Vítimas de massacre das Farc almejam a paz na Colômbia

Apartado, Colômbia, 29 Jun 2016 (AFP) - Um tiro de raspão na mão direita faz Luz Estela Florez lembrar daquela madrugada de 22 anos atrás, quando a guerrilha das Farc invadiu La Chinita, no centro da região produtora de bananas da Colômbia, um massacre que deixou 35 mortos e interrompeu dezenas de vidas.

Mas além da dor, esta mulher de 48 anos que, assim como outras esposas de trabalhadores de fazendas de bananas, ficou viúva e com filhos naquele 23 de janeiro de 1994, deseja o fim do conflito com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), guerrilha que trava uma guerra de mais de meio século com o Estado.

"Queria que pudessem assinar a paz porque se houver paz, haverá tranquilidade", diz à AFP em frente à casa modesta do outrora bairro de ocupação de Apartadó, onde seu marido, Ángel Daniel Hinestroza, foi morto a tiros diante dela e dos filhos por guerrilheiros que chegaram de repente para participar de uma festa organizada por vizinhos para arrecadar fundos para utensílios escolares.

Luz Estela nunca mais conseguiu dormir em paz, nem ter casa própria.

Assim como tantas vítimas da conflagração interna colombiana, que confrontou guerrilhas, paramilitares e forças do Estado, deixando um balanço de 260.000 mortos, 45.000 desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados, reivindica verdade e reparação.

"Gostaria de saber o que os levou a fazer algo tão atroz. Nós não estamos no meio do conflito que têm com o Estado, mas sempre somos o que pagamos o alto preço da guerra", afirma, com o olhar triste.

Contra os "traidores"Ciro Abadía conhece muito bem a conturbada história de Urabá, Antióquia, onde o abandono do Estado propiciou o desenvolvimento de guerrilhas, como o extinto Exército Popular de Libertação (EPL) nos anos 1960 e as Farc nos 1970, e onde nos anos 1980 começaram a operar os grupos paramilitares que surgiram para combatê-las.

"Foi um massacre anunciado", disse Abadía, presidente da Associação de Vítimas de Antioquia (Asovima), sobre o que aconteceu em La Chinita.

Na ocasião, o EPL tinha assinado a paz em 1991 e seus desmobilizados tinham fundado o movimento político Esperanza, Paz y Libertad. Mas para as Farc, eram "traidores" da causa revolucionária.

O objetivo das Farc era "aniquilar o processo de paz" com o EPL, mas "só mataram um ex-combatente, o resto foram pessoas inocentes", afirma Abadía, que aos 55 anos diz ter sido salvo de morrer no ataque guerrilheiro.

Enquanto visita o bairro onde trabalhou toda a vida em prol "de moradia digna" e "melhorias sociais" para uma população de mais de 35.000 pessoas, "80% composta de trabalhadores bananeiros", Abadía pede "que as Farc se reintegrem à vida civil".

"Que deem o passo" que deram outros "grupos armados à margem da lei", como o EPL, a guerrilha M-19 que entregou as armas em 1990 ou os paramilitares desmobilizados há uma década, destaca.

"Isso mesmo as Farc podem fazer e que também vejam como vão indenizar", afirma, fazendo eco ao lema de Asovima: "Vítimas e carrascos unidos pela reconciliação".

Dar a caraPara favorecer esta reconciliação, Ciro levou ao hoje bairro Barrio Obrero, já alvo de reparação de parte do Estado, dois ex-líderes das Farc, que após desertarem e se abrigarem em um sistema judicial especial, cumprem pena na vizinha Brigada 17 do Exército.

"O massacre não tem nada a ver comigo, não participei, não fui a autora material, nem intelectual, mas pertencia às Farc e me dói o que aconteceu com as vítimas de La Chinita", diz à AFP Elda Neyis Mosquera, mais conhecida como a aguerrida "Karina".

"Como forma de nos reconciliarmos (...), devemos dar a cara às vítimas", resume Danis Daniel Sierra, o ex-comandante "Samir".

Para Yael Mendoza, que nunca conheceu o pai, Luis Alberto, porque estava na barriga da mãe quando o massacre ocorreu, as Farc devem se colocar "no lugar dos demais".

"Esta guerra não trouxe nada de bom", diz este enfermeiro de 23 anos.

Neyla Barón, que perdeu o filho, Yorman, de apenas 16 anos, no terrível episódio de La Chinita, "às vezes acredita, às vezes não" nas negociações com as Farc em Cuba, que estão na reta final. Mas ela confia na paz.

"O melhor que pode haver é a paz, não mais massacres, não mais maldade", afirma María Laureana Mosquera, de 64 anos, que criou sozinha os quatro filhos após ficar viúva.

Luz Estela é enfática: "os que morreram não vão voltar à vida. Nós perdoamos (as Farc) e pedimos, por favor, que nos reconciliemos, que havendo reconciliação, há paz".

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