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Filha vai à Justiça por UTI, mas pai morre na transferência: 'Impotência'

Alessandra Lourenço exibe a foto do pai Josemi, morto por covid-19 no Rio - Arquivo Pessoal
Alessandra Lourenço exibe a foto do pai Josemi, morto por covid-19 no Rio Imagem: Arquivo Pessoal

Tatiana Campbell

Colaboração para o UOL, no Rio

18/01/2021 04h00

A família do aposentado Josemi Alves Lourenço, que completaria 58 anos na última sexta-feira (15), em vez de comemorar, convive com o luto após tê-lo perdido há pouco mais de 1 mês vítima de covid-19. Ele deu entrada no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, zona norte do Rio, no começo de dezembro, mas a unidade não tinha vaga de UTI.

Josemi permaneceu então por 11 dias intubado em uma ala de específica para casos graves e, após a família conseguir na Justiça uma liminar para que fosse remanejado para um leito de UTI, ele morreu no momento da transferência. Alessandra Lourenço, 31, filha de Josemi, relata impotência por não ter conseguido salvar a tempo a vida dele. Acompanhe a seguir o depoimento dela.

"Meu pai internou em 3 de dezembro, estava consciente, mas com a saturação muito oscilante e com falta de ar. Ficamos aguardando um leito de UTI só que não tinha. Ele foi piorando, foi intubado, ficou na sala vermelha do Salgado Filho e a gente ficou procurando alguma UTI. Enquanto isso, só vinham as informações do estado dele piorando.

Dias depois de ele ter sido intubado, eu e minha tia começamos a procurar em hospitais [leitos de UTI], mas era sempre a mesma resposta: 'Não tem vaga'. Chegamos a encontrar em um hospital em Duque de Caxias [Baixada Fluminense], mas não é fácil assim. Ele só poderia ser transferido pelo Sistema de Regulação, mas já tinham outras pessoas na frente e precisávamos com urgência.

Era um sentimento de injustiça, porque conseguimos uma vaga, mas a transferência não seria imediata. E é uma vida que está ali. Eu só queria salvar a vida do meu pai

Josemi Lourenço e a filha Alessandra - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Josemi Lourenço e a filha Alessandra
Imagem: Arquivo Pessoal

Em um outro momento conseguimos outra vaga, mas não tinha ambulância. Quando eu vi que não estava conseguindo pelos meus meios, já que pelo sistema não estava funcionando, fui na Justiça.

Entramos na Justiça no dia 11, conseguimos a liminar já no dia seguinte. Foi bem rápido. Foi essa a forma que encontramos de salvar a vida do meu pai. No mesmo dia que eu consegui o documento, imprimi, fui até o hospital e entreguei pra eles.

A gente achou que ia conseguir finalmente fazer a transferência, mas quando entregamos a liminar, vi que não seria tão fácil. Eles falaram pra mim: 'Vou colocar no sistema que você conseguiu a liminar, mas a gente não garante que você vá conseguir a vaga porque tem outras pessoas que estão no mesmo caso. A fila está enorme para uma vaga de UTI'.

Tivemos de esperar a vaga aparecer com aquela angústia pelo meu pai estar definhando a cada dia. Dias depois, o hospital nos ligou avisando que tinha surgido uma vaga, pedindo a documentação dele para poder fazer a transferência e foi uma alegria. Eu pensei: 'Agora vamos conseguir dar um tratamento melhor pro meu pai'.

Nós então conseguimos esse leito na Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz], no dia 14. Eu e minha família fomos para a Fiocruz e meu irmão foi para o Salgado Filho para podermos acompanhar essa transferência.

Mas, na hora da transferência, os médicos falaram que ele não aguentou: teve uma parada cardíaca e veio a óbito. A ambulância já estava lá esperando, mas, no momento de transferir um tubo para o outro, ele não resistiu. É uma sensação horrível de impotência

Você vê lá o seu ente querido, ainda mais sendo meu pai, naquela situação e você de mãos atadas. Você tenta fazer as coisas e o sistema não funciona. É um descaso com a vida.

Por fim, eu não consegui. Tentei de todas as formas dar um tratamento melhor pro meu pai e infelizmente não consegui.

As pessoas não estão acreditando que essa doença passa. Tem pessoas que até transmitem, mas como não estão tendo nenhum sintoma, não precisam ir pro hospital, ficar intubado, não acreditam.

O meu pai era uma pessoa super saudável, se alimentava bem, era novo, a única comorbidade que ele tinha era a hipertensão, mas fazia exercícios. A gente se pergunta o porquê de isso ter acontecido. É uma doença inexplicável.

Na sexta [15], seria o aniversário dele —ele faria 58 anos— e, na quinta [14], fez 1 mês da morte dele. A gente não sabe como essa doença vai vir, como o organismo vai reagir. A gente acha que é forte. Ele não aceitava. Falava: 'Não, eu sou forte. Não estou entendendo pegar essa doença desse jeito'.

Hoje em dia eu e minha família, minha mãe e meus irmãos, só sentimos uma dor muito grande. Minha mãe, que era casada com ele há 38 anos, só chora, chora o tempo todo.

Queria que as pessoas acreditassem nessa doença, porque ela mata. As pessoas precisam se cuidar, ficar em casa e sair o mínimo possível. A doença está aí e ela não escolhe pessoas, ela não escolhe idade, não escolhe gênero."

Procurada sobre a falta de leitos de UTI denunciada por Adriana Lourenço, a Secretaria Municipal de Saúde encaminhou o seguinte posicionamento:

"A direção do Hospital Salgado Filho se solidariza com a família do senhor Josemir. O Sistema Estadual de Regulação conseguiu vaga no INI - Instituto de Infectologia da Fiocruz, mas, infelizmente, o paciente não resistiu e morreu antes de ser transferido para a unidade.

A fila para regulação é única e a avaliação para internação nas vagas das unidades são realizadas de acordo com a data da inserção no sistema e pela gravidade.

Durante sua internação no Hospital Salgado Filho, o Sr. Josemi recebeu todos os cuidados necessários para o seu quadro clínico. Em nenhum momento, houve falta de suporte de insumos ou profissionais de saúde. A família foi acolhida pela equipe médica da unidade, que permanece à disposição para esclarecer qualquer dúvida sobre o tratamento."

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