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O que é a síndrome que pode ter inchado corpo de mergulhador peruano?

Juan Cela
Imagem: Juan Cela

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

2018-02-23T04:00:00

23/02/2018 04h00

O estranho caso do pescador peruano que ficou com partes do corpo inchadas após mergulho chamou a atenção para um risco chamado síndrome descompressiva. O inchaço sofrido pelo homem pode estar relacionado à formação de bolhas de nitrogênio nos tecidos do seu corpo, causando retenção de líquido. Mas esse é um risco alto para mergulhadores?

No caso de mergulho esportivo, o risco é baixíssimo. "A incidência é ínfima", diz Gabriel Ganme, coordenador do ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Já no mergulho comercial -- aplicado na exploração de petróleo, por exemplo -- há a necessidade de realizar paradas de descompressão, para evitar que o nitrogênio se transforme em gás nos tecidos do corpo.

Essas paradas ocorrem em diferentes níveis de profundidade, na volta do mergulhador para a superfície. Com o retorno feito vagarosamente, o nitrogênio concentrado nos tecidos e no sangue vai sendo eliminado aos poucos. Evita-se assim a formação de bolhas (entenda mais abaixo). 

O caso do peruano Alejandro Ramos chama a atenção por conviver há quatro anos com o corpo inchado, seus bíceps chegam a 72 cm de circunferência.

Pescador pobre, Ramos acredita que seu problema é sequela de um acidente de trabalho em 2013, quando mergulhou mais de 30 metros de profundida para colher mexilhões, e por problemas na mangueira de ar teve de voltar rapidamente à superfície, sem fazer paradas.

O mergulho comercial deve ser feito por profissionais com equipamentos para evitar o mal, o que o peruano não tinha. “É aplicado em plataformas de petróleo, para inspeção de tubos e máquinas. Felizmente, hoje em dia, esse tipo de mergulho comercial profundo está sendo substituído pela robótica”, afirma o especialista. Contudo, ele lembra que ainda existe pesca profunda feita por mergulhadores de forma precária, como a praticada pelo peruano. 

Mergulho esportivo evita necessidade de descompressão

No mergulho esportivo busca-se evitar a necessidade de descompressão. "A regra é ficar o máximo permitido para voltar à superfície sem paradas", explica o especialista. O tempo que o mergulhador pode ficar submerso varia de acordo com a profundidade. A 10 metros, seria possível permanecer por cerca de 3 horas. Já a 40 metros, é possível ficar apenas 10 minutos.

"A 40 metros de profundidade a pessoa não fica quase nada [em termos de tempo transcorrido]. Quanto mais fundo, menos luz, menos cores e menos coisas para ver. A pessoa está lá para se divertir. Então nem vai até essa profundidade", diz ele. Exceções ocorrem, por exemplo, quando alguém quer ver uma embarcação naufragada a 30 ou 40 metros, lembra Ganme, que também é instrutor de mergulho.

Um mergulhador iniciante costuma submergir no máximo 18 metros. Nessa profundidade, é possível ficar até uma hora sem realizar descompressão. Ganme explica que todo mergulhador realiza uma parada de três minutos quando está a cinco metros de profundidade, por segurança.

"Nunca presenciei síndrome de descompressão. Não acontece com pessoas que fizeram tudo certinho", afirma, lembrando que há outros problemas bem mais comuns. "Há o problema no ouvido médio. Muitos novatos [em mergulho] ficam com machucado no ouvido, que não tem graves consequências”, diz. 

Reprodução/Cu4rto Poder
Alejandro Ramos ficou com partes do corpo inchadas após mergulho para pescar mexilhões Imagem: Reprodução/Cu4rto Poder

Síndrome descompressiva

De acordo com um manual para mergulho do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, relatos da síndrome descompressiva existem desde 1870, quando o mal atingia trabalhadores de minas que utilizavam caixas pressurizadas para trabalhar em leitos de rios.

O problema se manifesta devido ao aumento de concentração de nitrogênio no sangue. Gás mais abundante na atmosfera terrestre, compondo 78% do ar que respiramos, o nitrogênio é inerte, ou seja, entra e sai do nosso corpo sem sofrer nenhuma reação.

Contudo, a quantidade de nitrogênio (assim como de qualquer outro gás) que se dissolve em nosso sangue está ligada à pressão sob a qual estamos. Ao nível do mar, a pressão é de uma atmosfera. A cada 10 metros de profundidade na água, a pressão aumenta em mais uma atmosfera. Assim, a 40 metros, nível aproximado em que estava o pescador de mexilhões, a pressão é de cinco atmosferas.

Nesse nível, a quantidade de nitrogênio dissolvido no sangue é cinco vezes maior que a normal, verificada na superfície. "O nitrogênio dissolvido no sangue na forma líquida vai sendo absorvido pelos tecidos. Só pode virar gás novamente quando volta ao sistema respiratório", explica Ganme.

O risco da alta concentração de nitrogênio está na brusca formação de gás ainda nos tecidos. Isso pode ocorrer em mergulhos de alta profundidade e períodos extensos, quando o mergulhador volta à superfície subitamente.

É como se o corpo virasse uma garrafa de refrigerante. "Quando retiramos a tampa rapidamente, há uma queda da pressão sobre o líquido, e o excesso de pressão do gás dissolvido causa a formação de bolhas", explica Ganme.

Ao contrário, se abrirmos o refrigerante lentamente, o gás se difundirá gradualmente para fora da garrafa e não se formarão bolhas. O mesmo vale para mergulhadores. Subir à superfície em segurança permite que o nitrogênio dissolvido no organismo seja liberado gradativamente através das trocas gasosas normais da respiração.

Brian J.Skerry/National Geographic Creative
Imagem: Brian J.Skerry/National Geographic Creative

Sintomas e tratamento

Os sintomas mais comuns da síndrome descompressiva são dores articulares e problemas neurológicos, como a perda de sensibilidade e motricidade. Também pode ocorrer embolia pulmonar, "quando o sangue borbulha", diz o médico da Unifesp. 

Esses sintomas estão relacionados à formação de bolhas de gás nos tecidos ou no sangue. "Eles ocorrem quando cresce uma bolha onde não devia", completa Ganme. O tratamento é realizado em câmeras de recompressão, que servem para reduzir as bolhas, e com uso de oxigênio puro, para eliminação mais rápida do nitrogênio.

De acordo com Ganme, os sintomas do pescador de mexilhões não são comuns em casos de síndrome descompressiva.