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Vacinados com AstraZeneca estranham 'termo de ciência' para dose da Pfizer

13.set.2021 - Fila da vacinação na UBS Dr. Humberto Pascale, na Santa Cecília, no centro da capital - Leonardo Martins/UOL
13.set.2021 - Fila da vacinação na UBS Dr. Humberto Pascale, na Santa Cecília, no centro da capital Imagem: Leonardo Martins/UOL

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

14/09/2021 04h00Atualizada em 14/09/2021 09h47

No dia em que os imunizados com AstraZeneca puderam receber a tão aguardada segunda dose — com a liberação da aplicação do imunizante da Pfizer—, uma nova medida causou insegurança em quem procurou os postos de imunização em São Paulo nesta segunda-feira (13). Foi exigida a assinatura de um "termo de ciência de intercambialidade".

O texto do termo afirma que a pessoa está recebendo uma vacina de segunda dose diferente da que tomou em primeira dose e termina dizendo que o paciente recebe o imunizante "tendo realizado a avaliação de risco e benefício para proceder com a vacinação contra a covid-19". A exigência do termo foi derrubada na manhã desta terça-feira.

Vacinados ouvidos pelo UOL relataram não ter sido informados com antecedência sobre o termo e que se sentiram inseguros ao assiná-lo.

"A gente já tem medo da reação. Dá receio tomar uma [de um laboratório] e depois tomar outra [de outro laboratório]. Não sabemos se é seguro. Acho que não precisaria [do termo de ciência]. Se eles estão dando, não precisamos nos comprometer. Até brinquei com a enfermeira: 'estamos assinando porque, se morrer, não vai dar B.O. para ninguém, né?'", disse o gerente de restaurante, Antonio Donizete Ribeiro, 52, que foi se vacinar na UBS Dr. Humberto Pascale, na Santa Cecília, no centro da capital paulista

Antônio Santos de Souza, 54, também achou estranho. "Estou me sentindo bem, feliz tomar a vacina. Mas a responsabilidade é deles. Só que a gente teve que assinar", disse

Para Viviane de Carvalho Ferreira, 35, a sensação, primeiro, foi de alívio por ter feito a "lição de casa". "Eu fiquei mais segura porque eu pesquisei e vi em alguns estudos que é até melhor, fiquei mais segura", disse.

De fato, o intercâmbio de doses da vacina da AstraZeneca e da Pfizer tem aval do Ministério da Saúde e do comitê científico da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Mas o incômodo por ter de assinar um documento que não estava previsto, ela afirma, foi inevitável.

Era para eu ter tomado [a vacina] no dia 11, fiz tentativas em alguns postos, mas foi um pouco melhor a sensação quando soube que ia poder tomar a da Pfizer. Eu acho que a responsabilidade não é nossa, são deles. Mas, tudo bem, é melhor assinar e tomar do que ficar sem [vacina]"
Viviane de Carvalho Ferreira, sobre a assinatura do termo de ciência

13.set.2021 - Modelo de "termo de ciência" encaminhado pelo governo de São Paulo aos municípios para aplicação de segunda dose da Pfizer em imunizados com AstraZeneca - Reprodução - Reprodução
13.set.2021 - Modelo de "termo de ciência" encaminhado pelo governo de São Paulo aos municípios para aplicação de segunda dose da Pfizer em imunizados com AstraZeneca
Imagem: Reprodução

A obrigatoriedade da assinatura do termo de ciência é regra nas unidades de saúde na capital paulista, apesar de o UOL ter ouvido ao menos duas pessoas que afirmaram não ter assinado nenhum documento.

A Prefeitura de São Paulo e governo estadual divergem quanto à obrigatoriedade de assinatura do termo. O governo paulista afirmou à reportagem que "o documento citado não é obrigatório, sendo facultada aos municípios a sua utilização. Trata-se de um Termo de Ciência e, como o próprio nome diz, visa informar ao próprio cidadão sobre a estratégia de imunização com intercambialidade".

Por outro lado, ao UOL, o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, rebate o governo, diz que a medida foi determinação do estado e que houve mudança de posicionamento por parte da equipe de Saúde do governo de João Doria (PSDB).

"Nós colocamos o termo de ciência após determinação do PEI (Programa Estadual de Imunização). O estado determinou que hovesse isso. O instrutivo veio com essa obrigação, e nosso instrutivo foi também desse jeito", afirmou.

O UOL obteve acesso à orientação do governo do estado aos municípios. Nele, o governo estadual escreveu: "A intercambialidade excepcional e emergencial só está autorizada para pessoas que estejam com segunda dose prevista entre 1º e 15 de setembro, assim essas pessoas que efetivaram a primeira dose com o imunobiológico da AstraZeneca poderão ter seu esquema vacinal completo com o uso da vacina do fabricante Pfizer, respeitando o intervalo entre as doses de 12 semanas, mediante assinatura de termo de ciência".

Procurada novamente, a secretaria de Saúde endossou que não se trata de medida obrigatória e que vai atualizar o instrutivo.

"O Centro de Vigilância Epidemiológica esclarece que o documento citado não é obrigatório. Trata-se de um Termo de Ciência e, como o próprio nome diz, visa informar ao próprio cidadão sobre a estratégia de imunização com intercambialidade. De todo modo, será publicada atualização do informe técnico de forma a facilitar a compreensão por parte dos gestores", disse em nota à reportagem.

Apesar do imbróglio, a prefeitura comemora a vacinação com intercâmbio de doses. Os imunizantes da Pfizer chegaram às unidades de saúde às pressas por volta das 15h. Em quatro horas de vacinação, na capital, foram imunizados 49.162 pessoas, segundo a gestão municipal.

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