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Dietas que circulam no WhatsApp prejudicam pacientes com câncer

Imagem ilustrativa de tratamento de quimioterapia - iStock
Imagem ilustrativa de tratamento de quimioterapia Imagem: iStock

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

28/07/2019 04h00

A adoção de dietas que supostamente fazem bem a pacientes com câncer -- um tipo de conteúdo sem nenhuma base científica que costuma circular em redes sociais e no WhatsApp -- está causando danos reais a pessoas que já estão com a saúde fragilizada pela doença.

Profissionais do Inca (Instituto Nacional do Câncer) passaram a observar com cada vez mais frequência que pacientes estavam parando de consumir açúcar e outros carboidratos por acreditar que isso "alimentava o tumor", diz Gabriela Villaça, nutricionista do instituto.

No entanto, a restrição do consumo de carboidratos pode causar grave perda de peso e massa muscular, com consequências graves para quem passa por tratamentos como quimioterapia e radioterapia.

"Pacientes com perda de peso ou perda muscular devem realizar dieta hipercalórica e hiperproteica", diz Gabriela. "Se um paciente restringe carboidratos por conta própria sem considerar todos esses fatores, ele será um candidato de risco a sofrer agravos no seu estado nutricional durante o tratamento e até mesmo a prejudicar o seu tratamento."

Entre as complicações da perda de peso e massa muscular estão maior taxa de complicações cirúrgicas e menor tolerância aos tratamentos clínicos (quimioterapia e radioterapia). Há também relação destes problemas com maiores taxas de mortalidade.

A partir do momento que percebemos a adoção de dieta pobre ou isenta em carboidratos, nós começamos a perguntar para os pacientes se eles estavam tendo acesso a estas informações e por qual veículo. Os principais veículos de acesso são o YouTube e os grupos de WhatsApp.

Gabriela Villaça, nutricionista do Inca

A nutricionista relembra um caso concreto de uma paciente que chegou ao Inca "extremamente desnutrida, sem forças para andar" por não comer nenhum carboidrato ou proteína por medo de que isso pudesse prejudicá-la.

"Após esclarecimento e suplementação nutricional, na consulta de retorno, ela ganhou peso e chegou ao consultório andando", conta.

Cartilha contra informações falsas

Os mitos sobre o consumo de carboidratos e proteínas por pacientes com câncer estão em uma cartilha do Inca sobre alimentação lançada justamente com o objetivo de esclarecer pacientes e prevenir danos à saúde deles (acesse aqui a cartilha do Inca). As dietas "milagrosas" estão entre os principais assuntos das dúvidas que chegam ao Ministério da Saúde por meio do número de WhatsApp criado para esclarecer fake news.

Segundo Gabriela Villaça, os profissionais do instituto reuniram "o maior número de mitos relacionados à alimentação" que costumam ouvir dos pacientes.

"Consideramos que esse mito [sobre carboidratos] estava sendo propagado de uma forma mais ampla que as habituais frutas e chás milagrosos, com pacientes sendo aconselhados a integrar grupos de WhatsApp sobre o assunto, ou a acompanhar perfis de Instagram de blogueiros que atuam a favor da causa low-carb [expressão em inglês para baixo consumo de carboidratos]", diz.

A nutricionista alerta também que esta informação errada "causa malefícios mais graves do que quando o paciente resolve comer graviola todo dia acreditando que isso vai curar o câncer. Neste caso, a graviola não fará mal, ele apenas vai ter uma dieta mais restrita em vitaminas e minerais."

Outro mito frequente é o de que existem chás "milagrosos" que ajudam a curar o câncer. Gabriela alerta: o consumo de alguns desses produtos não é recomendável para os pacientes.

"A depender da erva e da quantidade ingerida, como não se sabe qual o tipo de interação medicamentosa pode haver entre essas ervas e os quimioterápicos ou medicamentos de suporte, sugere-se não fazer uso de chás com potencial medicamentoso, especialmente durante a quimioterapia", explica.

Apesar do poder da disseminação deste tipo de informação falsa, os pacientes têm reagido de forma positiva aos esclarecimentos, diz a nutricionista. "Basta ter habilidade para, com uma linguagem de fácil entendimento, explicar os mecanismos que podem levar a prejuízos no tratamento deles com estas práticas", afirma.

Além da cartilha, quem tem dúvidas sobre alimentação durante o tratamento de câncer pode procurar o Serviço de Nutrição do Inca nos seguintes telefones: (21) 3207-1576 / 2846 / 3754.

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