Obra em hospital de referência atrasa, e pacientes ficam no corredor em SP

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

Era o ano de 1903 quando um médico paulista se trancou em uma sala até que um mosquito do gênero Haemagogus lhe contaminasse com o temido vírus da febre amarela. No quarto ao lado, voluntários dormiam vestindo camisolas de pacientes infectados. A experiência deixou o infectologista Emílio Ribas adoentado por semanas, mas lhe rendeu a prova definitiva de que a febre amarela não era transmitida pelo contato com doentes.

Em 1932, o principal hospital de infectologia do Brasil, fundado em 1890, adotou seu nome como homenagem. A unidade considerada de excelência passa por um momento delicado: com uma reforma atrasada há quase dois anos, o Instituto de Infectologia Emílio Ribas chega a 2018 precisando lidar com a redução do número de leitos, a falta de funcionários e pacientes atendidos nos corredores em meio ao maior surto de febre amarela dos últimos tempos.

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Segundo funcionários, hospital não tinha pacientes em seus corredores desde epidemia de HIV

O Emílio Ribas foi o hospital mais importante de São Paulo durante as grandes epidemias que atingiram a cidade, como o surto de febre tifoide em 1914, a de meningite nos anos 1970, HIV nos 1980 e a de leptospirose na década seguinte. "A situação do hospital agora é um pouco diferente. O nosso desempenho já não é o mesmo", lamenta o médico infectologista no hospital Eder Gatti, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp).

O problema se arrasta há pelo menos cinco anos, quando o governo do Estado anunciou uma reforma e a construção de um estacionamento e de mais um prédio para consultas. As interdições necessárias reduziram para 121 a oferta de 199 leitos regulares, mas a promessa era animadora. As vagas para internação saltariam para 300, enquanto as camas em UTI passariam de 17 para 35..

A entrega da obra estava prevista para dezembro de 2016. Com um ano e quatro meses de atraso, o prédio segue em construção e a nova previsão de entrega é o segundo semestre de 2019. A quantidade prevista de leitos regulares a ser criada caiu para 242 leitos e os de UTI subiu para 47.

Neste momento, há 133 leitos em funcionamento, sendo 12 deles em UTI.

Os valores também mudaram. Iniciada no final de 2013, a obra foi anunciada em R$ 100 milhões pelo governador Geraldo Alckmin em evento oficial realizado em agosto daquele ano. Ele previu para o final de 2016 a entrega do prédio. Em razão de aditivos, o valor da construção subiu para R$ 189 milhões em dezembro do ano passado e já estava em R$ 192 milhões em fevereiro.

O valor não coincide com as informações repassadas pela Secretaria Estadual de Saúde que, também questionada, garante que a obra foi orçada em R$ 140 milhões, contou com um aditivo de R$ 15 milhões para a compra de mais elevadores, "além dos reajustes previstos pela Lei de Licitações", como juros, inflação e correção monetária. Hoje, diz a secretaria, a construção custará R$ 187 milhões aos cofres públicos, R$ 5 milhões a menos do que o informado pelo Instituto. 

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Ala já pronta do novo prédio. Previsão é que espaço seja inaugurado em 2019
O novo prédio, de seis andares, está parcialmente pronto. A reportagem entrou no edifício e encontrou algumas salas já concluídas, com placas de identificação e câmeras de segurança. Mas boa parte dos consultórios e o último andar do prédio seguem inacabados. O estacionamento prometido tem uma laje, usada como depósito de contêineres. "Os contêineres são de responsabilidade do Consórcio que está realizando a reforma e servem como almoxarifado deles", informa o Instituto.

Presidente da Associação de Médicos do Emílio Ribas, Luciana Marques S. Borges afirma que "a direção informou ao corpo clínico que o ritmo das obras reduziria neste ano e só voltaria ao normal em 2019." Gatti lamenta a demora: "Queriam aumentar o número de leitos, mas agora operamos com a metade deles e por tempo muito além do que havíamos nos preparado."

Embora a procura pela vacina contra a febre amarela tenha aumentando 600% já no primeiro trimestre de 2017 em relação ao mesmo período do ano anterior, o instituto também não estava pronto para a epidemia de 2018. Se no ano passado bastava aparecer no hospital para receber a dose, hoje o Emílio Ribas só atende após agendamento pela internet. E o prazo é longo: a primeira data disponível é 23 de maio.

Nos corredores

As obras que reduziram a oferta de leitos é mais sentida pelo pronto-socorro, preparado para doenças infectocontagiosas, principalmente aquelas que ameaçam a vida. Sob anonimato, o UOL visitou o PS e encontrou alguns doentes esperando atendimento deitados em leitos espalhados pelo corredor. Isso não acontecia desde a epidemia de HIV nos anos 1980, segundo funcionários.

"O piso não é adequado para o trabalho e a higienizacão. Recentemente um funcionário tropeçou em um buraco no chão e fraturou o pé", contou ao UOL uma enfermeira que preferiu manter sigilo sobre seu nome. "As baratas saem pelos batentes da porta." Outra funcionária culpou a reforma: "O entulho junta ratos. Eles estão por toda a parte." O hospital se defende afirmando que "não são entulhos". "São materiais patrimoniais que não podem ser descartados."

Em relação às baratas e ratos, "um plano de contingência já foi acionado através de dispensa de licitação de desinsetização e desratização, com previsão de aproximadamente 20 dias úteis para ocorrer".

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Pacientes esperam atendimento no corredor do pronto-socorro do Instituto Emílio Ribas
A enfermeira explica que os pacientes nos corredores são consequência de uma "instrução informal" da enfermaria, que se recusa a receber os pacientes do pronto-socorro aptos para mudar de ala. "Como eles não querem sobrecarregar suas equipes, se negam a receber pacientes. O PS acaba colocando esses internos no corredor e continua atendendo novos usuários." Nas 12 horas mais movimentadas do dia no setor, médicos e enfermeiros chegam a atender até 130 pessoas.

No dia 26 de fevereiro, uma segunda-feira, os internos eram tantos que uma decisão superior ordenou que alguns pacientes fossem acomodados em colchões pelo corredor. A equipe médica e de enfermagem intervieram e conseguiram que esses doentes fossem transferidos para outros hospitais da cidade.

"Os pacientes que aguardam nos corredores são aqueles que esperam a transferência para nossos leitos hospitalares", confirmou o hospital ao UOL. Em razão da reforma e da redução de leito, diz a instituição, a Secretária Estadual de Saúde encaminha os doentes para outros hospitais do Estado, "como o Hospital Heliópolis, Hospital Cachoeirinha, Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS SP".

A consequência é a sobrecarga de trabalho. Embora a proporção ideal fosse de 11 enfermeiros por período para cuidar dos 15 leitos – 11 em isolamento, quatro entubados –, o pronto-socorro conta com oito funcionários. "Somos quatro enfermeiros de manhã e quatro à tarde." Desses, três estão em licença médica.

Um deles foi afastado com um problema na coluna. Os outros dois sofrem da síndrome de burnout, nome dado ao estresse agudo causado por excesso de trabalho. Internamente, a supervisão do hospital admite em conversas e comunicados oficiais a sobrecarga de trabalho, a dificuldade em conseguir pessoas para complementação das escalas de plantões extras e o risco que essa situação representa à prestação de um bom serviço.

"O que mais me preocupa hoje é a redução de funcionários", diz Luciana. "Profissional de enfermagem precisa no hospital todo. Já os médicos faltam principalmente no PS, mas também há déficit na enfermaria e na UTI."

Com quatro médicos para cada turno de 12 horas, o instituto informa à reportagem que "o número de profissionais trabalhando no pronto-socorro é previsto de acordo com a média histórica de pacientes atendidos. Sempre que há um aumento nesse número, contamos com plantões extras".

Para Gatti, o grande temor é que essa situação se estenda por um período de tempo que comprometa o nível de excelência que caracterizou o Emílio Ribas em mais de um século. Para Luciana, "o futuro preocupa". "Existe o medo de o hospital perder seu protagonismo. Precisamos recuperar a estrutura do hospital para que isso não aconteça."

De acordo com o Ministério da Saúde, 260 pessoas já morreram no Brasil vítima de febre amarela. Só no Estado de São Paulo, foram confirmados 349 casos e 100 mortes. O dado chama a atenção principalmente porque o país não registrava infecções desse tipo em área urbana desde 1942. 

Outro lado

Em nota, a a secretaria informa "que entregou em dezembro de 2017 a primeira fase das obras que contempla a nova torre da unidade com 12 novos leitos de UTI e os 40 novos leitos de enfermaria, sendo que desse total 30 já estão em funcionamento. Além disso, nesse mesmo período, a unidade instalou os equipamentos do novo Parque Tecnológico do Centro de Diagnóstico do hospital, que possibilita diagnósticos mais precisos, rápidos e seguros." 

A secretaria diz ainda que "o ritmo da reforma teve de ser adequado à organização dos serviços, uma vez que a intenção foi fazer a obra sem comprometer a assistência prestada aos pacientes. O hospital conta atualmente com 133 leitos ativos, incluindo internação, pronto-socorro e hospital-dia." 

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