme explica que todo mergulhador realiza uma parada de três minutos quando está a cinco metros de profundidade, por segurança.

"Nunca presenciei síndrome de descompressão. Não acontece com pessoas que fizeram tudo certinho", afirma, lembrando que há outros problemas bem mais comuns. "Há o problema no ouvido médio. Muitos novatos [em mergulho] ficam com machucado no ouvido, que não tem graves consequências", diz. 

Reprodução/Cu4rto Poder
Alejandro Ramos ficou com partes do corpo inchadas após mergulho para pescar mexilhões

Síndrome descompressiva

De acordo com um manual para mergulho do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, relatos da síndrome descompressiva existem desde 1870, quando o mal atingia trabalhadores de minas que utilizavam caixas pressurizadas para trabalhar em leitos de rios.

O problema se manifesta devido ao aumento de concentração de nitrogênio no sangue. Gás mais abundante na atmosfera terrestre, compondo 78% do ar que respiramos, o nitrogênio é inerte, ou seja, entra e sai do nosso corpo sem sofrer nenhuma reação.

Contudo, a quantidade de nitrogênio (assim como de qualquer outro gás) que se dissolve em nosso sangue está ligada à pressão sob a qual estamos. Ao nível do mar, a pressão é de uma atmosfera. A cada 10 metros de profundidade na água, a pressão aumenta em mais uma atmosfera. Assim, a 40 metros, nível aproximado em que estava o pescador de mexilhões, a pressão é de cinco atmosferas.

Nesse nível, a quantidade de nitrogênio dissolvido no sangue é cinco vezes maior que a normal, verificada na superfície. "O nitrogênio dissolvido no sangue na forma líquida vai sendo absorvido pelos tecidos. Só pode virar gás novamente quando volta ao sistema respiratório", explica Ganme.

O risco da alta concentração de nitrogênio está na brusca formação de gás ainda nos tecidos. Isso pode ocorrer em mergulhos de alta profundidade e períodos extensos, quando o mergulhador volta à superfície subitamente.

É como se o corpo virasse uma garrafa de refrigerante. "Quando retiramos a tampa rapidamente, há uma queda da pressão sobre o líquido, e o excesso de pressão do gás dissolvido causa a formação de bolhas", explica Ganme.

Ao contrário, se abrirmos o refrigerante lentamente, o gás se difundirá gradualmente para fora da garrafa e não se formarão bolhas. O mesmo vale para mergulhadores. Subir à superfície em segurança permite que o nitrogênio dissolvido no organismo seja liberado gradativamente através das trocas gasosas normais da respiração.

Brian J.Skerry/National Geographic Creative

Sintomas e tratamento

Os sintomas mais comuns da síndrome descompressiva são dores articulares e problemas neurológicos, como a perda de sensibilidade e motricidade. Também pode ocorrer embolia pulmonar, "quando o sangue borbulha", diz o médico da Unifesp. 

Esses sintomas estão relacionados à formação de bolhas de gás nos tecidos ou no sangue. "Eles ocorrem quando cresce uma bolha onde não devia", completa Ganme. O tratamento é realizado em câmeras de recompressão, que servem para reduzir as bolhas, e com uso de oxigênio puro, para eliminação mais rápida do nitrogênio.

De acordo com Ganme, os sintomas do pescador de mexilhões não são comuns em casos de síndrome descompressiva.

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