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Rede clandestina vigia DH na Nicarágua após saída de organizações

25/01/2019 16h02

San José, 25 Jan 2019 (AFP) - Uma rede clandestina de cerca de 200 pessoas vigia a situação dos direitos humanos na Nicarágua, após o fechamento e a expulsão das organizações locais e internacionais, indicou um ativista exilado na Costa Rica.

Alvaro Leiva, secretário da Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH), disse à AFP que seu país vive uma crise de repressão e abusos que está se refletindo no fechamento de organismos de defesa dos direitos fundamentais e em ataques à imprensa por parte do governo de Daniel Ortega.

Diante disso, o trabalho de defesa dos direitos humanos é feito em todo o território nicaraguense de maneira clandestina.

"Voltamos a uma promoção e defesa dos direitos humanos de catacumbas, como quando o Cristianismo teve que se proteger do império que perseguia e assassinava por exercerem uma ação humanitária e social", declarou Leiva à AFP.

A organização conta com um centro de monitoramento e uma rede de observadores que opera clandestinamente, devido ao fato de o trabalho de defesa dos direitos ter se tornado uma atividade de risco na Nicarágua, explicou.

"Temos mais de 200 defensores de direitos humanos trabalhando na clandestinidade. Isso indica que não há uma normalidade com relação aos direitos humanos", assinalou Leiva, que deixou a Nicarágua em agosto do ano passado e foi para a Costa Rica, ante as ameaças que enfrentou do governo Ortega.

O ativista assinalou que "existe uma profunda crise de direitos humanos na Nicarágua que se reflete na intolerância e na repressão de maneira mais acentuada a cada dia".

Em 7 de janeiro, oito opositores foram condenado a penas de até 47 anos de prisão por "terrorismo" e outros crimes devido a sua participação nos protestos contra o governo de Daniel Ortega.

Entre as pessoas que também tiveram que deixar o país está o jornalista Carlos Fernando Chamorro, crítico do governo, que há alguns dias se refugiou na Costa Rica alegando "ameaças extremas". Outros 55 comunicadores saíram da Nicarágua pelos mesmos motivos.

A crise política explodiu em 18 de abril de 2018 com os protestos contra o governo, iniciados por uma frustrada reforma de seguro social, e se transformaram em um pedido de saída de Ortega e de sua esposa e vice-presidente, Rosario Murillo.

- Repressão desmedida -Leiva lembrou que nos últimos meses, coma cumplicidade do Parlamento, o governo de Ortega cancelou a representação legal dos organismos independentes de direitos humanos e lançou contra os meios de comunicação críticos de sua administração.

Também forçou a saída do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e de duas missões da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Dados compilados pela ANPDH indicam que desde o início dos protestos foram registradas 561 mortes, uma cifra superior a de outros organismos de direitos, que citam ao menos 325 mortes.

Disse que a repressão deixou 4.578 feridos de diferentes tipos de gravidade, e 1.336 sequestrados, desaparecidos e detidos.

"O que está acontecendo é uma repressão desmedida contra o cidadão que toma a iniciativa de protestar e de se manifestar pacificamente", sustentou Leiva.

Para sair da crise, o ativista apresentou a necessidade de um diálogo amplo com todos os setores da sociedade, mediado pela Igreja Católica, e a instalação de um governo de transição que substitua o de Ortega.

"Daniel Ortega tem que entender que seu tempo acabou e que não há outra opção além de criar as condições para a transição do poder", declarou Leiva.

Advertiu que sem uma transição em curto prazo, a Nicarágua pode se encaminhar para uma saída bélica de sua crise.

"Quando os espaços são cerceados a um cidadão que exige respeito aos seus direitos humanos, e ao invés disso lhe dão repressão e prisão, nossa sociedade se encaminha para uma saída bélica, que ninguém deseja", advertiu.

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