PUBLICIDADE
Topo

Após 25 anos, Brasil não bate meta em nenhuma vacina do calendário em 2019

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

23/03/2020 04h00Atualizada em 23/03/2020 10h04

O esforço de profissionais para convencimento e as campanhas das autoridades em saúde pública não foram suficientes para que o Brasil evitasse uma nova queda na cobertura vacinal em 2019. Segundo os dados preliminares do ano passado do Ministério da Saúde, pela primeira vez desde 1994 — desde quando há dados disponíveis — o país não atingiu a meta de vacinar 95% do público-alvo em nenhuma das 15 vacinas do calendário público.

O Brasil possui um dos melhores sistemas públicos de vacinação do mundo. Criado em 1973, o PNI (Programa Nacional de Imunizações) foi criado para prevenir e foi inserindo vacinas ao longo dos anos. Hoje, o calendário do Ministério da Saúde conta com 15 vacinas gratuitas aplicadas antes dos dez anos de idade.

Graças ao eficiente programa de vacinação, o país conseguiu erradicar doenças como o sarampo, a rubéola e a poliomielite —que teve último caso registrado no país em 1989, na Paraíba.

Entretanto, a baixa vacinação na década de 2010 fez com uma dessas doenças voltasse. "A volta do sarampo foi o melhor exemplo do que a baixa cobertura pode causar. Isso pode ocorrer com outra doença", afirma o presidente da SBIM (Sociedade Brasileira Imunizações), Juarez Cunha.

Segundo o Ministério da Saúde, as quedas nas coberturas vêm sendo identificadas desde 2011. "Para 2019, cujos dados são preliminares, a meta de cobertura vacinal não foi atingida, estando mais próxima do alcance, a vacina tríplice viral que está com 91,7%", informou o ministério ao UOL.

O tema preocupa as autoridades. Em abril de 2019, o ministério lançou o Movimento Vacina Brasil, justamente para elevar as coberturas vacinais. Ainda em 2019, diante da volta do sarampo, estabeleceu duas etapas de campanha contra a doença, e outras três etapas estão previstas para este ano.

"Além desta, outra estratégia é o Saúde Na Hora, em que os postos de saúde têm seus horários de funcionamento ampliado até às 22h, diminuindo a barreira de acesso à população. Para atuar no enfrentamento das fake news, foi lançado o movimento Saúde sem fake news, onde o Ministério da Saúde disponibiliza um número de Whatsapp para confirmar ou não notícias sobre vacinação", diz o ministério.

Uma das quedas que mais chama a atenção é a da vacina BCG, dada nos bebês logo ao nascer. Ela previne contra as formas graves de tuberculose e tem dose única. Em 2019, segundo os dados preliminares, essa cobertura ficou em apenas 84,1%. Desde de 1994 (quando a cobertura ficou em 88%), não havia registro de índice abaixo da meta de 95% nessa vacina.

Pelo menos uma das quedas de cobertura em 2019 pode ser explicada pela falta do próprio insumo. Trata-se do caso da vacina pentavalente, que deixou de ser enviada à rede municipal por mais de seis meses por conta da reprovação de um lote adquirido pelo governo.

Quedas têm vários motivos

Para o ministério, alguns fatores podem estar envolvidos nas quedas das coberturas vacinais. Ao UOL a pasta citou: "falsa sensação de segurança, por parte da população e dos profissionais de saúde, devido à ausência de algumas doenças já controladas ou eliminadas, a exemplo da poliomielite, rubéola, síndrome da rubéola congênita e tétano neonatal ou ainda de terem baixa ocorrência como coqueluche e tétano acidental, aumento da cobertura de saúde suplementar em determinadas regiões, veiculação de fake news sobre vacinação."

Juarez Cunha afirma que, diante da nova queda da cobertura em 2019, é preciso criar mais estratégias para convencer pais a vacinarem seus filhos. "Esse movimento [de não vacinar] é preocupante porque, mesmo com todas as campanhas feitas por nós e pelo ministério para tentar reverter não estamos conseguindo visualizar isso. As pessoas precisam se conscientizarem que as vacinas são eficazes, seguras e salvam vidas", lembra.

Para o presidente da SBIM, em um momento de preocupação e até pânico gerado com o coronavírus chegando ao Brasil, os pais deveriam focar mais na vacinação de doenças que podem ser prevenidas.

"É até um contrassenso, porque aqui nós temos o sarampo, que atingiu mais de 18 mil casos no ano passado, com 15 óbitos; e já são mais de 700 casos, com três óbitos, neste ano; e temos ainda um percentual mais baixo que o adequado. É uma irresponsabilidade dos pais não vacinar", afirma.

Saúde pública agradece

Segundo o diretor de Ensaios Clínicos do Instituto Butantan, Ricardo Palacios, um sistema de vacinação não serve só para proteger a pessoa imunizada. "A gente tem dois tipos de serviço: o direto e indireto. O indireto é a projeção de proteção da comunidade, já do que em algumas pessoas a vacina não consegue gerar resposta de defesa adequada, além de outras pessoas que não podem se vacinar por uma condição médica. Essas pessoas acabam sendo protegidas porque, se as demais tomaram a vacina, cria-se uma barreira, que impede o agente causador chegar à pessoa que não se vacinou", explica.

Palacios explica ainda que a vacinação tem um princípio de proteção similar aos cuidados básicos tomados para evitar outras doenças.

"Nesse tempo de coronavírus, essas medidas de precaução funcionam da mesma forma: temos pessoas que são mais vulneráveis, que são os idosos, pessoas com doenças crônicas, que têm maior possibilidade de adoecer de forma grave. Mas quando todos prevenimos a transmissão, estamos protegendo elas. Mesma coisa quando você combate o mosquito Aedes aegypti e também protege o vizinho. Assim são as medidas em saúde pública, que têm esse efeito. Nós temos uma responsabilidade não individual, mas proteger as pessoas ao nosso redor", finaliza.

Saúde