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Zinco e vitamina D têm papel na imunidade, mas não protegem do coronavírus

Imagem de microscópio mostra o coronavírus em paciente infectado - National Institutes of Health / AFP
Imagem de microscópio mostra o coronavírus em paciente infectado Imagem: National Institutes of Health / AFP

Felipe Amorim

Do UOL, em Brasília

05/04/2020 22h25

Em meio a série de medidas implementadas na resposta ao novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou ontem que o governo vai zerar os impostos que incidem sobre a vitamina D e o zinco.

A isenção veio na esteira do corte de impostos para a hidroxicloroquina e a cloroquina, remédios utilizados para lúpus e malária e que estão sendo testados em pacientes com a covid-19. Ainda não há pesquisas que comprovem a efetividade dessas duas substâncias.

Em suas redes sociais, o presidente afirmou que tanto a cloroquina quando a vitamina D e o zinco serão usados "no tratamento de pacientes portadores da COVID-19", escreveu Bolsonaro.

Apesar de o zinco e a vitamina D serem substâncias com atuação reconhecida no funcionamento do sistema imunológico, até o momento não há consenso científico sobre seu emprego específico em pacientes com o novo coronavírus. Também não é recomendado que as pessoas façam suplementação de vitamina D e zinco sem orientação médica.

O sistema imunológico é responsável pela resposta do nosso corpo a infecções. É ele que atua no controle de vírus e bactérias nocivos ao organismo.

Para manter o bom funcionamento do sistema imunológico, os médicos prescrevem a mesma receita: alimentação saudável e balanceada, exercícios físicos, reduzir o estresse e ter sono de qualidade.

Cientistas refutam a hipótese de que seria possível "aumentar" nossa imunidade e dizem que o que é possível é mantermos nosso sistema de defesa em bom funcionamento, o que já garante uma resposta efetiva à maior parte das infecções.

"Isso não existe, não reforçamos o sistema imunológico. O sistema imune de uma pessoa saudável e em condições ideais já é robusto o suficiente para enfrentar qualquer desafio. Inclusive, uma infecção como essa", afirmou a médica Ana Maria Caetano, pesquisadora de imunologia e nutrição na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e integrante da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia).

Porém, um sistema imunológico em bom funcionamento não é garantia de que a pessoa não irá ser infectada pelo coronavírus.

Sobre isso, o Ministério da Saúde tem afirmado: "Até o momento, não há nenhum medicamento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo novo coronavírus."

Mas e para os pacientes que já desenvolveram a doença, a suplementação com vitamina D e zinco pode ser efetiva?

O médico José David Urbaéz, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, afirmou que ainda não foram desenvolvidas pesquisas que deem segurança sobre qual o melhor tratamento à covid-19.

"Tudo que se tem em relação a covid-19 é uma ausência de dados para respostas definitivas. Nesse recorte do tratamento, a gente não tem nenhum dado que realmente esclareça", afirmou Urbaéz.

O infectologista afirmou que a vitamina D costuma ser receitada para pacientes que enfrentam problemas no sistema imunológico, como pessoas em tratamento contra o câncer, mas que não há consenso científico sobre sua utilização generalizada como forma de aumentar a resposta imune do organismo.

O mesmo, diz Urbaéz, vale para o zinco, um mineral que participa de reações da resposta inflamatória do corpo contra agentes infecciosos, mas para o qual faltam estudos que recomendem sua utilização específica no tratamento de pacientes com a covid-19.

"Você nunca viu qualquer instituição falando de uma coisa mágica que vai fazer a imunidade funcionar melhor", diz o médico.

A pesquisadora Ana Caetano, da UFMG, afirma que tanto o zinco quando a vitamina D, e também a vitamina C, exercem um papel importante no funcionamento do sistema imunológico e que é possível obter a quantidade ideal desses nutrientes por meio da alimentação, mas o excesso de nutrientes não é aproveitado pelo corpo.

"Para todas essas vitaminas e minerais, o ideal é ter uma concentração correta no organismo, porque se tomar a mais, o corpo vai excretar o excesso", diz a pesquisadora.

A recomendação é sempre procurar um médico antes de tomar qualquer vitamina ou mineral, disse Caetano.

"É contraindicado pessoas irem por conta própria na farmácia e se encherem de suplementos. Se ela está preocupada, é importante consultar o médico dela. Porque toda suplementação em excesso pode ser tóxica", afirmou Caetano.

O zinco está presente em alimentos como a gema do ovo, castanhas, amendoim, leite integral e carne vermelha. "O zinco faz parte de várias moléculas do corpo e vai ter várias funções, não só no sistema imune, mas na musculatura, no sistema cardiovascular", disse a pesquisadora.

Já a vitamina D pode ser encontrada em alimentos gordurosos, como a gema do ovo, peixes, como sardinha e atum, e queijos. Outra importante fonte de vitamina D para o corpo é a luz solar. Ana Caetano afirma que 15 minutos ao sol por dia são suficientes para ajudar o organismo a produzir essa substância.

Uma das funções da vitamina D é a de modular a resposta do sistema imunológico. Quando nossas células de defesa atacam o vírus, isso provoca uma inflamação no organismo que, em excesso, pode ser prejudicial.

Os médicos têm constatado, nos casos graves do coronavírus, uma resposta inflamatória que prejudica o funcionamento dos pulmões do paciente.

"Quem tem a forma mais grave são pessoas que perderam o controle dessa resposta imune que deveria ser protetora, mas começa a ser deletéria, porque começa a destruir o tecido do pulmão", afirma Caetano.

Apesar de o conhecimento sobre a vitamina D sugerir que ela possa ajudar a regular a resposta do corpo ao novo vírus, ainda não há estudos científicos que comprovem sua eficácia no tratamento de pacientes da covid-19, ou mesmo como deveria ser o protocolo para a prescrição da substância.

Nos hospitais, diz Ana Caetano, faz parte da rotina médica pedir exames para identificar o nível de nutrientes importantes à saúde, entre eles as vitaminas e minerais. Mas apenas pacientes com uma deficiência no nível dessas substâncias recebem suplementação, e sempre sob avaliação médica.

"Se as pessoas tiverem uma alimentação saudável, vão ter o aporte de nutrientes que precisam", diz a pesquisadora. "Por isso, é importante não descuidar da alimentação na quarentena", afirmou.

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