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Avanço do coronavírus desafiará cidades mais pobres no interior do Brasil

10.mar.2020 - Enfermeira usa máscara para se proteger contra o coronavírus - Adriano Machado/Reuters
10.mar.2020 - Enfermeira usa máscara para se proteger contra o coronavírus Imagem: Adriano Machado/Reuters

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

15/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Municípios pequenos do Norte e do Nordeste temem que falta de estrutura dificulte tratamento de casos graves
  • Governo federal lançou edital emergencial para contratar 5,8 mil médicos em 1.864 cidades
  • Secretarias locais pedem mais recursos para aparelhar salas e criar unidades semi-intensivas
  • Infectologista diz que mais importante agora é o reconhecimento rápido de quem tem a forma grave da doença

A presença de casos de coronavírus hoje está restrita a poucas cidades do Brasil, mas a estimativa de autoridades brasileiras é que, em breve, a covid-19 se espalhe pelo país. Longe dos grandes centros — que concentram grande parte dos recursos e leitos —, os municípios pequenos e pobres do Norte e do Nordeste se prepararam para o aumento da demanda de saúde, mas temem que a falta de estrutura dificulte o tratamento dos casos mais graves da doença.

Para tentar ampliar a assistência médica, o Ministério da Saúde lançou edital emergencial para contratar 5,8 mil médicos em 1.864 cidades de todo o país, além de 19 DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas). A medida atende basicamente a municípios de extrema pobreza que estão contemplados pelo programa Mais Médicos. Também estão prometidos recursos na ordem R$ 5 bilhões para enfrentamento do vírus no país.

Só a atuação de médicos, porém, não resolve o problema. "Apesar de a gente ter uma estrutura de atenção primária à saúde bem funcional na maioria dos municípios, a nossa rede de saúde, na questão de média e alta complexidade, é muito insuficiente", diz Januário Cunha Neto, diretor das populações ribeirinhas e em situação de vulnerabilidade do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde) e secretário de Saúde de Tapauá (AM).

Ele afirma que as secretarias de saúde têm debatido diariamente os problemas da rede que devem ser enfrentados com o alastramento do vírus Brasil a fora. "A gente precisa estar muito atenta a questões de descentralização na questão do diagnóstico, na abertura de mais salas e mais leitos de isolamento nos hospitais do interior", afirma.

O Brasil hoje possui 435 mil leitos de internação em hospitais, mas apenas 30.375 são localizados na região Norte (ou 7% do total), por exemplo. Desses, apenas 11.181 eram leitos clínicos, segundo dados de janeiro do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde).

Segundo o secretário, como muitas cidades nem sequer têm hospitais com UTI, haverá necessidade de equipar salas para tratamento semi-intensivo.

"É preciso ter, por parte do governo federal e dos estaduais, mais recursos para que a gente [de cidades mais pobres e menores] possa aparelhar salas e criar unidades semi-intensivas para esses pacientes", afirma.

Para Neto, o momento ainda é de construção de plano de contingência pelos municípios, que já sabem que enfrentarão aumento de demanda em breve. "Esses planos abordam mais questões educacionais básicas para que a gente possa conter um pouquinho do espalhamento do vírus. O que precisamos muito é melhorar nossa estrutura de média e alta complexidade", afirma.

Organizar o sistema é fundamental

Segundo infectologista e professor da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Kleber Luz, o cenário agora impõe a necessidade de todos os governos se prepararem para tentar conter a propagação do vírus, especialmente aquelas cidades que têm estruturas menos equipadas.

"Epidemia se enfrenta com o que se tem. Nunca o que existe é suficiente, nem aqui, nem na China, nem lugar nenhum. Então tem de se organizar: abrir mais leitos, suspender cirurgias eletivas, utilizar o apoio da iniciativa privada; ou seja, organizar o sistema de referência para os casos graves", diz.

Kleber Luz explica que não há formas de evitar que o vírus se interiorize pelo país e chegue a cidades distantes. "Não existe sistema para evitar a proliferação. Não se tem a menor dúvida que ele vai chegar, só precisamos acompanhar para ver a dimensão e a intensidade. Ele pode circular muito ou pouco. Mas repito: é possível enfrentar, desde que se organize", afirma.

Para ele, com a carência de equipamentos, é necessário ter cuidado na hora de encaminhar um paciente para uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva), por exemplo. "Não se deve levar para uma UTI quem não tem prognóstico, sem indicação. Aí ele ocupa durante epidemia e pode faltar para quem precisa", afirma.

Segundo dados do CNES, existem no país 4.805 leitos de isolamentos para tratamento nos hospitais do país, 541 deles na região Norte.

Coronavírus liga alerta pelo mundo

O infectologista ainda ressalta que os serviços de saúde não devem perder tempo com os casos leves e deve orientar que nem todos precisam ir a um médico.

"O que é preciso é o reconhecimento rápido de quem tem a forma grave da doença. Alguns casos vão demandar UTI, por isso é preciso se organizar. O que não pode é congestionar o sistema por causas leves. Por exemplo: vai ocupar um médico com um jovem com sintomas leves? Ele tem de ser orientado a ficar em casa, não ir a uma unidade. O país não precisa notificar caso leve, não faz nenhum sentido. O que importa em epidemiologia são os casos graves", afirma.

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