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SP: Coronavírus afasta doadores de sangue e pacientes graves vivem angústia

Danielle, o marido e o filho, José Vinícius, que tem sindrome de down e cardiopatia congênita - Arquivo Pessoal
Danielle, o marido e o filho, José Vinícius, que tem sindrome de down e cardiopatia congênita Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

18/03/2020 16h35

Faz exatos 50 dias que a auxiliar de educação Danielle de Souza toma banho, dorme e faz todas as refeições do dia no HCor, hospital do coração de São Paulo.

Ela é mãe de José Vinícius, 3, portador de uma cardiopatia congênita grave. As saídas do hospital não podem ser mais longas que 30 minutos: a cada 1h, o menininho, que também tem síndrome de down, é medicado, e só se tranquiliza com a presença dela.

Ele tem o ventrículo direito, cavidade do coração, menor que o padrão — o que impede a criança de ter fôlego para realizar atividades do dia a dia.

Recentemente, o menino passou por uma drenagem nos pulmões, que se encheram de água e causaram uma infecção. Durante essas intercorrências, assim como na cirurgia, José Vinícius pode precisar de transfusões de sangue.

O Banco de Sangue de São Paulo, do grupo GSH, responsável por abastecer os principais hospitais particulares do Estado, trabalha com um índice baixíssimo de sangue. Ao UOL, a hematologista e hemoterapeuta da instituição, Fernanda Cunha Vieira, explica que a principal razão para a ausência dos doadores é o medo do coronavírus.

Segundo a Secretaria da Saúde do Estado de SP, a Fundação Pró-Sangue, rede que coleta e processa bolsas de sangue destinadas a hospitais públicos no estado, opera com 40% da reserva necessária.

"É natural que as pessoas tenham medo de ir até instituições de saúde. No entanto, aqui no Banco de Sangue de São Paulo, tomamos alguns cuidados: os assentos estão enfaixados para que os pacientes não se sentem um ao lado do outro; os doadores usam máscaras na sala de doação e, após o procedimento, desinfetam a maca em que deitaram. Além disso, estamos agendando as doações. Então, o doador passa o mínimo de tempo possível dentro do ambulatório", explica Fernanda.

Assentos do Banco de Sangue de São Paulo são enfaixados para que doadores fiquem distantes uns dos outros - Talyta Vespa/UOL - Talyta Vespa/UOL
Assentos do Banco de Sangue de São Paulo são enfaixados para que doadores fiquem distantes uns dos outros
Imagem: Talyta Vespa/UOL

Quando soube dos índices alarmantes do reservatório de sangue nos bancos, a mãe de José Vinícius se desesperou.

O sentimento, ela descreve, foi de impotência e angústia. Evitar visitas é a principal recomendação do HCor, segundo ela —só uma pessoa pode visitar o menino por dia. Além disso, higienizar as mãos com água, sabão e álcool em gel são imprescindíveis. José Vinícius ainda não tem previsão de alta médica.

O caso dele, segundo a hematologista, é muito comum entre quem precisa de transfusão de sangue. Além de crianças com cardiopatias, pessoas que tratam câncer e até quem faz hemodiálise pode sofrer com a baixa nos bancos.

"Alguns pacientes em quimioterapia, por exemplo, precisam de transfusão de plaquetas diariamente. Imagine só: uma plaqueta supre 10 kg. Se uma pessoa tem 70 kg, ela precisa de sete plaquetas, de doadores diferentes. Em alguns casos, todos os dias. É um número muito alto", explica Fernanda.

Pior que Carnaval e férias escolares

Anualmente, existem picos de baixa nos reservatórios de sangue do Estado —os piores períodos do ano são o Carnaval e as férias escolares. Ainda assim, o atual momento é "muito pior". Fernanda afirma que não é apenas a reserva de sangue O- que está em falta, mas, também, as dos tipos O+, A- e B-.

A hematologista afirma que a estocagem de sangue a longo prazo só é possível quando se trata das hemácias, a parte vermelha do sangue —esse concentrado dura até 42 dias. As plaquetas, ela explica, são válidas por apenas cinco dias. "Por isso, temos medo de que a situação piore. Hoje, as pessoas ainda podem sair de casa. Mas, e se, em algum momento, não puderem?", questiona.

Em entrevista à imprensa na terça-feira (17), o infectologista e coordenador do centro de contingência de coronavírus de SP, David Uip, intensificou o apelo à população: "O banco de sangue que está, hoje, com melhor posição tem sangue para uma semana. Isso é extremamente grave. O indivíduo não está doando sangue porque tem medo de pegar coronavírus na unidade. Não é isso. Se tem um lugar que está protegido, esse lugar é o banco de sangue. [Neles, foram tomadas] Todas as medidas técnicas de proteção ao doador", disse.

Apelo em rede nacional

O advogado Marcos Moreira, 44, fazia seu primeiro dia de home office quando ouviu o apelo de Uip, transmitido ao vivo por diversos veículos de comunicação. Ele estava com a mulher, a juíza do trabalho Kátia Bizetto, 39, que também trabalhava de casa. O casal combinou que ela sairia naquele momento para fazer a doação e que, logo depois, Marcos a buscaria e doaria também.

Marcos e Kátia, que conversaram com a reportagem no Banco de Sangue de São Paulo, não são doadores assíduos.

Ele, por exemplo, tinha doado sangue pela última vez em 1996. Ela não doava há 10 anos. "Não ficamos receosos por causa do coronavírus quando decidimos vir. A gente ficou mais tranquilo quando soube que a doação não era feita no hospital. Acredito que, se fosse o caso, a gente ficaria com um pouco de receio. Sabemos que muitas pessoas com sintomas de coronavírus estão procurando hospitais", diz Kátia.

Em casa, as medidas de prevenção já foram tomadas, segundo a juíza: além de o casal lavar as mãos com frequência e fazer uso do álcool em gel sempre que chega, Marcos e Kátia dispensaram a diarista que trabalha para eles. "E, claro, não deixamos de fazer o pagamento dela", conta Marcos.

regina doadora de sangue - Regina Carvalho, 27, é doadora de sangue desde os 18 anos - Regina Carvalho, 27, é doadora de sangue desde os 18 anos
Imagem: Regina Carvalho, 27, é doadora de sangue desde os 18 anos

A hipótese de não doar sangue nem passou pela cabeça da recepcionista hospitalar Regina Carvalho, de 27 anos. A cada quatro meses, desde os 18 anos, ela tira um dia para doar. E é a prática, importante para ela, que molda até mesmo seu lazer: Regina cancelou uma sessão de tatuagem quando lembrou que, em breve, chegaria seu momento de doar sangue novamente —o doador não pode ter feito tatuagem nos últimos seis meses.

Não estou com um pingo de medo. Moro com meu pai, de 64 anos, com uma tia e meu marido. Ainda assim, não vou deixar de doar, isso é algo que faço desde sempre e que acho muito importante. Não é um vírus que vai me parar. Os bancos de sangue são seguros, a gente não pode deixar de ir.
Regina Carvalho, recepcionista hospitalar

Como ajudar

Em nota, a Secretaria de Saúde de São Paulo afirma que, para doar sangue, basta estar em boas condições de saúde e alimentado, ter entre 16 e 69 anos (para menores de idade, consultar site da Pró-Sangue), pesar mais de 50 kg e levar documento de identidade original com foto recente, que permita a identificação do candidato.

Recomenda-se, também, evitar alimentos gordurosos nas quatro horas que antecedem a doação e, no caso de bebidas alcoólicas, 12 horas antes. Se estiver com gripe ou resfriado, o doador deve evitar fazer o procedimento temporariamente. Mesmo que tenha se recuperado, deve aguardar uma semana para que esteja novamente apto à doação.

O novo coronavírus foi incluído pelo Ministério da Saúde nos critérios de triagem. No momento, não podem doar os seguintes perfis de:

  • Candidatos procedentes de regiões com transmissão local são considerados inaptos por 30 dias, após retorno destas áreas.
  • Candidatos que tiveram contato nos últimos 30 dias com pessoas que apresentaram infecção confirmada pelo COVID-19 ou casos suspeitos dessa doença são considerados inaptos por 30 dias, após o último contato com essas pessoas;
  • Candidatos que apresentaram infecção pelo COVID-19 são considerados inaptos por um período de 90 dias, após recuperação clínica completa (assintomáticos);
  • Candidatos que tiveram contato próximo com pessoas que vieram de regiões com casos autóctones podem doar após 14 dias do contato, desde que assintomáticos.

Onde doar

No site da Pró-Sangue (www.prosangue.sp.gov.br), é possível consultar os pré-requisitos básicos para doar. Para horário de funcionamento dos demais postos de coleta, ligue para o Alô Pró-Sangue (11 4573-7800).

Para consultar endereços dos postos de coleta em demais regiões de SP clique aqui.

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