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Veja como um americano combate o 'veneno' das 'fake news'

21/03/2018 18h28

Washington, 21 Mar 2018 (AFP) - A vida do americano Brennan Gilmore mudou radicalmente em 12 de agosto de 2017.

Naquele dia, ele filmou com seu celular o momento em que um homem com ideias neonazistas e racistas atropelou com seu carro uma multidão que protestava à margem de uma manifestação de supremacistas brancos, em Charlottesville, Virgínia. Uma mulher morreu e 19 pessoas ficaram feridas.

Gilmore decidiu compartilhar o vídeo no Twitter, depois que meios de comunicação deram a entender que havia sido um acidente, quando segundo ele foi claramente "muito deliberado".

Então começou o assédio virtual. Ele recebeu ameaças de morte e acusações de ligação com o "deep State" ("Estado profundo"), ou governo nas sombras, e outras teorias da conspiração das quais supostamente era protagonista.

Gilmore, de 38 anos e funcionário do serviço exterior americano, decidiu contra-atacar: neste mês, processou vários sites de extrema direita por difamação, incluindo o Infowars, dirigido por Alex Jones, e o Gateway Pundit.

"O veneno contido nestas histórias afeta muita gente", disse Gilmore à AFP. "Minha vida foi transtornada por isto".

Primeiro, depois que Gilmore publicou o vídeo, apareceram mensagens ameaçadoras nas redes sociais e o endereço de seus pais se tornou público.

Depois, o Gateway Pundit publicou um artigo questionando por que Gilmore estava na manifestação e alegando que ele tinha vínculos com o "deep State", um termo que a extrema direita vernácula usa para descrever o que considera um suposto grupo liberal que opera dentro do governo federal para minar o presidente Donald Trump.

Mais tarde, o Infowars acusou Gilmore, que foi enviado durante vários anos a África pelo Departamento de Estado e trabalhou no ano passado para um candidato democrata a governador do estado da Virgínia, de ter vínculos com a agência de espionagem CIA.

A Fox News informou sobre as acusações de que Gilmore tinha orquestrado o ocorrido em Charlottesville.

"Na sexta daquela semana, havia um congressista americano na Fox News sugerindo que os acontecimentos em Charlottesville haviam sido parte de uma conspiração de esquerda para que as legislativas de meio mandato de 2018 se concentrassem em questões de raça", contou Gilmore.

- Pesadelo sem fim -Gilmore sabe que há histórias que se tornam virais na internet, e que às vezes isso pode ser desagradável. Mas em seu caso diz que foi além do assédio: de "pedaços de informação se construiu uma enorme rede de mentiras e se difundiram".

Infowars e Gateway Pundit foram alguns dos sites que alimentaram os rumores de que uma pizzaria de Washington era uma fachada para uma rede de tráfico sexual infantil que envolvia Hillary Clinton, rival de Trump nas eleições de 2016.

Também divulgaram uma acusação de que o governo do predecessor de Trump, Barack Obama, organizou o ataque mortal na escola Sandy Hook em Connecticut em 2012.

Gilmore diz que o pesadelo não tem fim. A cada poucos dias saem novos vídeos que pretendem provar que tudo o que ele mostrou sobre Charlottesville era uma mentira e que ele é conivente com o "Estado profundo".

"Recebi uma ameaça de morte há duas semanas", disse.

O advogado de Gilmore, Andrew Mendrala, explicou que o processo por difamação busca "responsabilizar os provedores e geradores de notícias falsas pelas consequências reais de suas ações".

"Brennan é só um cara que registrou em vídeo um ataque terrorista. Não deveria ter que pensar duas vezes antes de compartilhá-lo porque teme esse tipo de represália na internet", acrescentou Mendrala, professor de Direito na Universidade de Georgetown.

"Não estamos tentando dizer que Alex Jones (diretor do Infowars) não pode falar em público sobre assuntos políticos e compartilhar sua opinião sobre as coisas. Mas o que não pode fazer é divulgar informação demonstravelmente falsa que destrói a vida de alguém", explicou.

Sobretudo, Gilmore quer estabelecer um precedente. Diz que os estudantes da Flórida que exigem um maior controle do porte de armas após o ataque mortal em sua escola de Parkland estão sofrendo o mesmo assédio que ele, tornando-se alvos da extrema direita.

A direita alternativa está contando "o mesmo tipo de mentiras e atacando eles e tentando gerar ódio e violência em direção a eles na internet e na vida real", disse Gilmore.

Gateway Pundit qualificou o processo de Gilmore como "uma loucura", enquanto Jones o desprezou como uma operação de relações públicas.

"Você é um político e se transformou em um porta-voz e deveria ser investigado", disse Jones, em referência a Gilmore.

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