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Coronavírus: anti-inflamatório agrava doença? O que dizem infectologistas

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Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio*

15/03/2020 15h39

Resumo da notícia

  • Oliver Véran disse que ibuprofeno pode agravar pneumonia causada pelo covid-19
  • Infectologistas dizem que é cedo para conclusões, mas recomendam cautela
  • Segundo especialistas, esse tipo de medicamento altera a reação do organismo ao vírus

Infectologistas brasileiros dizem que é cedo para tirar conclusões, mas recomendam cautela quanto ao uso de anti-inflamatórios em meio à proliferação do novo coronavírus. O UOL ouviu especialistas sobre o alerta feito ontem pelo ministro da Saúde francês, Olivier Véran, contra o uso de ibuprofeno em infectados —segundo ele, esse tipo de medicamento pode agravar a pneumonia causada pelo Covid-19.

A maioria dos infectologistas consultados pela reportagem concordou com o ministro francês que recomendou o uso de paracetamol (analgésico contra dor e febre) em vez de anti-inflamatórios. "Tomar medicamentos anti-inflamatórios (ibuprofeno, cortisona e outros) pode agravar a infecção. Em caso de febre, tome paracetamol. Se você já está tomando medicamentos anti-inflamatórios ou em caso de dúvida, pergunte ao seu médico", disse Véran na sua conta no Twitter.

Marcos Lago, coordenador da Comissão de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), diz que os efeitos do covid-19 na população ainda estão em fase de estudos. Ele contudo vê como um sinal de alerta as reações em pessoas infectadas que fizeram uso desse tipo de medicamento na China e na Europa.

"Em relação ao coronavírus, não temos certeza absoluta em nada. Para ser sincero, ainda não sabemos por que não usar [anti-inflamatórios]. Mas sabemos que, durante a epidemia inicial, a situação de pessoas com o vírus que usaram medicamento para combater a febre piorou", afirma.

A principal hipótese, segundo Lago, é a de que anti-inflamatórios possam prejudicar a resposta do organismo ao vírus. "O problema é que o ibuprofeno, por exemplo, é usado como antitérmico no Brasil. A recomendação é usar dipirona e paracetamol para febre, não interferindo no processo inflamatório. Os anti-inflamatórios podem alterar a resposta do organismo ao vírus."

Professor da Escola de Medicina da PUC-PR, o infectologista Victor Horácio Costa Jr. também concorda com as orientações do ministro francês. Para ele, a recomendação se baseia também na reação do organismo a outros vírus. "O anti-inflamatório reduz a resposta do sistema imunológico frente a uma agressão, evitando o processo inflamatório. Isso vale para todas as infecções virais. Por isso, o ibuprofeno aumenta a velocidade de disseminação do vírus", explica.

Segundo ele, o uso desse tipo de medicamento na Itália pode ter agravado a disseminação do coronavírus. "Na Itália, usa-se muito o ibuprofeno. Qualquer corticoide diminui a resposta do sistema imunológico."

Professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o infectologista dimilson Migowski critica o uso de antitérmicos em geral nas doenças infecciosas, indicando apenas quando o paciente está muito debilitado, ou em crianças com relato de crise convulsiva febril. "Na Espanha, por exemplo, o ibuprofeno é um dos antitérmicos mais utilizados. Ele aumenta os receptores de células pulmonares, que servem de âncora ou entrada para o coronavírus", argumenta.

Migowski, inclusive, costuma adotar cautela na hora de indicar medicamentos do tipo. "A febre não é a causa da doença. Só indico esse tipo de medicamento quando o paciente estiver se sentindo mal, porque a febre atua como resposta do organismo ao processo infeccioso. Com a suspeita em relação ao ibuprofeno, eu indicaria opções que parecem dar maior segurança. É o caso do paracetamol e da dipirona".

Já o infectologista Bruno Scarpellini encara a orientação dada pelo ministro francês com cautela. "Li artigos científicos sobre o assunto e eles apenas mencionam a hipótese. O que me preocupa é que essas orientações estão na boca do povo e precisam ser estudas e comprovadas", critica.

Ele também questiona a disseminação de orientações sem comprovação científica. "Os dados são hipotéticos a nível molecular/celular, sem evidência científica com dados coletados durante a epidemia e em vida real. Em conclusão, estudos epidemiológicos, de segurança e de vida real devem ser realizados para provar associação e causalidade. Há também um possível viés de seleção e/ou variável confundimento, pois a população já tinha um fator de risco de gravidade — cardiopatia e diabetes. [A recomendação do ministro francês] Poderia gerar pânico", afirma.

*Colaborou Emanuel Colombari, do UOL, em São Paulo

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