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Raúl Castro sai, mas o castrismo permanece com Díaz-Canel em Cuba

19.abr.2018 - Miguel Díaz-Canel (esq.), eleito o novo presidente de Cuba, recebe o governo do país de seu antecessor, Raúl Castro - Xinhua/Irene Pérez/CUBADEBATE
19.abr.2018 - Miguel Díaz-Canel (esq.), eleito o novo presidente de Cuba, recebe o governo do país de seu antecessor, Raúl Castro Imagem: Xinhua/Irene Pérez/CUBADEBATE

Havana

20/04/2018 13h17

Raúl Castro entregou a presidência de Cuba a Miguel Díaz-Canel, uma mudança geracional, mas não de modelo: o general de 86 anos assegurou-se de que seu sucessor, de 58, estivesse comprometido com a preservação do legado socialista, mesmo que algumas reformas econômicas sejam necessárias.

A saída de Raúl Castro tem um grande simbolismo, pois vira a página de seis décadas de poder dos irmãos Castro, mas não anuncia em si grandes mudanças na ilha, ao menos em curto prazo.

Díaz-Canel deixou isso claro em seu discurso de posse.

"Nestas condições, é difícil imaginar de repente alguma mudança ou que as reformas tomarão um ritmo acelerado", afirma Peter Hakim, do centro de pesquisas Diálogo Inter-americano, com sede em Washington.

Na cerimônia de posse na véspera, sucessor e sucedido insistiram na continuidade do socialismo, garantida pelo fato de que Raúl Castro se manterá até 2021 como chefe do Partido Comunista cubano, o único da ilha.

Em seu primeiro discurso, Díaz-Canel enfatizou que Raúl "tomará as decisões de grande importância para o presente e o futuro do país" e alertou que "não há espaço para uma transição que desconheça ou destrua o legado de tantos anos de luta".

O Conselho de Estado, o mais alto órgão de poder que ele preside, foi parcialmente renovado. Mas vários representantes da velha guarda, como Ramiro Valdés, 85 anos, Guillermo Garcia, 90 e Leopoldo Cintra Frias, 76, permanecem presentes.

Embora uma mudança no sistema seja descartada, são necessárias reformas políticas e a atualização de uma economia inspirada no modelo soviético. Algumas modificações já estão em andamento.

Castro aproveitou seu discurso de despedida para anunciar que uma reforma constitucional está sendo estudada para adaptar as leis "às transformações políticas, econômicas e sociais" do país.

Este projeto, que pode restaurar a posição de primeiro-ministro, será submetido a referendo, mas Raúl não deu datas e disse que "não pretendemos mudar o caráter irrevogável do socialismo (...) ou o papel de liderança do Partido Comunista".

O fantasma do capitalismo

Engenheiro eletrônico, Diaz-Canel deve continuar com as reformas que introduzem uma certa dose de mercado em uma economia predominantemente estatal, na qual o salário médio não excede os 30 dólares.

Essa "atualização", empreendida por Raúl Castro, deve ser aprofundada para reativar uma economia altamente dependente de importações e da ajuda de sua aliada Venezuela, agora em crise.

O crescimento do PIB cubano foi de 1,6% em 2017.

"O mais urgente é implantar a reforma econômica, particularmente a reunificação monetária e a descentralização econômica e política", diz o especialista cubano Arturo López-Levy, professor da Universidade do Texas Rio Grande Valley.

Ele acrescenta que "o mais complexo será lidar com as consequências políticas dessas reformas e a pressão por outra onda de mudanças que essas reformas devem gerar".

Em relação à eliminação da dualidade monetária, um sistema único no mundo que provoca distorções na economia desde 1994, com duas moedas locais circulando e taxas de câmbio preferenciais para empresas estatais, Raúl Castro admitiu que continua causando sérias dores de cabeça aos líderes cubanos.

Para quem antecipa uma virada de Cuba em direção ao modelo vietnamita ou chinês, Díaz-Canel advertiu que "nesta legislatura não haverá espaço para aqueles que aspiram a uma restauração capitalista, esta legislatura defenderá a revolução e continuará com as melhorias".

"Isso não acontecerá daqui a dois dias", prevê o cientista político cubano Esteban Morales, para quem Diaz-Canel não poderá de imediato fazer uma série de coisas diferentes.

"O projeto tem dificuldades, tem falhas, tem que ser melhorado (...) Mas não vai ser alcançado com um só homem, tem que ser conseguido com muita união, muita coerência", acrescenta.

Enquanto aguarda o anúncio da composição do Conselho de Ministros (executivo), adiada para meados do ano, surge a questão sobre a dinâmica em torno da qual a dupla será articulada à frente do Estado cubano.

Pela primeira vez em décadas, o presidente do Conselho de Estado e de Ministros não ocupará simultaneamente o cargo de primeiro secretário do partido único PCC, que Raúl ocupará até 2021.

"Obviamente, o comportamento de Raúl será observado com uma lupa, mas se ele confrontar Díaz-Canel, será como admitir que Raúl falhou em sua eleição", analisa Paul Webster Hare, professor de relações internacionais em Boston (EUA) e ex-embaixador britânico em Cuba.

"E ele também pode sugerir a ideia de que sua reforma cautelosa seria desafiada; Raúl investiu muito em Díaz-Canel e precisa disso para sobreviver", conclui.

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