Os ícones dos protestos opositores na Venezuela

Caracas, 26 Mai 2017 (AFP) - Uma mulher de porte atlético que atira pedras contra militares, um homem nu que sobe em um blindado, um violinista que toca em meio a bombas de gás. Os protestos contra o presidente Nicolás Maduro deixam 57 mortos na Venezuela, mas também vários ícones populares.

São símbolos do cansaço pelas dificuldades econômicas e pela polarização política, diz à AFP a psicóloga social Magaly Hoogins para explicar o fenômeno iniciado em 1º de abril.

"Estão construindo um novo imaginário coletivo", assinala Hoogins, ressaltando que o simbólico gera identidades e une, mais do que a violência.

- "Mulher Maravilha" -Com toda a força do braço musculoso, em uma descarga de ira, Caterina Ciarcelluti atirou pedras contra os militares em 1º de maio, na principal estrada de Caracas.

Sua imagem com os lábios apertados e os músculos tensos para dar impulso foi capturada por um fotógrafo da AFP e que viralizou como um "símbolo de determinação".

"Essa sou eu em toda a minha naturalidade, com essa força e paixão. Não tenho máscara", assinalou à AFP a 'personal trainer' de 44 anos, que protesta de short e capacete de motociclista.

Foi batizada de "Mulher Maravilha", apelido que segundo ela retrata as venezuelanas.

"Minha energia nunca acaba", assegura Ciarcelluti, que se assume como "uma inspiração".

- O homem em chamas -Víctor Salazar correu desesperado, transformado em uma bola de fogo, depois de explodir o tanque de uma motocicleta militar que incendiou com outros encapuzados em 3 de maio em Caracas.

Sem camisa, pediu ajuda aos gritos e se jogou no chão, onde várias pessoas tentavam apagar o fogo.

O estudante de 28 anos teve 70% do corpo queimado. Com o corpo coberto por gaze, enviou uma mensagem de vídeo de dentro da sala de cirurgia: "saiam às ruas, não em meu nome, mas pela Venezuela".

Já havia participado do "a saída", a onda de protestos contra Maduro que deixou 43 mortos em 2014.

- O homem nu - Hans Wuerich, comunicador de 27 anos, subiu nu, segurando uma Bíblia, em um veículo blindado antimotim em 20 de abril em Caracas.

Sob uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo, pedia para que parassem "a repressão". Queria enviar uma mensagem pacifista e comemorou que graças a ele, "por um momento, o mundo colocou os olhos" sobre a Venezuela.

Enquanto descia do blindado para se juntar à multidão, foi atingido por balas de borracha nas costas.

"Não sou um hippie, mas acredito que o protesto pacífico cause muito mais dano ao governo do que a violência. Os deixei atordoados", assinalou à AFP.

Ele votou em Maduro e está "arrependido". Tampouco se identifica com a oposição que, para ele, estão lutando unicamente por seus interesses.

"Sou como a maioria, que protesta porque tem fome, quer uma mudança. Qualquer coisa é melhor do que o que temos".

As mobilizações o dissuadiram de sair do país. "Agora é que eu fico". E sentencia: "prefiro morrer a viver em um sistema que me oprime".

- A mulher e o tanque - Com uma bandeira do país amarrada nas costas, María José Castro bloqueou o avanço de um tanque durante uma gigantesca manifestação em 19 de abril em Caracas.

Os guardas lançaram pela escotilha duas bombas de gás lacrimogêneo para afastá-la; chutou uma e se manteve firme com um pano no rosto, enquanto lhe faziam advertências por meio de um megafone.

Com 54 anos e de origem portuguesa, acabou sendo levada em uma motocicleta militar e foi liberada pouco depois.

Afirmou que um sentimento maternal a mobilizou. "Me doía ver como disparavam contra os jovens" as bombas de gás lacrimogêneo e as balas de borracha.

Seu gesto recordou o do manifestante fotografado em frente a uma fila de tanques na Praça da Paz Celestial, na China, em 1989.

- O violinista - Desafiando as bombas de gás, Wuilly Arteaga puxou seu violino e, tocando, caminhou até os militares para enviar uma "mensagem de paz".

Abstraindo os estrondos, tocou Alma Llanera, um tradicional joropo (ritmo musical do país), em 8 de maio em Caracas.

Três dias antes, tocou no funeral de Armando Cañizales, morto em outra manifestação e que, como ele, fazia parte do sistema de orquestra juvenil.

"Senti muito medo porque pensei que nem a minha música tinha o poder de fazer refletir, mas saí do cemitério e fui ao protesto com mais força", contou à AFP o artista de 23 anos.

É comum vê-lo se esquivando das bombas. Embora uma delas tenha o atingido no braço, pede que não sejam violentos.

Sua mensagem, diz, é uma metáfora do país: "agora todo mundo sabe que a Venezuela tem muito talento, mas isso não é respeitado".

Após sua aparição pública, cancelaram suas apresentações de piano em um hotel sob o controle do Estado.

Ele ganha a vida tocando nas ruas, apesar de já ter viajado sete vezes para a Europa para participar de concertos do sistema de orquestras.

Há um ano confiscaram o seu violino no metrô de Caracas. Depois de viver alguns meses nas ruas e em hotéis de pequeno porte, conseguiu um abrigo e um instrumento que lhe foi doado.

Mas um militar o quebrou durante outro protesto nesta semana. "Até quando?", se questionou, una frase que desatou uma onda de solidariedade para lhe darem um novo violino.

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