'Paz completa' na Colômbia, um caminho que se anuncia árduo

Bogotá, 28 Out 2016 (AFP) - O caminho para uma "paz completa" na Colômbia se anuncia árduo, com o diálogo entre o ELN suspenso até a libertação de um refém, e a ameaça de maior violência após um ataque que deixou dois mortos, atribuído a esta guerrilha.

"Esta negociação não será fácil e o início será ainda mais difícil. Não é simples superar 50 anos de guerra e cinco tentativas de paz fracassadas", disse à AFP Ariel Ávila, da Fundação Paz e Reconciliação.

O presidente Juan Manuel Santos se prepara a negociar com o ELN, a segunda guerrilha do país, enquanto avança um novo acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o principal grupo insurgente, após o surpreendente repúdio em um plebiscito ao pacto histórico selado com esta organização marxista, que pegou em armas em 1964.

O presidente, contemplado recentemente com o Nobel da Paz, mostrou-se otimista nesta sexta-feira sobre as perspectivas de alcançar um novo acordo com as Farc, após liderar consultas com os opositores, com vistas a contemplar suas reivindicações.

"Tudo está dito e tudo está estudado. É questão de boa vontade e de tomar decisões. Isto pode ser conseguido em dias", destacou, em declarações à TV.

Não disse nenhuma palavra sobre o ELN, com o qual tinha previsto instalar uma mesa pública de conversações na quinta-feira.

Outra cadeira vazia?A delegação do governo não viajou a Quito para a cerimônia inaugural, depois que Santos decidiu adiar o lançamento das negociações até que a guerrilha liberte "são e salvo" o ex-congressista Odín Sánchez, refém desde abril.

"De certa forma, pode-se falar de uma 'cadeira vazia' ao contrário, mas temporária", explicou Carlos Alfonso Velásquez, analista e conferencista sobre conflito armado e paz.

Este professor da Universidade de la Sabana referiu-se, assim, ao famoso episódio de 1999, quando o falecido líder das Farc, Manuel Marulanda ('Tirofijo'), não compareceu à abertura dos Diálogos do Caguán com o presidente Andrés Pastrana.

"Ainda não se pode ler como um fracasso. Mas será se as conversações não começarem em 3 de novembro. E o ELN sabe disso", afirmou Velásquez.

Continua agendado para a próxima quinta-feira o começo formal das conversações com esta guerrilha guevarista em uma antiga fazenda nos arredores de Quito. Mas nesta sexta-feira, o chefe das negociações do ELN negou que o compromisso assumido tenha sido libertar Sánchez antes do início das conversações.

"No transcurso da primeira rodada em Quito se dará a libertação deste senhor. Este é o compromisso", disse à Blu Radio o comandante Pablo Beltrán, nome de guerra de Israel Ramírez.

"Um 'impasse'"Analistas coincidiram em que o ocorrido em Quito é apenas um tropeço.

"É um impasse que se pode solucionar. É um tema de construção de confiança", indicou Ávila, que mencionou a "imagem internacional muito ruim" que supõe a fracassada instalação dos diálogos, que têm como países garantidores Brasil, Equador, Venezuela, Chile, Cuba e Noruega.

Marc Chernick, cientista político e professor das universidades de Georgetown (em Washington) e Los Andes (em Bogotá), destacou o desejo de paz do ELN, que surgiu sob a influência da revolução cubana e da Teologia da Libertação, e tem uma estimativa de 1.500 combatentes, um quarto dos combatentes que as Farc dizem ter.

"Estas negociações sempre seriam difíceis. Mas não acredito que signifique tanto, os 'elenos' [membros do ELN] estão demonstrando vontade de negociar pela primeira vez", afirmou.

"Eu continuo pensando que a 'paz completa' é possível, apesar das dificuldades", acrescentou.

Mais violênciaAlém do espinhoso tema dos reféns, persiste o risco de um recrudescimento de ataques por parte do ELN, ao qual o governo, em cessar-fogo bilateral com as Farc no âmbito do processo de paz, continua combatendo.

Na quinta-feira, na hora em que estava prevista a inauguração em Quito, que foi suspensa, dois caminhoneiros morreram em um "ato terrorista" do ELN em Arauca (leste), segundo o Exército, mas os rebeldes não assumiram a autoria do ataque.

"Isto é normal no começo do processo", avaliou Jorge Restrepo, diretor de Cerac, antecipando que a violência "se recrudescerá" porque a guerrilha tentará demonstrar força.

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