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Coronavírus

Reitora da Unifesp: Se necessário, Brasil deve quebrar patente por vacina

Reitora da Unifesp, Soraya Smaili se voluntariou para os testes da vacina de Oxford - Unifesp
Reitora da Unifesp, Soraya Smaili se voluntariou para os testes da vacina de Oxford Imagem: Unifesp

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

21/01/2021 04h00Atualizada em 21/01/2021 17h05

Apesar de um contrato assinado para receber 2 milhões de doses da Covishield —a vacina da Oxford/AstraZeneca—, os brasileiros só devem ser vacinados com o imunizante em março porque o Brasil ficou de fora da lista de países que receberão a vacina da Índia, e a China não tem prazo para enviar os insumos para fabricação local. Se necessário, a solução pode ser a quebra de patentes, já que o Brasil tem expertise para fabricar os insumos em território nacional.

A opinião é de Soraya Smaili, 59, reitora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a universidade brasileira responsável pelos testes da fase 3 da vacina de Oxford, a ser fabricada no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Em entrevista ao UOL, a reitora aponta a escassez de investimentos em ciência como a principal razão para a dependência brasileira da vacina e de seus insumos.

"Nos anos 1990, o Brasil quebrou a patente de muitos medicamentos da Índia, como os que compõem o coquetel antiaids", afirmou a reitora. "Se for de interesse nacional e da indústria, a gente tem de pensar em todas as possibilidades."

Graduada em farmácia e bioquímica, mestre e doutora em farmacologia, Smaili afirma que o Brasil não seria dependente da importação de insumos e poderia até lançar sua própria vacina se universidades e instituições como Fiocruz e Butantan recebessem investimentos suficientes.

Sem isso, a solução é esperar, ou quebrar patentes. Até lá, a reitora se dedica a convencer os brasileiros de que a Covishield é confiável. Para isso, ela mesma se voluntariou a participar dos testes na Unifesp que ajudaram a atestar a eficácia geral de 70% da vacina.

Eu me voluntariei para dar o exemplo de que o estudo é confiável, a ciência tem método, é criteriosa. Eu tenho medo da covid, não da vacina
Soraya Smaili, reitora da Unifesp

UOL - De que forma a Unifesp participou das pesquisas da vacina de Oxford?
Soraya Smaili - A Unifesp tem tradição em pesquisar vacina porque há quase três décadas temos o Crie (Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais) atuando em pesquisa, ensino e campanhas de vacinação. Na vacina de Oxford, o Crie coordenou a fase 3 dos testes no Brasil, a mais avançada. Os dados resultantes foram somados a outros da África do Sul e Reino Unido. É o que foi avaliado pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], que atestou a eficácia geral de 70% da Covishield, o que é bastante bom.

O que mais surpreendeu nos resultados?
O objetivo principal das vacinas é proteger as pessoas de adoecerem, mas a Covishield também pôde prevenir o contágio em um subgrupo, uma busca grande no mundo todo. Eu não tenho os dados desse subgrupo porque ainda são preliminares, emergenciais. Isso ainda tem de ser explorado, os estudos continuam.

Como funciona essa prevenção?
Depois de tomar a vacina e entrar em contato com o coronavírus, as pessoas desse subgrupo são infectadas, mas não transmitem o vírus. A vacina pode acabar atuando como um medicamento, uma espécie de antiviral, que neutraliza o vírus e seu contágio. Em geral, as vacinas impedem que o imunizado adoeça, não bloqueiam sua transmissão.

Quais as outras vantagens da vacina de Oxford em relação às outras?
Primeiro, ela tem 70% de eficácia geral. O intervalo de confiança de 50% a 85% significa que o ponto mais baixo de eficácia da Oxford equivale à eficácia geral da CoronaVac [que é de 50,38%].

Por favor, não quero desmerecer essa vacina, queremos todas elas. A outra vantagem é que a Covishield protege 70% após três semanas da primeira dose. E tem o custo: ela ficou em US$ 3, contra US$ 10 da CoronaVac. Ela também pode ser armazenada em frascos de até dez doses em geladeira comum. Quando o Brasil tiver a quantidade suficiente de vacinas, vamos conseguir vacinar milhões em um único dia.

Em novembro, a Oxford admitiu erro na administração da dosagem com diferença de eficácia: 62% entre quem recebeu duas doses e 90% para quem recebeu meia dose seguida de uma dose completa. Por que não usar a dosagem menor se a imunização foi superior?
Precisamos aplicar as duas porque a pesquisa foi feita dessa forma e, seguindo a ciência, tem de aplicar aquilo que foi estudado. Paralelamente, pode ser feito outro estudo --e eu faria isso se eu fosse a Oxford-- com uma dose só ou com a dose e meia. A questão é: quem quer ficar com uma dose só? As pessoas querem o máximo de segurança.

O que a senhora acha da estratégia do Reino Unido de aplicar apenas uma dose para o máximo de pessoas possível, aumentando o tempo para a aplicação da segunda dose?
A segunda dose da Covishield pode ser aplicada em oito, até dez semanas. Eu acho essa estratégia extremamente interessante porque ainda não temos o número de doses suficientes para todo mundo. Se fizer um intervalo maior --oito semanas são dois meses--, dará tempo de conseguir uma produção suficiente para a segunda dose, pelo menos aos grupos vulneráveis.

A Índia vai atrasar o envio da vacina e a China a entrega do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) para o Brasil envazar. Esse atraso te causa apreensão?
Muita apreensão porque dependemos desses insumos para fazer as vacinas aqui. Veja a importância de investir em ciência.

Por que dependemos dessas importações?
Porque falta investimento em ciência no Brasil. Outros países que tinham diminuído seus investimentos nos últimos anos, como a Espanha, Reino Unido e os EUA da era Donald Trump, agora voltam a investir. Já imaginou se tivesse produção de respiradores no Brasil? É a ciência que promove tecnologia e possibilita que a indústria nacional produza esses insumos.

A senhora defende que o Brasil quebre a patente dos insumos da Índia e China para fabricar as vacinas?
Se for necessário, sim. Se for de interesse nacional e da indústria, a gente tem de pensar em todas as possibilidades. Nos anos 1990, o Brasil quebrou a patente de muitos medicamentos da Índia, como os que compõem o coquetel antiaids.

A quebra da patente fez com que o Brasil desenvolvesse seus laboratórios de genéricos, que hoje produzem muitos remédios. A ciência garante soberania, autonomia, a um país. Sem dinheiro e política voltada à ciência, o Brasil vai continuar dependente da importação de insumos

A Fiocruz e o Butantan não conseguem criar sua própria vacina? Não é melhor do que depender de outros países?
Eles têm condições de criar. Tem muita experiência, profissionais muito bem formados. Hoje o Brasil desenvolve pelo menos cinco vacinas próprias, uma delas na Unifesp. Mas volto a dizer: falta investimento. Precisaria investir muito mais, milhões de reais em cada uma. Sem investimento sério e consistente, uma vacina brasileira pode até sair, porque as pessoas são muito dedicadas, mas vai demorar muito.

Esse atraso não vai gerar desconfiança sobre a vacina?
Desconfiança não, mas pode trazer frustração. Toda a emoção que a gente sentiu no domingo, com o início da vacinação, pode se perder aos poucos se não houver data de entrega. As pessoas podem perder a esperança de novo. Não é bom que a sociedade desanime neste momento. É importante ter esperança e também continuar com isolamento e uso de máscara, independentemente de termos o imunizante.

A senhora é reitora da Unifesp, não precisaria fazer parte dos testes da vacina. Por que se voluntariou?
No ano passado, alguém me perguntou o seguinte: "se a vacina é tão boa como você diz, por que não aplica em você mesma?". Eu respondi que aquela era uma boa ideia e perguntei à doutora Lily Yin Weckx, coordenadora do estudo, se havia algum problema se eu participasse, e ela agradeceu porque precisava de voluntários. O meu marido, que é professor universitário, também se entusiasmou e participa do estudo.

A senhora não tem medo?
Já fiz parte de outros estudos como voluntaria na universidade; é relativamente "normal". A gente conhece a comunidade, os cientistas e tem confiança na ciência. Eu me voluntariei para dar o exemplo de que o estudo é confiável, a ciência tem método, é criteriosa. Eu tenho medo da covid, não da vacina.

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