Repressão a ativistas mostra que na Arábia Saudita mudanças vêm de cima

Dubai, 31 Mai 2018 (AFP) - Às vésperas da entrada em vigor, em 24 de junho, do decreto real que permitirá às mulheres dirigir, o fato de a Arábia Saudita qualificar de "traidoras" conhecidas defensoras de direitos das mulheres, presas em maio, é, segundo analistas, uma mensagem clara de que as mudanças no país só podem vir de cima.

Ao menos dez ativistas, a maioria mulheres, foram detidas e acusadas de traição. Apesar de terem lutado por esta conquista, esta foi, ao contrário, apresentada pelas autoridades como parte da política de modernização impulsionada pelo jovem príncipe-herdeiro, Mohamed bin Salman.

"O momento é crucial" e "a mensagem é clara", explicou à AFP um ativista que não quis se identificar. "Permitir dirigir não é um direito que as mulheres possam reivindicar. Não é o resultado de uma luta, é uma bênção que o rei e a família real concederam ao povo da Arábia Saudita".

A repressão, prosseguiu, busca eliminar a ideia de que toda mudança futura pode ser obra do ativismo.

As detenções "certamente causam um grande dano à campanha internacional de relações públicas", que acompanhou as visitas recentes do príncipe-herdeiro aos Estados Unidos e à Europa, afirmou Kristian Ulrichsen, especialista associado da Rice University, em Houston.

Elas pretendem "ocultar uma luta [interna] mais profunda que o ritmo e a direção das reformas", acrescentou, assegurando que a exposição dos ativistas dos direitos das mulheres como "traidores" na capa dos jornais "envia uma forte mensagem ao exterior e ao interior, por razões muito diferentes".

Dentro da Arábia Saudita, a advertência "será clara para qualquer que sinta a tentação de criticar o governo", disse o analista.

Segundo Kristin Diwan, do Arab Gulf States Institute, em Washington, para o poder real trata-se mais de "reposicionar-se" entre liberais e conservadores do que dar marcha à ré nas reformas.

"Atacar estes ativistas de esquerda e trazer de volta algumas figuras do antigo establishment religioso permite ao poder se posicionar no centro, enquanto segue com as mudanças", acrescentou.

Embora o programa de modernização Vision 2030, do rei Salman, tenha caráter socioeconômico, "não inclui uma ampliação do espaço político", lembrou o ex-embaixador americano Gerald Feierstein, à frente do Middle East Institute.

- Monarquia absolutista -Uma ativista que não quis se identificar explicou que quando o decreto real que autoriza às mulheres dirigir foi anunciado, em setembro de 2017, muitas sauditas acreditaram que mais adiante poderiam se associar à família governante na tomada de decisões, "mas isto nunca aconteceu".

"A natureza e o ritmo das reformas são completamente controlados pela monarquia absolutista", acrescentou.

A segurança saudita não identificou os detidos, mas os motivos das detenções incluíram conspiração por "socavar a estabilidade" do reino e "contatos suspeitos" com o exterior.

As autoridades não foram mais explícitas em suas acusações. Mas nas horas que se seguiram ao anúncio, a imprensa pró-governamental publicou os nomes dos ativistas, qualificando-os de "traidores".

Sob o título "Vossa traição fracassou", o jornal Al Jazirah publicou fotos das ativistas Lujain Al Hathlul e Aziza Al Yusef, símbolos da nova e da antiga geração feminista.

As autoridades já detiveram pelo menos 20 pessoas, inclusive intelectuais e pregadores considerados potencialmente hostis ao poder, menos de três semanas antes do anúncio, em 26 de setembro, da suspensão da proibição de dirigir para as mulheres.

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