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Coronavírus

Cientistas encontram mutações da delta no Brasil mesmo com vacinação alta

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

02/12/2021 04h00

Pesquisadores brasileiros publicaram resultado preliminar de pesquisa em que apontam ter identificado duas novas sublinhagens da variante delta em São Paulo. O artigo foi coordenado por cientistas do Instituto Butantan. A variante, originária da Índia, responde hoje por cerca de 95% das infecções de covid-19 no Brasil.

"É interessante como elas se espalharam; e uma coisa chama a atenção: a gente observar mutações do coronavírus mesmo em uma população vacinada e com número de casos em queda. Isso precisa ser acompanhado", afirma o pesquisador Alex Ranieri, do laboratório do Centro de Desenvolvimento Científico do Butantan e um dos autores do estudo.

Ao todo, para chegar ao resultado, foram analisadas 492 sequências genéticas do novo coronavírus, a maioria delas obtida na região metropolitana de São Paulo.

Segundo o estudo, as sublinhagens (AY.43.1 e AY.43.2) devem ter se originado no Brasil, mais especificamente em São Paulo.

"Mais estudos são necessários para investigar a disseminação nessas duas sublinhagens no Brasil, mas resultados preliminares mostram que a maioria das sequências são originárias da cidade de São Paulo", diz o artigo, que está em fase de pré-print, ou seja, à espera da revisão de outros cientistas para publicação final.

Vale do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo, é reaberto neste domingo,   25 de julho de 2021 - Nelson Antoine/Estadão Conteúdo - Nelson Antoine/Estadão Conteúdo
Vale do Anhangabaú, em São Paulo: sublinhagens foram achadas circulando na capital
Imagem: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo

O que mudou na delta

Em uma das sublinhagens encontradas, os cientistas acharam duas mutações novas. "Até onde sabemos, o impacto dessas mutações é desconhecido", afirma o artigo.

Segundo Alex Ranieri, como o vírus segue em constante mutação, é normal que algumas das mudanças encontradas ainda estejam fora da literatura mundial.

"Elas ainda não têm um estudo de impacto feito. Como essas coisas surgem muito rápido e os experimentos em laboratório demoram, pode ser que já estejam estudando, mas ainda não foi divulgado um resultado", explica.

Um dado que também chamou a atenção foi uma mutação similar encontrada por pesquisadores no Chile. "Há uma linhagem parente identificada lá. Esse vírus [originário] veio da Europa para cá e aqui sofreu essas mutações semelhantes à do Chile, o que mostra uma tendência dessa variante delta", explica.

No caso da segunda sublinhagem, outro fato despertou interesse dos cientistas. "A outra teve uma mutação com efeito deletério, ou seja, foi prejudicial a ela", diz.

Ele explica que, segundo as análises, essas sublinhagens estão circulando desde agosto. Para ele, a princípio não há preocupação de que causem mudança no curso da pandemia no país nem "furem" o efeito das vacinas.

"Foram mutações em proteínas relacionadas à replicação viral, não está relacionado a escape imune. Essas mutações são do vírus tentando ser mais transmissível. Não está relacionado a nada de mudar a forma da doença", afirma.

Entretanto, para ele, descobertas como essa servem de alerta ao país para que continue realizando vigilância genômica para saber, em tempo real, as mudanças do SARS-CoV-2. "Essas sublinhagens estão com uma tendência maior de queda,

Na conclusão, os pesquisadores defendem que o monitoramento do genoma do SARS-CoV-2 é crucial.

Os dados obtidos mostram a importância da vigilância genômica do SARS-CoV-2 para a identificação de linhagens emergentes. Isso é particularmente importante porque as linhagens emergentes podem exercer um enorme impacto nos sistemas de saúde pública devido ao aumento da infectividade e transmissão."
Trecho do artigo científico

"Por meio dessa abordagem, podemos detectar em tempo hábil a presença de novas variantes do SARS-CoV-2 e implementar estratégias para prevenir sua disseminação, o que pode ter implicações adicionais na vacinação do SARS-CoV-2 e nas políticas de saúde pública", finaliza o texto.

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