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Covid-19: Fim da transmissão local na China indica eficiência de medidas

China zera transmissão local do coronavírus, mas registra 34 casos "importados" - Liu Junxi/Xinhua
China zera transmissão local do coronavírus, mas registra 34 casos 'importados' Imagem: Liu Junxi/Xinhua

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

19/03/2020 19h29

Resumo da notícia

  • Fim da transmissão local na China indica eficiência de medidas restritivas, mas casos importados de Covid-19 podem gerar nova epidemia
  • O país anunciou que não registrou nenhum novo caso por meio de transmissão local nas últimas 24 horas
  • Para especialistas, a notícia indica que medidas sociais restritivas funcionaram na contenção da disseminação do vírus
  • Por outro lado, a continuação de casos externos (foram 34 hoje) também mostra que há uma limitação no método

A China anunciou que não registrou nenhum novo caso de Covid-19 (o novo coronavírus) por meio de transmissão local nas últimas 24 horas. Dos 34 novos pacientes infectados, todos os casos foram "importados".

Para especialistas, a notícia indica que medidas sociais restritivas funcionaram na contenção da disseminação do vírus. Por outro lado, a continuação de casos externos também mostra que há uma limitação no método. A solução ideal seria uma vacina, mas isso ainda está distante.

"A China está diagnosticando cada vez menos [novos casos]. Isso significa que o número segue aumentando, mas a velocidade está diminuindo, então ela tende a zerar ou estabilizar em algum momento", explica o virologista Rômulo Neris, pesquisador visitante da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. "Se as medidas de restrição continuarem, a tendência é vermos uma melhora nos índices."

O país começou a adotar quarentena no dia 23 de janeiro, quando isolou a região de Wuhan, onde surgiu o paciente zero. Com o tempo, a medida foi tomada em outros locais. Essa é a primeira vez que não há registro de transmissão local, desde que a contagem foi iniciada, em meados de janeiro.

"Isso mostra que a China efetivamente controlou a disseminação do vírus com suas medidas restritivas. É uma indicação de eficiência do método", afirma o infectologista Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Casos "importados" podem gerar nova epidemia

O dado não significa que o país mais populoso do mundo esteja livre do vírus. Embora a transmissão local tenha zerado, a "importada" teve o maior crescimento nas últimas duas semanas — o que acende o sinal de alerta para um novo ciclo epidêmico no país.

"Por outro lado, ainda ter casos importados demonstra que há uma dúvida em relação a qual é o número de chineses que efetivamente foram infectados. Significa que há um percentual muito grande de pessoas que ainda está suscetível, e isso pode gerar uma nova epidemia no país, um novo ciclo", pontua Stanislau.

"Pode ser que o vírus se perpetue por meio das populações não imunizadas. Pode haver um, dois, três ciclos de epidemia. Esta é a má notícia, o jeito de olhar o copo meio vazio", avalia o infectologista.

"Uma vez que o vírus entra, ele não é extinto. Isso significa que o país vai ter de adotar outras medidas para lidar com tráfego de indivíduos, visto que há uma população ainda não infectada", concorda Neris.

Vacina seria solução ideal

A continuação de casos importados comprova que o isolamento social pode se mostrar eficiente em um primeiro momento, mas não resolve a questão. A solução de fato seria uma vacina.

"Adotar só medidas restritivas já vimos que tem efetividade, mas não é tão duradouro. Não é suficiente para um controle absoluto, pois sempre haverá pessoas que não estão imunes", argumenta Satanislau. "É preciso uma vacina."

Além disso, lembra o infectologista, ainda não há garantia de que pessoas infectadas fiquem imunes. "A gente trabalha com a expectativa de que a imunidade seja suficiente, mas houve casos em que voltaram a apresentar o vírus."

Neris concorda que a saída final para o vírus seja a prevenção. "A Inglaterra falou que iria adotar essa medida de deixar todo mundo pegar para que todos tenham imunidade natural, mas já voltou atrás", lembra o virologista.

"A gente precisaria de um método efetivo para prevenir o aparecimento de novos casos", continua. Infelizmente, ele estima que uma nova vacina só saia no final do ano, "no melhor dos casos".

Brasil pode seguir caminho da China

Se continuar a adotar as medidas restritivas, e até torná-las ainda mais rígidas, é provável que o Brasil siga o mesmo caminho da China — para o bem e para o mal.

"O caminho que a China tomou é muito estrito, a ponto de proibir a circulação total de pessoas que não fizessem parte do quadro essencial de trabalhadores. A princípio, o Brasil ainda não adotou quarentena, está recomendando. Se adotar medidas de quarentena real, é provável [que siga o mesmo caminho", afirma Neris.

"O que está acontecendo lá sinaliza o que pode acontecer aqui", concorda Stanislau. "Por isso precisamos avaliar outras frentes. A informação científica sobre o Covid-19 ainda está em formatação, recebemos artigos todos os dias. Neste momento, não existem verdades absolutas."

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