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Não nos damos conta que podemos estar com covid-19, diz médico afastado

Evaldo Stanislau, infectologista - Arquivo Pessoal
Evaldo Stanislau, infectologista Imagem: Arquivo Pessoal

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

08/04/2020 04h00Atualizada em 08/04/2020 12h41

O médico infectologista Evaldo Stanislau, 52, que atua no Hospital das Clínicas, na capital paulista, está em isolamento desde a última quinta-feira (2), quando surgiu a suspeita de ter contraído o novo coronavírus. Também diretor da Sociedade Paulista de Infectologia, ele fez, na última segunda-feira (6), algumas reflexões a respeito do trabalho durante a pandemia e de como vinha lidando com os sintomas. Hoje pela manhã, resultado do exame confirmou que ele está com covid-19. Leia a seguir o depoimento dado ao UOL:

Trabalho em vários hospitais. Sou médico do Hospital das Clínicas, onde ocorre a operação de transformar o Instituto Central [do Hospital das Clínicas] em um grande "Instituo de Covid-19". Também trabalho em outros hospitais em que fazemos o mesmo. Moro em Santos [litoral]. Trabalho aqui na Baixada Santista e em São Paulo.

Em todos os hospitais, trabalhei normalmente até quinta-feira (2) e tive contato com colegas que sabemos agora estão infectados.

Era uma jornada, em média, de 14 horas por dia. Dormindo, em média, quatro a cinco horas por noite, quando muito.

Vou fazer amanhã [terça-feira (7)] 52 anos. Pratico esporte regularmente, tenho uma vida regrada. Procuro me cuidar. Não tenho nenhuma doença importante.

O que acontece comigo e com outros profissionais que estão já confirmados ou com caso suspeito é exatamente isso: exposição mesmo. Esse vírus é extremamente contagioso

Não imputo isso a nenhuma falta de imunidade. É próprio à questão do vírus, que nós já percebemos que é muito grave, muito impactante. O que lamento é que, de maneira geral, muitas pessoas não tiveram essa compreensão da dimensão daquilo com o que a gente está lidando.

Estava lendo um artigo no New England [publicação científica da área de medicina] e me identifiquei muito com ele porque diz que muitos médicos começam a perceber que estão com cansaço excessivo, umas dores musculares, começa com uma tossezinha. "Ah, mas é uma tosse que eu sempre tive", "cansaço do trabalho", "é normal". Eles não se dão conta que eles mesmos devem estar doentes.

Me identifiquei muito com isso porque, na quarta-feira [1º], comecei a sentir um pouco de mal-estar. Na quinta [2] de manhã, comecei com uma tossezinha, um certo mal-estar. Na quinta-feira, ao longo do dia, essa tosse aumentou. E à noite estava completamente extenuado. Parecia que tinha sido atropelado por um caminhão, um trator. Porque tinha muita dor muscular, muito mal-estar, uma perda de energia, uma tosse.

Na sexta-feira [3], realmente fiquei bem comprometido, com muita tosse, muita dor de cabeça, garganta incomodando, uma tosse seca, que irrita. E febre.

No sábado [4], fui fazer exames. Saí, fiz tomografia, exames de laboratório. Quando voltei, parecia que tinha corrido uma maratona. Estava extremamente desenergizado, passei o sábado de cama depois disso. Muito, muito cansaço.

No domingo [5], a coisa melhorou um pouquinho na questão das dores musculares. A tosse diminuiu um pouco. Mas a gente percebe que são altos e baixos.

E perdi completamente olfato e paladar. Não sinto cheiro. Paladar, muito pouco. Desde uns dias estou assim, um quadro que é muito descrito, muito característico na covid-19.

E tenho medido minha oxigenação com regularidade. Ela chegou a valores que me preocuparam. Cheguei a ter 93 de saturação, 94. Depois, ela se estabilizou e tem se mantido entre 95 e 96. O normal seria 98, 99. Para você ter ideia, 93 é quando a gente interna. Paciente de covid-19 com 93 é indicação de internar.

Ontem [domingo], em alguns momentos, cogitei ir para o hospital. Mas estou tentando evitar isso porque, de maneira geral, me sinto bem. Tem momentos que pioram.

Mas divido essas situações com meu médico, e a gente vai controlando. Tenho uma condição diferenciada porque eu mesmo sou médico, minha esposa é médica.

Então, me permito evitar ir para o hospital. Mas não tenho dúvidas que, se tiver alguma piora, irei para o hospital. Não tenho nenhum questionamento quanto a isso.

A minha esposa, por exemplo, automaticamente por ser contactante de caso suspeito foi afastada de todas as suas funções profissionais. Então, impactou na rede de trabalho dela. Ela não dá plantão, ela não vê doentes. Ela está afastada. É uma medida que tem que ser tomada, mas veja o efeito cascata.

Tenho uma família diferente. Meus filhos são jovens, saudáveis. São gêmeos, têm 22 anos. São dois alunos de medicina e uma esposa médica. Então, eles são bastante técnicos na visão disso.

E estou na minha casa afastado deles [da esposa e dos dois filhos]. Na quinta-feira, quando a minha ficha caiu, de que eu poderia ser um caso suspeito de covid, eu mesmo já tomei essas providências e me afastei. Então todos os meus talheres, meus objetos pessoais, tudo é separado. Ninguém está tendo contato comigo.

Fico no meu quarto. Tenho o privilégio de ter um quarto suíte. Fico restrito ao meu quarto. Tenho um escritório anexo, onde venho também. E fico longe deles.

Aliás, esse é um aspecto muito ruim. Porque o isolamento é difícil. Você ficar longe de quem você ama... Sei que às vezes é até mesquinho porque tem gente que morreu. Não dá para comparar com quem morreu, com quem perdeu alguém. Mas é difícil, às vezes, você ver as pessoas que você gosta, e você não pode dar um beijo, não pode dar um abraço.

Sou diretor da Sociedade Paulista de Infectologia. Nós temos um grupo de discussão da diretoria, e ontem ainda a gente debatia isso. Porque não sou só eu. Tem outros infectologistas, tem outros socorristas, todos padecendo da mesma coisa agora.

A gente fala: "caramba, e a gente usa EPI [Equipamento de Proteção Individual], a gente faz a higiene das mãos, a gente se policia e, mesmo assim, como é que acontece?" Então, uma possibilidade é que talvez a gente precise prestar mais atenção ao ambiente

A gente fala em muito em EPI, no uso do EPI, mas acho que temos falado pouco na higiene ambiental. É necessário que a gente tome mais cuidados nas rotinas de higienização de balcão, de enfermaria, de mobiliário, de computador, de telefone, de tudo que a gente usa no cotidiano e, automaticamente, nem percebe e que podem ser foco de infecção.

Nós, profissionais que estamos na linha de frente, acabamos contando com esse risco. Faz parte da nossa profissão. A gente sabe que vai ter algum risco. E, diante de uma situação como essa, fazemos de tudo para evitar, mas sabemos que é quase inevitável. É uma questão de tempo para a gente se expor.

Minha expectativa, meu foco, meu objetivo, primeiro, é que ninguém fique doente na minha família. E, segundo, que logo logo esteja de volta, lá na linha de frente, onde acho que posso ser mais útil.

Ontem [domingo], vi imagens de pessoas inclusive protestando, com aquela raiva que eles têm, querendo que o comércio abra, que é tudo uma imaginação, como se tudo isso fosse falso. Como pessoa que hoje sente na pele o que é isso, vejo com tristeza.

Acho que um dos grandes desafios da covid-19 é que ela cala fundo na nossa sensação de cidadania, nossa sensação de humanidade, do quanto a gente é capaz de fazer um ato pelo próximo e ser menos egoísta

A covid-19 demanda atitudes nossas que sejam de solidariedade, de pensamento ao próximo, de abrir mão do nosso prazer, da nossa convivência em sociedade pelo bem maior, que é a preservação da vida, que, às vezes, não é nem a nossa, mas de um terceiro que a evitaremos que se infecte não circulando.

Então, tenho tentando me ocupar, me ocupado em ser útil e olhar lá para frente. Estou louco para voltar para o campo. Não deixei de trabalhar, quero ser enfático nisso. Todos esses dias trabalhei remotamente, trabalhei por celular, por videoconferência, telefone, e-mail. Deixei de estar na linha de frente, mas não deixei de trabalhar.

Se te falar que não me preocupo, estarei mentindo. Mas não me permito ter medo. Prefiro confiar, olhar para frente e contar os dias para que me recupere e esteja de novo onde sou mais necessário, que é a linha de frente.

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