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SP: Não vacinadas, crianças internadas com covid aumentam na capital

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Imagem: iStock

Ana Paula Bimbati e Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

04/10/2021 04h00Atualizada em 04/10/2021 11h45

João Miguel, 1, filho da empresária Natália da Silva Pedroso, 31, não havia completado nem um ano de vida quando foi internado com covid-19. A tosse severa preocupou os pais, que o levaram até o pronto-socorro e lá tiveram a confirmação do diagnóstico.

Ele ficou internado por mais de uma semana em março, no hospital particular Vitória, na zona leste da capital. "Já no teste a gente se assustou, porque o teste é igual o nosso e colocam bem no nariz. Ele tinha oito meses, deu muito dó", relembra Natália.

A situação vivenciada por ela se repete com outras famílias. Enquanto as internações totais na cidade apresentam tendência de queda, as hospitalizações de crianças tanto na capital paulista quanto na Grande São Paulo apresentam alta.

A empresária Natalia da Silva Pedroso e seu filho João Miguel Pedroso Bessa de 1 ano e 2 meses - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A empresária Natália da Silva Pedroso e seu filho, João Miguel Pedroso Bessa, de 1 ano e 2 meses
Imagem: Arquivo pessoal

Na cidade, um pico de hospitalização se apresenta desde agosto e se estende por setembro, semelhante ao aumento de abril, quando o país batia recordes de casos, mortes e internações.

Até o último dia 29 de setembro, havia uma média de 35,4 internações de crianças em leitos covid-19 de três hospitais infantis da capital. Em 22 e 23 de setembro, esse número era de 37, semelhante aos patamares de 29 de agosto e 19 de abril.

João Miguel, que agora já completou 1 ano, precisou ficar no oxigênio. "Como era bebê, não deixava ficar com o oxigênio no nariz e o que ajudou foi aumentar bastante e deixar mais longe dele", contou Natália.

Para a empresária, a parte mais difícil como mãe foi vê-lo na UTI, já que precisava ser "furado" para receber remédios. João tomou antibiótico, porque também foi diagnóstico com bronquielite.

Picos após retornos escolares

Os registros de internação foram obtidos na plataforma da Secretaria de Estado de Saúde, compilados pelo Info Tracker (plataforma criada pelas universidades USP e Unesp para monitorar a pandemia) e repassados ao UOL.

O grupo analisou dados de internações em 2021 de três hospitais públicos infantis: Cândido Fontoura São Paulo, Darcy Vargas e Menino Jesus. O último sob gestão municipal.

Wallace Casaca, coordenador do Info Tracker e professor da Unesp, destaca que os picos das internações ocorrem cerca de duas semanas após o retorno das atividades escolares. Catorze dias é o tempo médio indicado entre a infecção e a internação pela doença.

"Embora não dê para cravar que esse comportamento foi em decorrência da abertura escolar, os dados apresentam certos indícios que, quando concatenados com as datas de reabertura escolar, se tornam um indício que tem relevância", explica.

Em 15 de fevereiro, as escolas municipais de São Paulo reabriram em esquema híbrido. Menos de 14 dias depois, em 26 de fevereiro, a média móvel de internações saltou 26%.

Após essa abertura, os registros de internação passaram a subir, até atingir o recorde de 43,14 hospitalizações em média no dia 8 de abril.

Após o aumento dos casos e óbitos em todo o país, as escolas voltaram a fechar e só reabriram novamente em 12 de abril, quando a as hospitalizações ainda apresentavam tendência de alta.

Em 1º de agosto, as escolas foram autorizadas a retornar com 100% dos alunos. Dezoito dias depois, a curva de internações voltou a apresentar tendência de alta. Hoje ela se encontra estabilizada, mas ainda em um patamar de 35, em média, por dia.

O mesmo fenômeno pode ser observado nos números da Grande São Paulo, em que o pico se deu em 6 de abril com 59,43 internações em média. Atualmente o número está estabilizado em 47,8.

Procurada pelo UOL, a Secretaria Municipal de Saúde informou que, entre julho e agosto de 2021, houve aumento nas internações por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) para crianças de 0 a 4 anos e, entre junho e julho, para as faixas etárias de 5 a 9 anos e de 10 a 14 anos.

"Até o momento não há aumento significativo no número de internações por SRAG confirmada para covid-19 nas faixas etárias selecionadas", afirma a pasta.

"O que eles podem alegar é que, ao comparar com a faixa etária dos idosos, as internações infantis são pequenas", diz Wallace Casaca. "Tudo bem, concordo que é pequena, mas você ter 90 mil internações infantis no ano não é razoável."

A de adultos teve mais de 1 milhão. Mesmo assim, a gente está falando de criança, é muito delicado."
Wallace Casaca, coordenador do Info Tracker e professor da Unesp

Não vacinadas, porém circulando

Para o infectologista do Hospital das Clínicas Evaldo Stanislau, uma das explicações para o aumento nas internações é "matemática". "Você tem mais crianças se expondo ao risco, indo para aula e outros lugares, o que pode refletir no aumento", afirma.

Além disso, a não imunização em crianças pode ter impacto significativo. "A vacinação nesse público não aconteceu de maneira significativa, nem no grupo etário autorizado, enquanto a de adultos já avançou. Logo, o vírus encontra um caminho mais fácil, porque a população adulta já está mais vacinada", explica.

"O aumento da internação de crianças é fundamentalmente porque esse é o público não vacinado e também as atividades presenciais de escolas que voltaram com bastante força", concorda Bernadete Perez, médica sanitarista e vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).

"A gente não está em momento de segurança sanitária para que as atividades voltem desse jeito. A gente sabe que, ainda que tenha tido uma queda substancial e sustentada no número de casos e óbitos, ela ainda é muito alta", completa a sanitarista.

Stanislau também recomenda que se mantenham os protocolos sanitários contra a covid mesmo com aumento da vacinação.

Enquanto não tivermos a transmissão comunitária baixa no Brasil e, ainda não temos indícios disso, penso que máscara, sobretudo nos ambientes aglomerados como transporte público, onde você não está sozinho, é essencial."
Evaldo Stanislau, infectologista do Hospital das Clínicas

O que dizem as secretarias

Procurada, a secretaria municipal de Saúde informou que não há, no momento, nenhuma internação infantil com covid no hospital Menino Jesus. Desde o dia 27 de agosto, segundo a pasta, o local internou três crianças com coronavírus, mas que já receberam alta.

"O total de casos respiratórios em geral está associado ao período de sazonalidade, associado também com o clima atual de grande secura e amplitude térmica", justifica a prefeitura.

Essa é a mesma justificativa dada pela médica Luciana Becker, da comissão médica da secretaria estadual de Educação. "Temos uma sazonalidade de aumento das doenças respiratórias, ele foi inferior em maio devido a pandemia, mas em agosto não", explica.

Becker disse também que a escola "reflete o que acontece fora dela", mas afirmou que o boletim das escolas, que deve ser divulgado em breve, mostrará queda nos números.

Já a secretaria estadual da Saúde disse desconhecer a "metodologia adotada pelo Info Tracker" e que a "lógica alarmista é inadequada e apartada do perfil sazonal de doenças respiratórias já conhecido pelas autoridades de saúde, especialmente quanto às crianças".

A reportagem informou para ambas as secretarias que os dados foram retirados do sistema do governo estadual.

"Os números levantados junto ao próprio Hospital Darcy Vargas, por exemplo, mostram que mais de 85% dos casos de SRAG eram relacionados a outros vírus, como Influenza, Adenovírus e Sincicial Respiratório, e não o SARS-Cov-2", informou a pasta.

A secretaria afirmou ainda que as crianças com menos de nove anos representam 2,9% dos casos e 0,1% óbitos, "com prevalência de comorbidades em 65% das vítimas infantis da doença".

Becker apontou ainda que os dados da plataforma do governo estadual apresentam casos suspeitos e confirmados. O sistema, porém, apresenta os números como "leitos de covid". "É uma confusão que acontece no sistema de dados. Ocupo o leito até receber o resultado do exame, em geral ele é negativo", disse a médica.

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