Kuczynski depõe sobre Odebrecht antes de protestos contra indulto a Fujimori

Lima, 28 dez 2017 (AFP) - O presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, depôs nesta quinta-feira (28) a procuradores sobre o caso Odebrecht, que quase o levou à destituição, enquanto ativistas protestavam em Lima contra o indulto ao ex-presidente Alberto Fujimori.

O procurador anti-corrupção Hamilton Castro, que dirige esta investigação, busca determinar se o presidente de centro-direita, ou alguma de suas consultorias, se beneficiou ou influenciou em concessões de obras públicas outorgadas à questionada construtora brasileira.

"O presidente Kuczynski se encontra em uma reunião reservada com os procuradores desde as 09h30 da manha (12H30 horário de Brasília) no Palácio de Governo", disse à AFP a Secretaria de Imprensa presidencial.

Enquanto isso, Keiko Fujimori chegou ao prédio da procuradoria para depôr, em uma investigação sobre financiamento ilegal de campanhas eleitorais, que também abarca a Odebrecth. A filha de Fujimori, que foi fotografada sorrindo com três funcionárias da procuradoria antes de começar o interrogatório, negou toda a irregularidade.

Os procuradores investigam os milionários pagamentos feitos pela construtora brasileiras a empresas ligadas a Kuczynski quando ele era ministro do então presidente Alejandro Toledo (2001-2006).

O mandatário havia negado qualquer vínculo com a Odebrecht, mas foi desmentido pela própria empresa, em colaboração com a justiça.

Kuczynski se salvou há uma semana de ser destituído pelo Congreso por ter mentido sobre seus laços com Odebrecht, e seu interrogatório, assim como o de Keiko, acontece em meio a uma nova crise política após o indulto concedido ao ex-presidente Fujimori (1999-2000), que cumpria pena de 25 anos por corrupção e crimes contra a humanidade.

Muitos peruanos acreditam que Kuczynski deu o indulto para Fujimori a fim de evitar sua destituição pelo Congresso: a surpreendente abstenção de 10 legisladores fujimoristas, liderados por Kenji Fujimori, filho do ex-mandatário, inviabilizou a moção de declarar a "vacância" do presidente por "incapacidade moral".

Fujimori, de 79 anos, permanece desde sábado hospitalizado em uma clínica por problemas cardíacos. Alejandro Aguinaga, seu médico, afirmou nesta quinta-feira que ele continuará internado "até novo aviso para evitar esse tipo de rumores que se propagam e geram instabilidade".

O médico se referia a suspeitas de que o indulto fez parte de um acerto político, e não a razões humanitárias, como alega Kuczynski.

IndignadosGrupos políticos e sociais protestarão pelas ruas de Lima nesta quinta-feira para manifestar sua indignação sob o lema "indulto é insulto".

O polêmico perdão presidencial foi também criticado por organismos internacionais de direitos humanos e pela própria ONU.

Os advogados das vítimas e de entidades de direitos humanos preparam sua artilharia para tentar conseguir que a Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede em San José, na Costa Rica, anule o polêmico indulto, que Kuczynski concedeu na véspera do Natal.

"A Corte pode dispôr da anulação de disposições normativas ou jurisprudenciais internas" do Peru, disse Carlos Rivera, advogado das vítimas, que lembrou que o próprio tribunal interamericano "dispôs que se investigue, julgue e sancione a todos os envolvidos" nos dois massacres perpetrados por esquadrões da morte sob o governo de Fujimori e que motivaram sua condenação à prisão.

As reações desfavoráveis ao indulto também repercutiram no governo, que na quarta-feira sofreu a primeira baixa de seu gabinete com a renúncia do popular ministro de Cultura, Salvador del Solar.

O presidente-executivo das emissoras de rádio e televisão públicas, Hugo Coya, também renunciou ao cargo, além de vários outros funcionários do Ministério de Justiça. Três legisladores abandonaram o partido de governo.

Alguns familiares das vítimas lamentaram ter votado por Kuckzynski, que em 2016 derrotou Keiko Fujimori ao capitalizar o voto antifujimorista.

"É a segunda vez que confiei em um presidente e ele falhou", disse à AFP Rosa Rojas, comerciante de 52 anos, que perdeu seu marido e seu filho de 8 anos no massacre de Barrios Altos, perpetrada em Lima por um esquadrão militar antiterrorista no dia 3 de novembro de 1991 e uma das causas pelas quais Fujimori foi condenado.

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