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Médica foi 1ª paciente infectada por duas linhagens do coronavírus no país

Pesquisa feita no Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz descobriu a reinfecção - Josué Damasceno/Fiocruz
Pesquisa feita no Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz descobriu a reinfecção Imagem: Josué Damasceno/Fiocruz

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

10/12/2020 17h57

Primeira paciente brasileira que teve reinfecção de covid-19 confirmada em laboratório, a médica do Rio Grande do Norte de 37 anos será acompanhada para ajudar cientistas a terem mais detalhes sobre como ocorre a segunda infecção. Ela foi o primeiro caso confirmado de infecções por duas linhagens diferentes do novo coronavírus no país.

A primeira coleta de 23 de junho, em João Pessoa, mostrou a linhagem B.1.1.33; já a do dia 13 de outubro, também na capital da Paraíba, apontou a B.1.1.28. Isso foi determinante para confirmar que se trata de um novo caso, e não de um reaparecimento do vírus, por exemplo.

A cientista responsável pelo sequenciamento viral que confirmou o primeiro caso de reinfecção, Paola Resende, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), diz acreditar que o caso se trata de uma paciente que não gerou a imunidade necessária para escapar de uma nova infecção em curto espaço.

Análise sorológica

"Já está em investigação uma análise sorológica para tentar entender se essa paciente, depois de duas infecções, desenvolveu uma imunidade ou não. Vamos avaliar ela também ao longo do tempo para entender como vai ser a resposta do organismo para nos ajudar a entender esse processo", completa.

Apesar de classificar o evento como algo ainda raro, ela cita que não há como uma pessoa saber se adquiriu imunidade após ter contraído e se curado da covid-19. Hoje, além do caso da médica no Rio Grande do Norte, há vários outros casos em investigação.

"Para termos a comprovação da reinfecção é necessário atender todos os critérios estabelecidos. Nosso grupo participa do grupo de estudo de reinfecção da OMS [Organização Mundial de Saúde], e alguns critérios estão sendo adotados: ter mais de 90 dias entre um episódio e outro, a sintomatologia tem de ser relacionada, o exame de RT-PCR precisa ser confirmado em outro laboratório. Tivemos esses critérios para se confirmar a reinfecção, além de uma amostra negativa entre os dois episódios", aponta.

A cientista explica que a reinfecção da médica potiguar ocorreu com uma linhagem diferente da primeira vez. Entretanto, isso não quer dizer que o vírus tenha se mutado a ponto de criar tipos diferentes, como ocorre no caso da Dengue —que tem quatro sorotipos diferentes.

"Eu acredito muito que essa reinfecção está mais relacionada com a capacidade do hospedeiro a produzir imunidade, do que com as linhagens circulantes. Porém, conforme vai evoluindo ao longo do tempo, a gente vai precisar revisar e se necessário alterar a cepa da vacina, como fazemos com o Influenza. Com quase um ano em circulação, as linhagens ainda são muito similares para gerar diferentes respostas. Mas a vigilância genômica e análises complementares precisam ser contínuas", explica.

Motivo de cuidado

A pesquisadora afirmou ainda que o caso deve servir como um alerta para as pessoas que já tiveram covid-19 e que se sente imune a um novo adoecimento.

"O que isso tem de reforçar é que você pode ter pego uma vez, mas não pode deixar as medidas de prevenção e ficar frequentando bares, shows, ou tudo isso que a gente está vendo nas ruas. Ter uma vez não é um passaporte de imunidade, esse tipo de informação que precisa ficar clara", explica.

Apesar disso, a pesquisadora diz acreditar que o número de casos similares devem ser minoria no país nesse momento em que enfrenta um novo aumento no número de casos.

"Claro que os casos [de reinfecção] podem contribuir para isso, mas eu acredito que a quantidade é reduzida. A gente está vendo que essa alta tem relação com pessoas que estão pegando pela primeira vez, flexibilização das medidas preventivas. Reinfecção é um evento raro, a gente ainda está entendendo como ocorre, tanto que esse primeiro caso foi uma profissional de saúde, que tem mais chance de contaminação", explica.

A pesquisadora ainda ressalta que o resultado só foi possível graças a um esforço em conjunto com os estados laboratórios centrais dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte e Fiocruz, que compõem a rede de vigilância do Ministério da Saúde.

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