Considerados o "terceiro gênero", "muxes" lutam por protagonismo no México

  • Jennifer Gonzalez/AFP

    Os muxes, como Estrella Vasquez, são homens que se vestem de mulher no México e se consideram um "terceiro gênero"

    Os muxes, como Estrella Vasquez, são homens que se vestem de mulher no México e se consideram um "terceiro gênero"

Estrella Velázquez exibe com orgulho um "chongo" (penteado) adornado com uma rosa vermelha, enquanto caminha sem pressa na cidade mexicana de Juchitán, ignorando as piadas que ouve. Estrella é um dos "muxes" de Oaxaca, indígenas homens que se vestem de mulher, denominados de "o terceiro gênero".

O terremoto de 8,2 graus em 7 de setembro passado transformou em escombros grande parte do istmo de Tehuantepec, e os muxes, pertencentes à etnia indígena zapoteca, carregam louças onde preparam alimentos com os escassos ingredientes disponíveis.

No entanto, o violento sismo que deixou quase uma centena de mortos em Oaxaca e Chiapas deixou intacta a discriminação.

Durante décadas foram aceitos como "iniciadores sexuais" dos homens até que alguns deixaram de se conformar com este papel e deram um passo que os confrontaram com as mulheres desta região, predominantemente matriarcal.

Inspirados no avanço da luta da comunidade LGTB em outras latitudes, agora os muxes começaram a usar diariamente vestidos típicos e de gala em festas religiosas que duram dias. Muitos conseguiram, inclusive, mudar seu nome em documentos oficiais. 

Edgard Garrido/Reuters
Durante décadas, os muxes foram aceitos como "iniciadores sexuais" dos homens mexicanos

As mulheres de Juchitán não se importam de que os muxes mantenham relações com os homens de suas comunidades, o que rejeitam é que vistam tehuanas (traje típico das mulheres mexicanas) e, sobretudo, que invadam os espaços mais importantes de suas celebrações, as denominadas Velas.

"É indigno"

Os trajes de tehuana, popularizados pela célebre pintora mexicana Frida Kahlo, tão belos quanto caros, são bordados à mão em veludo, acompanhados de joalheria artesanal em ouro e arrematados com adornos de cabeça denominados "resplandores".

"Somos mais livres, mais vistosas", mas "ainda há discriminação", afirma Estrella, de 35 anos, diretora da secretaria de Diversidade Sexual do município de Juchitán.

A associação civil Melendre, que defende e promove a cultura zapoteca, estima que dos 75.000 habitantes de Juchitán, cinco mil sejam muxes --eles também estão presentes em povoados vizinhos como Niltepec e Ixtepec.

"Que façam com sua sexualidade o que quiserem (...) Tudo estava bem até que começaram a 'se vestir'. É indigno que usem nossos trajes" de gala, diz, fazendo gestos no ar, Angélica Castillejos, uma estilista de 46 anos, enquanto aguarda seu pedido em um mercado local.

Em contraste, a maioria dos homens abordados pela AFP demonstrou neutralidade. "Está bem (se os muxes usarem vestimenta típica). A mim não incomoda", comenta o açougueiro Alejandro Ruiz, sob o olhar irritado da caixa do estabelecimento, que lhe dispara algumas palavras em 'zapoteca', idioma dos nativos do sul do México.

"A homofobia se deve ao papel de destaque assumido por alguns muxes, que não foi muito bem visto porque se considera que foi em detrimento do papel de protagonista que a mulher tem na sociedade zapoteca", afirmou à AFP Luis Guerrero, diretor do comitê Melendre.

Os muxes argumentam que precisam de mais visibilidade. "Era desnecessário, aqui sempre tiveram seu papel perfeitamente identificado" como o "terceiro gênero", acrescentou Guerrero.

Em seu papel de "iniciadores sexuais" dos homens, os muxes também são respeitados. "Quando estava no primeiro ano do segundo grau, um em cada dois de meus colegas já tinha tido uma experiência sexual com um muxe", lembra Luis Guerrero. "Quase todos temos um muxe na família. Os muxes estão em reinvenção", completa.

Também alta e com voz potente, Biniza é outro muxe que recebe a AFP em Niltepec, Oaxaca, e sem nenhum pudor, veste-se de tehuana em frente às câmeras. 

Patricia Castellanos/AFP
O muxe Biniza Carrillo passa em frente a uma igreja em Juchitan, em Oaxaca, no México; estima-se que existam 5 mil muxes na cidade de 75 mil habitantes

"As autoridades (locais) nos violentam, não há mudança de nome genérico", reclama.

Com certa nostalgia, acrescenta: "simplesmente somos corpos que se prestam para que os homens se iniciem sexualmente (...) Somos apenas iniciadoras, os homens vão se casar com mulheres biológicas, que têm vulva e vagina".

A tendência dos muxes em ser "cada vez mais femininas levou algumas a injetar óleos (para aumentar os glúteos) e um monte de coisas, seguindo o padrão de beleza (ocidental) que exige um corpo magro e exuberante", comenta Felina Santiago, líder de um grupo de muxes que organizam suas próprias Velas.

Felina teme que nessa corrida por uma imagem mais feminina, "se possa perder a própria identidade da comunidade muxe". A maioria dos muxes sequer toma hormônios.

Sem teto

Estrella, Binizia e Felina afirmam que os 'muxes' sofreram discriminação nos pontos de distribuição de provisões para os afetados pelo sismo.

"Sendo assim, além de levantar os escombros e preparar a comida com os poucos alimentos que temos, nos organizamos para distribuir víveres trazidos por caravanas de homossexuais de outras partes do país", comentou Felina Santiago.

O trio perdeu suas casas e dorme em barracas de camping improvisadas com as famílias. 

Patricia Castellanos/AFP
Felina Santiago é uma liderança muxe em Juchitan, cidade mexicana do Estado de Oaxaca

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