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Como São Paulo se tornou o epicentro do surto de sarampo no Brasil

Paciente recebe vacina contra o sarampo em estação de metrô em São Paulo - WILLIAN MOREIRA/FUTURA PRESS
Paciente recebe vacina contra o sarampo em estação de metrô em São Paulo Imagem: WILLIAN MOREIRA/FUTURA PRESS

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

23/07/2019 04h00Atualizada em 23/07/2019 10h34

Depois do surto de sarampo que adoeceu mais de 10 mil pessoas no Norte do Brasil em 2018, chegou a vez de o estado de São Paulo se transformar no epicentro da doença que se espalha em ritmo acelerado graças aos vírus que chegaram da Europa e Ásia. De cada 10 brasileiros infectados neste ano, oito vivem na capital paulista.

Ao todo, o estado contabiliza 484 casos de sarampo, 363 deles na cidade de São Paulo --75% das ocorrências. Outros municípios com alto número de casos ficam no Grande São Paulo. São os casos de Santo André (17), São Bernardo do Campo (12) e São Caetano do Sul (8).

O segundo estado com mais doentes é o Pará, com 53 infectados, de acordo como último boletim da Secretaria de Vigilância em Saúde, publicado em 12 de julho. Rio de Janeiro (11), Minas Gerais (4), Amazonas (4), Santa Catarina (3) e Roraima (1) completam o ranking.

Nesse levantamento, São Paulo ainda contava 350 doentes, 134 a menos do que o dado mais recente do governo estadual, com registros até a última sexta.

Vírus chegaram da Europa e Ásia

A epidemia é um fenômeno global. A OMS (Organização Mundial de Saúde) identificou surtos de sarampo em 170 países desde 2017. Este ano, o aumento foi de 300% na comparação com 2018. No ano passado, o sarampo triplicou na Europa, com 82.596 casos, 53.218 apenas na Ucrânia, o país que mais sofre com a doença no mundo. São mais de 100 mil infectados no país desde 2017.

Ao contrário dos casos que atingiram o Norte no ano passado, os vírus que se espalham por São Paulo não chegaram da Venezuela, mas da Europa e Ásia. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, "os primeiros casos na cidade surgiram a partir de fevereiro, importados da Noruega, Malta e Israel".

Naquele mês, 21 pessoas contraíram o vírus dentro de um cruzeiro que atracou no porto de Santos, o segundo município com mais infectados no estado, 23.

Na mesma época, um jovem que voltou ao Brasil de uma viagem a Israel passou o vírus para quatro pessoas da sua família em São Paulo. Dois bebês também chegaram ao Brasil infectados: um deles ficou doente em um navio em Malta (ilha no sul da Europa) e outro contraiu sarampo na Noruega.

O primeiro caso autóctone (quando a pessoa é contaminada na própria cidade) de sarampo na capital foi confirmado apenas em maio. A vítima foi um professor universitário de 32 anos, morador da Vila Mariana, região Sul de São Paulo.

Depois de confirmado o caso, agentes municipais de saúde bloquearam quarteirões do entorno da casa do professor, vacinaram vizinhos, parentes, amigos, estudantes e pessoas próximas do doente.

Contágio é muito rápido

Apesar das providências, a doença avançou. "Trata-se de um vírus de transmissão extremamente fácil", explicou ao UOL Rosana Richtmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Cada infectado pode transmitir a doença para até 18 pessoas.

Se em um voo de quatro horas alguém estiver doente, 90% dos passageiros serão infectados. Mesmo depois do pouso, o vírus ficará no avião por mais duas horas. Quem voltar na mesma aeronave também pode se infectar
Rosana Richtmann, infectologista

A médica explica que o surto acabou na região Norte porque a circulação do vírus caiu. "Durante a epidemia de 2018, muitas pessoas foram vacinadas. Quem não tomou vacina pegou sarampo e agora está imune", diz.

São Paulo, no entanto, teve a circulação endêmica de sarampo interrompida no ano 2000. "Com a epidemia na Europa e também nos Estados Unidos, é muito fácil que o vírus seja introduzido em São Paulo, uma cidade com alta densidade populacional e que não estava protegida", diz. "Como a capital recebe muitos visitantes, o sarampo se espalha facilmente."

Por que as vítimas têm entre 15 e 29 anos?

O estado de São Paulo vacinou apenas 223 mil pessoas desde 10 de junho, 5% do público-alvo, estimado em 4,4 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. A médica do Emílio Ribas explica que a maioria das pessoas com menos de 15 anos está segura porque nasceu em um período em que o governo já oferecia as duas doses necessárias para a imunização definitiva.

Quem tem entre 15 e 29 anos, no entanto, representa 43,7% dos doentes no Estado. Se a faixa etária for estendida para 39 anos, o volume de infectados atinge 60,6%. "Quem tem essa idade nasceu na época em que a segunda dose não estava instituída", diz Rosana. "Quem tem mais de 40 anos nem sempre contrai a doença porque provavelmente pegou sarampo na infância."

A especialista recomenda só ir a prontos-socorros em caso de extrema necessidade "para evitar aglomerações e correr o risco de pegar sarampo". "A boa notícia é que tem vacina em toda a rede pública."

Quem não tem certeza de que recebeu a segunda dose, a médica recomenda tomar a vacina. "Se baterem na sua casa porque teve um caso na escola, pode tomar. Não tem contraindicação receber mais de duas doses", diz Rosana, que alerta: "Só não tome a vacina se você for gestante, fizer quimioterapia, radioterapia ou seu filho for menor de seis meses."

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