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Coronavírus

Nicolelis: Estamos numa guerra e inverno será o pico para outras infecções

Miguel Nicolelis é professor e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos EUA - Divulgação
Miguel Nicolelis é professor e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos EUA Imagem: Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para UOL, em Maceió

06/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Respeitado cientista brasileiro, Miguel Nicolelis diz que o isolamento social é a prioridade absoluta nesse momento
  • Ele afirma que, no inverno, o país terá mais problemas, devido à confluência de doenças como influenza, dengue e chikungunya com a covid-19
  • Nicolelis não crê que o coronavírus apresente taxa reduzida de transmissão em locais mais quentes, como é o caso da região Nordeste

Médico e premiado neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis é um dos coordenadores do comitê científico montado pelo Consórcio Nordeste, que congrega os nove governadores da região, para orientá-los a tomar medidas no combate ao coronavírus em seus estados. Em entrevista ao UOL, ele afirmou que o isolamento social é a prioridade absoluta nesse momento e que ainda é muito cedo para repensar a medida.

Pós-doutor em fisiologia e biofísica e professor e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Nicolelis disse ainda que "estamos numa guerra" e que, com a chegada do inverno, o país terá ainda mais problemas, devido à confluência de doenças como influenza, dengue e chikungunya com a covid-19.

O trabalho de Nicolelis ganhou destaque na mídia durante a abertura da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, quando um exoesqueleto criado por ele possibilitou ao paraplégico Juliano Pinto dar um chute leve numa bola.

Inverno será uma "tempestade"

Nicolelis afirmou que a chegada do inverno deve coincidir com um momento de epidemia da covid-19, o que deve gerar um cenário problemático na rede pública de saúde.

"É preciso lembrar que estamos entrando no outono e vamos entrar no inverno, período de pico para infecções. E vamos ter uma tempestade perfeita para a confluência dessas doenças com o coronavírus. Doenças como influenza, dengue e chikungunya — essas duas últimas não são endêmicas na Europa e nos Estados Unidos", observou.

Nosso problema aqui pode ser cumulativo, porque os casos de coronavírus podem ocorrer junto com outras doenças ao mesmo tempo, e o sistema de saúde, ser completamente inundado com pacientes."
Miguel Nicolelis, codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos Estados Unidos

Calor não controla a pandemia

O cientista explicou que o ciclo da gripe no Brasil é medido pelo começo em Fortaleza. "Um dos pesquisadores de lá nos informou que, no Brasil, ela começa a aparecer quando surgem os primeiros casos no Ceará. E já começaram a aparecer. É como se tivesse um alerta inicial para o Brasil. Podemos ter a confluência de todas essas moléstias infecciosas", relatou.

Nicolelis não crê que o vírus vá apresentar taxa reduzida de transmissão em locais mais quentes, como é o caso atual da região Nordeste.

"Isso ainda não está claro. Existe gente estudando no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, havia a sensação de que o vírus não chegaria ao sul do país tão rapidamente, mas no mapa já vimos que ele explodiu em Miami, em Los Angeles, em Nova Orleans. Conheço bem essas cidades, realmente não esperava que [o surto de covid-19] fosse tão grande e tão rápido. Se o que está ocorrendo nos Estados Unidos for o padrão, não há uma diminuição de circulação do vírus por um aumento de temperatura", finalizou.

"Isolamento social é essencial"

O neurocientista elogiou a decisão dos governadores de contratar cientistas para embasar as decisões e disse que o modelo deve ser seguido por todos. Além dele, o comitê científico do Nordeste é coordenado pelo físico e ex-ministro Sérgio Rezende.

"Nesse momento é consenso que o isolamento social é essencial. A posição do comitê é de que a prioridade zero é o distanciamento social, como preconizado em todo o mundo e já defendido pelo consórcio dos governadores do Nordeste. Não há prazo [para acabar esse isolamento]", afirmou.

"É essencial que os governadores tenham as informações que a ciência pode fornecer para eles tomarem decisões que vão afetar a vida de milhões de pessoas. Nós vamos atuar criando redes de contatos com todos os profissionais como médicos, tecnólogos, cientistas, epidemiólogos, médicos, sanitaristas, cientistas da computação dos estados do Nordeste e de outros estados, para poder suprir os governadores com informações e propostas em múltiplas áreas. Essa pandemia tem de ser atacada de maneira multidirecional. Os problemas são múltiplos", relatou.

Para ele, é necessário realizar testes para monitorar onde estão surgindo mais casos novos. "Precisamos também distribuir insumos, produzir insumos para enfrentar a crise de equipamentos. A própria matéria-prima para essas vestes e máscaras sumiu do mercado internacional. Essa é uma dificuldade tremenda, mas cientistas costumam ser criativos para achar soluções para problemas que parecem impossíveis", comentou Nicolelis.

Levantamento sobre necessidades de cada estado

A partir de agora, o comitê ficará em permanente contato para fazer um levantamento imediato das necessidades de cada estado. "Uma das nossas funções na comissão é levantar essas fragilidades, criar modelos matemáticos", explicou o coordenador do comitê científico do Nordeste.

Para chegar a esse modelo, o comitê projeta usar instituições e pesquisadores da região. "Isso vai ser essencial para identificar as fragilidades também logísticas, não só do ponto de vista sanitário. Nós vamos colaborar e ouvir todos esses especialistas e coordenar a compilação desses resultados para ter uma visão macroscópica. De certa forma, você pode comparar como criar um 'estado maior' científico, digamos assim, porque estamos numa guerra; essa é a única definição correta que pode se ter nesse momento", acrescentou.

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