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Enfermeira critica tratamento nos EUA após tratar doentes com Ebola na África

25/10/2012 06h10

NOVA YORK, 25 Out 2014 (AFP) - Uma enfermeira americana publicou, neste sábado, um relato com duras críticas ao tratamento que recebeu ao ser posta em isolamento nos Estados Unidos, aonde chegou depois de cuidar de doentes com Ebola em Serra Leoa.

Kaci Hickox foi a primeira pessoa a ser posta na quarentena compulsória de 21 dias, uma medida adotada pelos governadores de Nova York e Nova Jersey, prevista para médicos que retornam aos Estados Unidos e que podem ter tido contato com doentes de Ebola no oeste da África.

As novas regras entraram em vigor na sexta-feira, mesmo dia em que Hickox retornou.

Ela desembarcou no aeroporto internacional Liberty, de Newark, após trabalhar para a organização Médicos sem Fronteira em Serra Leoa, um dos países mais afetados pela epidemia de Ebola.

"Esta não é uma situação que eu deseje a ninguém e fico assustada por aqueles que virão depois de mim", escreveu Hickox no relato publicado no jornal The Dallas Morning News.

"Estou assustada sobre como os funcionários de saúde serão tratados nos aeroportos quando declararem que estiveram combatendo o Ebola no oeste da África. Temo que, assim como eu, quando chegarem, eles vejam um frenesi de desorganização, medo e, mais assustador, quarentena".

Hickox será monitorada em um hospital de Nova Jersey durante 21 dias, o período máximo de incubação da doença. Ela contou que foi posta em isolamento mesmo não apresentando qualquer sintoma quando chegou.

Em seu relato, a enfermeira lembra que seu calvário começou com a exaustiva viagem de dois dias entre Serra Leoa e os Estados Unidos.

Então, no setor de quarentena do aeroporto, na imigração, "um homem, que deveria ser um oficial de imigração porque usava um coldre que pude ver saltando do macacão branco, disparou perguntas como se eu fosse uma criminosa", contou Hickox.



- 'Ninguém parecia estar no comando' -

Apesar de se sentir "exausta, com fome e confusa", Hickox relatou ter tentado manter a calma durante as três horas em que permaneceu no local.

"Ninguém parecia estar no comando. Ninguém me dizia o que estava acontecendo ou o que iria acontecer comigo", acrescentou. "Eu me perguntava o que fiz de errado".

A princípio, a temperatura de Hickox estava normal, a 37º Celsius. Mas quatro horas depois de chegar, um termômetro temporal detectou 38,3º, sugerindo febre.

"O termômetro temporal estava registrando temperatura elevada porque fiquei agitada e chateada", disse Hickox, acrescentando que ela foi deixada sozinha no recinto por mais três horas.

Uns oito carros de polícia a escoltaram para o hospital.

"Sirenes soaram, luzes piscaram. Novamente, eu me perguntei o que tinha feito de errado", contou a enfermeira.

"Eu tinha passado um mês vendo crianças morrerem, sozinhas. Testemunhei a tragédia humana perante os meus olhos. Tentei ajudar quando grande parte do mundo observava e não fazia nada", prosseguiu.

No hospital, a temperatura dela foi novamente medida e considerada normal e um exame de sangue inicial deu negativo para Ebola.

"Eu me sentei, sozinha, na barraca do isolamento e pensei nos muitos colegas que vão voltar para a América e enfrentar a mesma provação. Farão com que se sintam como criminosos e prisioneiros?", escreveu Hickox.

"Nós precisamos de mais trabalhadores sanitários para ajudar a combater a epidemia no oeste da África. Os Estados Unidos precisam tratar seu pessoal de saúde que retorna com dignidade e humanidade", concluiu.