Família Hernández: três gerações sob a Revolução Cubana

Havana, 28 dez 2016 (AFP) - Quem melhor do que Luis Hernández para falar da Revolução Cubana? Este senhor foi membro do movimento rebelde fundado por Fidel Castro e viveu à sombra do histórico líder, como um de seus tantos funcionários.

"Para mim, significou algo grande, porque significou que minha vida podia mudar", diz esse homem cego, de 88 anos, erguendo as mãos com um fervor quase religioso, ao lembrar da entrada triunfal de Fidel em Havana em 8 de janeiro de 1959, em um jipe, junto com um grupo de barbudos.

Nessa época, Luis Hernández tinha 29 anos.

Fidel, como é chamado por quase todos em Cuba, manteve-se mais tempo no poder do que qualquer outro no mundo. Três gerações da família Hernández - o avô Luis, seu filho Juan Luis e a neta Yeli - foram governadas pelo mesmo homem. Para eles, Fidel era o "pai", ou o "avô".

- Luis - Luis Hernández foi membro do Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel para combater a ditadura de Fulgencio Batista e, anos depois, trabalhou "na manutenção" do Conselho de Estado, um emprego dado apenas aos homens de extrema confiança. Por ali, Fidel e Raúl passavam com frequência.

Esse homem negro e magro começou a trabalhar aos dez anos como cozinheiro na província de Santa Clara, onde nasceu. Um ano depois, foi para Havana.

Com orgulho de suas batalhas, recita os marcos revolucionários: "escolas foram abertas"; "a caderneta" de racionamento; a "campanha de alfabetização"; "a nacionalização das empresas"; "a reforma agrária".

O que mais o impactou foi ter direito à educação, a qual, assim como a saúde, passou a ser gratuita e universal na ilha.

O impacto de Fidel Castro foi imediato, e a Revolução transformou por completo a sociedade cubana.

"Os círculos sociais se abriram para os negros", afirmou.

À medida que o tempo passava, o "comandante" ganhava tantos admiradores quanto críticos. E vários "traidores da Revolução" foram fuzilados.

Aumentou a tensão com os Estados Unidos, que, pouco a pouco, foi intensificando o embargo. Também retomou as relações com a então União Soviética, e Cuba se tornou uma das peças mais importantes do xadrez da Guerra Fria.

Luis lembra perfeitamente daqueles anos.

"Víamos os aviões dos americanos passarem", contou, referindo-se à Crise dos Mísseis, evento que esteve muito perto de deflagrar uma Terceira Guerra Mundial.

Luis Hernández viveu tudo isso e muito mais. E seus ideais comunistas permanecem intactos.

- Juan Luis -Os Hernández vivem em um populoso bairro de Havana de ruas estreitas, barulhentas, caindo aos pedaços.

Juan Luis Hernández, de 52 anos, é casado com uma mulher que se dedica à "santería". Têm dois filhos: Yaison, de 17, e Yeli, de 16.

"Vivi a etapa dos russos e, depois, a queda da URSS", conta este homem que trabalha no setor turístico.

O colapso da União Soviética mergulhou Cuba na crise. O petróleo e o maquinário fornecidos pela URSS deixaram de chegar, e a população enfrentou ainda uma escassez brutal de alimentos. Eram os anos do "período especial".

"Era um pão por pessoa, um pedacinho de peixe. Não havia leite, e não tinha ninguém que nos ajudasse", relata.

Também nesses anos a oposição ao governo de Fidel Castro aumentava, e os cubanos começaram a abandonar a Ilha em números recordes, rumo a Miami.

Juan Luis nunca quis ir embora, nem naquela época, nem agora, embora ainda acredite que Cuba deva resolver seus problemas econômicos o mais rápido possível.

"Vamos ao médico e não tem remédio. Não tem nem aspirina", reclama, acrescentando que "não se pode mais viver com o salário".

Assim como a maioria dos cubanos, Juan Luis recebe em pesos cubanos (CUP), uma moeda cada vez mais fraca, que contrasta com o valorizado peso conversível (CUC).

Juntando o salário e a pensão de sua mãe, Juan Luis conta com 700 pesos cubanos mensais, ou seja, US$ 29 para manter toda a família que mora nesse lugar precário, mas limpo e perfeitamente arrumado.

A unificação monetária é hoje uma das promessas não cumpridas do governo de Raúl Castro e um dos principais desafios para reativar a deprimida economia.

"O salário dos trabalhadores não está de acordo com os produtos", explica.

No início, poucos anos depois da chegada da Revolução, a "caderneta de racionamento" era bastante generosa. Agora, é suficiente para apenas "uma semana".

Por fim, ele esclarece que "mais do que revolucionário, ou comunista, sou fidelista".

- Yeli -Em sua curta vida, Yeli viu algo que, para seu pai e para seu avô, era impensável. Um presidente americano pisava na ilha pela primeira vez em quase nove décadas. A visita de Barack Obama a Cuba introduziu muita esperança de mudança entre os cubanos e pôs fim a um dos últimos fantasmas da Guerra Fria.

Com o falecimento de Fidel, aos 90 anos, em 25 de novembro, muitos se perguntam sobre o futuro da Ilha, se haverá mudanças na relação com os Estados Unidos de Donald Trump, ou sobre quem será o sucessor de Raúl Castro a partir de 2018.

Outras coisas preocupam Yeli, porém.

Ela gostaria que tivesse "uma Disney" em Cuba, ou "mais lugares para dançar, ou concursos de música para jovens, ou crianças".

Nas paredes pintadas de violeta, há uma foto gigante de Yeli quando bebê.

A família lhe pede que pegue o álbum de sua festa de 15 anos, o aniversário mais celebrado em Cuba. Por esse álbum, no qual Yeli aparece vestida como uma executiva, de vestido longo, ou de rapper, sua família pagou US$ 350, quase 9.000 pesos cubanos.

A maioria dos jovens dessa nova geração cubana vive em um país mais conectado, apesar da Internet limitada. E, para eles, Fidel é apenas um senhor que aparecia de vez em quando na televisão, vestido com roupa esportiva, muito diferente de seu traje militar verde-oliva, característico de outras épocas.

Ainda assim, sua morte deu uma profunda tristeza a Yeli.

"Fidel é um avô, era meu avô", desabafa.

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