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4 meses

Maioria em consulta rejeita prescrição para vacinar criança, diz secretária

Ministério da Saúde promoveu consulta pública sobre a vacinação contra a covid-19 em crianças - iStock
Ministério da Saúde promoveu consulta pública sobre a vacinação contra a covid-19 em crianças Imagem: iStock

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília*

04/01/2022 12h10Atualizada em 04/01/2022 12h53

A secretária extraordinária de enfrentamento à covid-19 do Ministério da Saúde, Rosana Leite de Melo, afirmou hoje que a maioria dos participantes da consulta pública sobre a vacinação contra a covid-19 em crianças rejeitou a obrigatoriedade de se apresentar uma prescrição médica no ato da imunização dessa parcela da população.

Segundo Rosana, em audiência pública sobre a vacinação contra o novo coronavírus em crianças de 5 a 11 anos, quase 100 mil pessoas participaram com respostas ao questionário, que recebeu críticas de especialistas e líderes de sociedades médicas e científicas. A consulta foi encerrada no domingo (2).

"Tivemos, senhores, 99.309 pessoas que participaram nesse curto intervalo de tempo, cujo documento esteve para consulta pública. Sendo que a maioria se mostrou concordante com a não compulsoriedade da vacinação e a priorização das crianças com comorbidade. A maioria foi contrária à obrigatoriedade de prescrição médica no ato de vacinação", declarou.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) é defensor da exigência de que uma prescrição médica seja apresentada no momento da aplicação da vacina para que as crianças sejam imunizadas. Até o momento, o Ministério da Saúde pretende recomendar que a vacinação em crianças aconteça desde que mediante a apresentação de uma prescrição médica e o consentimento dos pais.

Ao menos 19 estados e o Distrito Federal, porém, já indicaram que não vão cobrar o documento.

No final de dezembro, Rosana Leite de Melo afirmou que a vacina anticovid desenvolvida para crianças é segura, o que contraria questionamentos de Bolsonaro. A afirmação consta em nota técnica enviada ao STF (Supremo Tribunal Federal). No documento, Rosana descreve o imunizante como uma ferramenta de proteção e diz que a vacinação deve atenuar interrupções de aulas na pandemia.

"Antes de recomendar a vacinação [contra a] covid-19 para crianças, os cientistas realizaram testes clínicos com milhares de crianças e nenhuma preocupação séria de segurança foi identificada", afirmou a secretária no texto. "As vacinas [contra a] covid-19 estão sendo monitoradas quanto à segurança com o programa de monitoramento de segurança mais abrangente e intenso da história do Brasil."

No último dia 16 de dezembro, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o uso da vacina Comirnaty (Pfizer/BioNTech) para crianças de 5 a 11 anos.

A Anvisa informou ao Ministério da Saúde que não participará da audiência pública promovida pelo governo, na manhã de hoje. A comunicação foi feita por meio de ofício enviado meia hora antes do início da audiência, No documento enviado ao governo, a agência afirma que já se manifestou a favor da imunização para crianças de 5 a 11 anos, e que a participação de representantes do órgão no evento "não agregaria novos elementos à temática".

A secretária do ministério ainda afirmou hoje que a maioria dos participantes da consulta pública foi contra a obrigatoriedade da vacinação de crianças de 5 a 11 anos. Ao mesmo tempo, a maioria concordou que crianças com alguma comorbidade devem ser priorizadas, como já vem ocorrendo na vacinação contra a covid-19 a adultos.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse ontem que haverá doses suficientes de vacinas contra a covid-19 a todos os pais que desejarem que os filhos sejam imunizados. A expectativa é que as crianças de 5 a 11 anos comecem a ser vacinadas ainda em janeiro com doses da Pfizer.

Hoje, Queiroga afirmou que um cronograma com a chegada das doses para a imunização das crianças será informado amanhã. O ministro, porém, falou que a atenção da pasta, no momento, é ampliar a cobertura de segunda dose e do reforço. "É o que nós vamos fazer para evitar que haja uma terceira onda forte aqui no Brasil."

Ministro nega relação entre vacinação e volta às aulas

Queiroga defendeu que não há relação entre a vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade e a volta delas às escolas após o período de férias.

"Vacinação não tem relação com aula", disse a jornalistas, em Brasília, nesta manhã ao ser questionado se acreditava ser possível imunizá-las a tempo das aulas.

Para o ministro, é preciso "parar de criar espuma em relação a questões que são secundárias em relação ao enfrentamento da pandemia da covid-19". Especialistas têm defendido que as crianças sejam vacinadas agora para que elas estejam imunizadas para o momento de voltar às escolas.

Governadores também têm apoiado a celeridade na imunização desse grupo. Hoje, o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), coordenador do Fórum Nacional de Governadores, disse que "é importante a vacinação dessas crianças para o calendário também da educação".

Audiência tem médicos chamados por bolsonarista

A audiência pública sobre vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra a covid-19 tem a participação de três médicos indicados pela presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara, Bia Kicis (PSL-DF), que compartilham posicionamentos semelhantes ao do presidente Bolsonaro, como o suposto tratamento precoce contra a covid com medicamentos com ineficácia comprovada, como a cloroquina.

São contrários também ao passaporte sanitário - a obrigação de apresentar um comprovante de vacinação para entrar em locais públicos ou aeroportos.

Em transmissão ao vivo em sua rede social no começo da audiência, Bia Kicis relatou ter convidado os médicos Roberto Zeballos, José Augusto Nasser e Roberta Lacerda, contrários à imunização de crianças, para falar no encontro.

Em agosto, o Projeto Comprova, do qual o UOL faz parte, mostrou que Zeballos fez diversas afirmações incorretas sobre a covid-19 em vídeo no Instagram. Hoje, ele tem mais de 390 mil seguidores. Na ocasião, o médico minimizou a importância da variante Delta ao escrever que ela era "pouco agressiva".

Zeballos também errou ao dizer que as vacinas disponíveis até aquele momento não funcionavam contra a Delta. É verdade que os imunizantes foram desenvolvidos quando a variante ainda não circulava, mas eles são, sim, eficazes contra a variante.

Procurado, Zeballos afirmou na época ter sido "o primeiro brasileiro a entender o mecanismo da doença" e declarou que "não tem sentido você vacinar com uma vacina que não é livre de riscos - todo mundo sabe disso - nas pessoas que já tiveram a doença", mas, completou que "talvez as pessoas tenham o benefício de ter uma doença mais leve". O Comprova considerou a publicação do médico enganosa porque ele usa dados incorretos ou imprecisos sobre a variante Delta e sobre a vacinação.

Zeballos falou na audiência pública de hoje por cerca de 10 minutos e repetiu a versão de que a vacina "gerou uma resposta imunológica de 95%" para a "cepa anterior" que não está mais circulando. Referiu-se ao imunizante contra a covid como "vacina emergencial", ignorando o fato de que a Pfizer tem o registro definitivo das doses contra a doença. O médico pediu ainda respeito à "ciência da observação".

*Com Estadão Conteúdo

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