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Sem banheiro e álcool gel: entregadores de app ignoram corona por sustento

Entregadores de apps se aglomeram ao lado de McDonald"s em meio à pandemia de coronavírus - Igor Mello/ UOL
Entregadores de apps se aglomeram ao lado de McDonald's em meio à pandemia de coronavírus Imagem: Igor Mello/ UOL

Igor Mello

Do UOL, no Rio

24/03/2020 04h00

Enquanto a maioria se mantém em isolamento em bairros de classe média do Rio, eles estão por toda parte: mochilas térmicas nas costas, celular sempre à vista e pés no pedal, entregadores de aplicativos cortam ruas vazias na capital fluminense como se a pandemia do coronavírus não existisse.

Eles têm preocupações mais urgentes, como o sustento obtido de maneira precária nos pedais. Fazem isso em jornadas extenuantes, que superam 12 horas diárias. O acesso a água ou banheiro, principal método de prevenção do coronavírus, é escasso, quando não inexistente. E o álcool gel não passa nem pela cabeça da maioria deles.

O UOL ouviu mais de 20 entregadores que trabalham na Tijuca, na zona norte carioca, para os três principais aplicativos de entrega do mercado brasileiro —Ifood, Rappi e Uber Eats. As queixas sobre a falta de suporte das plataformas em meio à crise do coronavírus são unânimes. Eles dizem que tudo o que receberam de suporte foram mensagens com orientações genéricas sobre a epidemia.

As companhias não forneceram meios de prevenção, como garrafas de álcool em gel, tampouco criaram locais onde os entregadores pudessem cuidar de sua higiene.

"Pobre não pega isso, chefe"

Para encontrar os entregadores, a reportagem do UOL pedalou por cerca de 2 horas no período do almoço, um dos picos de demanda. O primeiro grupo, e também o mais numeroso, estava aglomerado de maneira precária em um canteiro de plantas ao lado de uma lanchonete do McDonald's na rua Barão de Mesquita.

Se aglomerar nas imediações das lojas da franquia americana é uma escolha estratégica, já que a demanda por entregas é alta. Ali, oito homens —entre 18 e 35 anos— dividiam quentinhas de comida: arroz, feijão, farofa, batata frita e bife. Repartiam tudo usando os próprios talheres, prática que facilita a transmissão do vírus.

Apertavam as mãos uns dos outros e falavam quase ao pé do ouvido. Ao serem questionados sobre a rotina em meio à epidemia, o mais falante do grupo —um homem negro e alto, com barba por fazer— desabafou: "Tá uma merda, chefe. Pode colocar aí". Ele vai todo dia de Realengo, na periferia da zona oeste do Rio, à Tijuca trabalhar com entregas. Sustenta a mulher, três filhos e um enteado com o que ganha pelos serviços.

De acordo com os entregadores ouvidos pelo UOL, o usual é receber cerca de R$ 6 por entrega. Nos dias bons, faz por volta de dez entregas. Mas na semana passada mal tinha chegado a cinco corridas: "Ontem fiz só duas", lamenta.

Perguntado se tem medo de contrair a doença, que já matou 34 pessoas no país, ele desconversa. "Isso não pega em pobre, chefe", ironiza, antes de reclamar. "O app diz que é para se prevenir, mas não faz nada pela gente."

Após aceitar uma corrida, outro dos entregadores do grupo descarta parar de trabalhar com entregas para se precaver de uma eventual contaminação. "Não dá para deixar de vir. Se parar a dívida só aumenta", destaca.

Na Tijuca, entregadores conversam em calçada enquanto aguardam novos pedidos - Igor Mello/ UOL
Na Tijuca, entregadores conversam em calçada enquanto aguardam novos pedidos
Imagem: Igor Mello/ UOL

Na rua Mariz e Barros, uma das mais importantes da região, dois entregadores conversavam sentados na calçada em frente a uma loja de açaí. A diferença de idade chama a atenção: enquanto o mais velho está perto dos 40 anos, o mais jovem tem 18. Ambos são negros.

O adolescente conta que sai todo dia de Bento Ribeiro, no subúrbio do Rio, até a Tijuca para trabalhar. O percurso, feito em uma bicicleta enferrujada, é de cerca de 20 km. Ele conta que trabalha com entregas para ajudar no sustento da família —além da mãe, que é doméstica, mora com uma irmã que está grávida e um irmão com necessidades especiais.

O jovem relata que, nos dias bons, consegue tirar R$ 60 por dia de trabalho —em uma rotina em que sai de casa às 7h30 e só retorna às 21h. Reclama que o Uber Eats, o app em que trabalha mais frequentemente, piorou as condições em meio à pandemia. "Acabaram com as promoções e nós estamos aqui correndo risco", diz.

O mais velho tem um ar centrado. Morador do Morro do São Carlos, no Estácio, região central do Rio, divide uma casa com outras duas pessoas. Para seu alívio, todas trabalham.

Ele se mostra preocupado com a chance de contrair a doença, mas diz que não é fácil fazer a higiene recomendada pelas autoridades. "Único cuidado da gente é usar álcool gel. Quando tem, passamos nos estabelecimentos onde buscamos as entregas", relata.

Sentados na calçada, entregadores aguardam pedidos perto de lanchonete na Tijuca - Igor Mello/ UOL
Sentados na calçada, entregadores aguardam pedidos perto de lanchonete na Tijuca
Imagem: Igor Mello/ UOL

Crise reduziu entregas, dizem entregadores

No Largo da Segunda-Feira, outro ponto movimentado da Tijuca, uma adolescente mexia no celular enquanto se apoiava, cansada, em uma estação de bicicletas compartilhadas. Boa parte dos entregadores depende delas para trabalhar —ou por não terem condições de comprar a própria bike ou por morarem longe demais dos locais mais rentáveis para os entregadores.

Moradora do Morro da Mangueira, ela usa o trabalho com as entregas como complemento da renda que obtém como estagiária em uma função administrativa no Hospital Memorial, em Madureira. Assim como a maioria dos entregadores ouvidos, diz que o número de corridas caiu muito com a crise. Fazia de dez a 15 entregas por dia, agora faz cinco, com sorte. "Eu conseguia R$ 300 por semana, agora vai ser no máximo R$ 100", revela.

Na quinta-feira (19), foi suspensa pela Rappi porque recusou uma corrida. Era uma entrega de sorvete até o Andaraí, um trajeto de mais de 4 km. Ela se diz injustiçada: "Até chegar lá o sorvete já teria derretido", pondera.

Assim como seus colegas, ela tem dificuldades de manter a higiene para prevenir o coronavírus. "Não tem como. No máximo peço para ir no banheiro de um bar lavar a mão. Quando dá", explica.

As secretarias de Saúde do Rio não definem nenhuma regra específica de prevenção ao coronavírus para os entregadores. Eles também não estão no rol de trabalhadores com recomendação para o uso de equipamentos de proteção como máscaras e luvas.

Apps manterão pagamentos para doentes

Com 200 mil entregadores autônomos no Brasil, o Ifood diz ter criado um fundo de R$ 1 milhão para assistir aqueles que forem contaminados ou tiverem que fazer quarentena.

"O entregador receberá do fundo solidário um valor baseado na média dos seus repasses nos últimos 30 dias, proporcional aos 14 dias de quarentena", diz em nota.

Destaca ainda que está enviando material informativo para entregadores, restaurantes e clientes com instruções de como impedir o contágio. Não respondeu, contudo, se irá fornecer itens de higiene para os entregadores.

"A empresa entende que ainda é prematuro para dimensionar o impacto do Covid-19 no mercado de food delivery brasileiro. O iFood possui flexibilidade para ajustar rapidamente suas operações de acordo com as necessidades do mercado, e está em constante contato com as autoridades, inclusive sobre este tema."

A Uber Eats também não respondeu às perguntas enviadas pelo UOL.

Em nota, a empresa afirmou que "as incertezas e o receio causados pelo coronavírus estão sendo sentidos por todos ao redor do mundo. Mas sabemos que é razão especial de preocupação para aqueles que utilizam nossa plataforma para gerar renda. Nestes tempos difíceis, o bem-estar deles é nossa prioridade, e temos uma equipe dedicada trabalhando o tempo todo para apoiá-los da melhor maneira possível".

A empresa também enviou um link com informações direcionadas a colaboradores sobre a assistência prestada. Embora diga que irá auxiliar os motoristas de transporte individual a higienizar os carros, o mesmo tipo de prática não atinge os entregadores.

Outro manual, este em inglês, explica que a empresa irá manter os pagamentos para entregadores e motoristas em quarentena. O pagamento durará 14 dias e levará em conta a média diária de ganhos do trabalhador nos últimos seis meses.

Já a Rappi diz que está implantando a política de distribuir frascos de álcool em gel para os entregadores. A empresa também afirma estar atuando na conscientização de colaboradores, clientes e restaurantes, além de incentivar processos que reduzam os riscos, como o pagamento via aplicativo e modalidades de entrega sem contato com os destinatários.

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