'Coalizão' contra o Hamas proposta por Macron gera ceticismo

O presidente da França, Emmanuel Macron, propôs, nesta terça-feira (24), em Jerusalém, a criação de uma coalizão internacional na luta contra o movimento islamista palestino Hamas, que atacou Israel em 7 de outubro. A proposta, no entanto, não convence os especialistas, que acreditam que será difícil de pôr em prática.

- Ainda faltam detalhes -

Em um primeiro momento, Macron propôs que a coalizão anti-Daesh [acrônimo em árabe do grupo Estado Islâmico] "também possa lutar contra o Hamas". 

Ele se referiu à coalizão internacional criada em 2014 sob a liderança dos Estados Unidos para combater o grupo Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria.

A Presidência francesa explicou depois que a ideia era "se inspirar na experiência da coalizão internacional contra o Daesh e ver quais aspectos podem ser replicados contra o Hamas".

"Portanto, estamos disponíveis para refletir, com nossos parceiros e Israel, sobre as linhas de atuação adequadas contra o Hamas", explicou o Palácio do Eliseu.

"Os parceiros e concretamente Israel deverão, depois, expressar suas necessidades", acrescentou.

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- Membros hostis a Israel - 

Por enquanto, especialistas duvidam da possibilidade de replicar ou se inspirar na coalizão contra o EI.

A coalizão internacional inclui, atualmente, 86 países-membros da Otan, da União Europeia e da Liga Árabe e tem "pelo menos uma unanimidade diplomática de fachada" na luta contra este grupo extremista, ressaltou Elie Tenenbaum, do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

No entanto, entre seus membros - dos quais Israel não faz parte - "muitos países não compartilham em absoluto da postura da França em relação ao Hamas", prosseguiu, citando, entre outros, Líbano, Catar, Jordânia, Líbia e Iraque.

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Outro problema, afirma, é que alguns membros são abertamente hostis a Israel. E deu como exemplo o Iraque, que não reconhece a existência do país, ou a Líbia, que não tem relações com seu governo.

A  "viabilidade" de estender o perímetro de ação da coalizão internacional contra o EI parece "altamente improvável", segundo Tenenbaum, apesar da normalização das relações bilaterais entre Israel e vários países árabes desde os Acordos de Abraão, de 2020.

Diferentemente do EI, o Hamas tem aliados poderosos na região, como o Hezbollah libanês, apoiado pelo Irã, que é inimigo de Israel.

Segundo Renad Mansour, principal pesquisador do centro de estudos Chatham House, a tarefa seria "muito mais difícil" para uma coalizão deste tipo que, além do mais, poderia passar a imagem de ser uma estrutura pró-israelense.

- Sem apoio popular -

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O grupo Estado Islâmico se apoderou de alguns territórios da Síria e do Iraque, como Raqqa e Mossul, que governava "de forma muito brutal" e onde costumavam ser cometidas "atrocidades" contra "a população" local, lembrou Mansour.

Assim, a coalizão internacional gozava de "um amplo apoio autóctone, local e regional para eliminar" o EI, acrescentou.

O movimento islamista palestino, por sua vez, chegou ao poder na Faixa de Gaza após vencer as eleições de 2006. E, embora a população sofra algumas carências atualmente, não desafia abertamente o Hamas.

- Risco de escalada no Iraque e na Síria - 

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Héloïse Fayet, pesquisadora sobre Oriente Médio do Centro de Estudos em Segurança do IFRI também se mostrou cautelosa em relação à iniciativa proposta por Macron.

"Há dez dias, várias bases da coalizão no Iraque e na Síria foram atacadas com ajuda de drones e foguetes" por grupos xiitas próximos do Irã, afirmou no X (antigo Twitter).

Trazer a coalizão para a luta contra o Hamas "poderia aumentar este risco", explicou a especialista, instando Macron a "esclarecer estas declarações para não gerar falsas esperanças ou uma escalada".

- Reconstrução -

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As coalizões contra grupos extremistas não se limitam a operações no terreno: no caso da aliança contra o EI, forças iraquianas foram treinadas e os parceiros compartilham informação, especialmente sobre o combate ao financiamento do extremismo, destacou Tenenbaum. 

Algumas destas missões, que abrangem "a estabilização e a reconstrução das áreas liberadas", podem ter "seu lugar na luta contra o Hamas", analisou o pesquisador.

Porém, mais que uma coalizão anti-Hamas, a formação de uma coalizão para uma solução do conflito israelense-palestino certamente contaria com um apoio mais amplo, afirmou.

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© Agence France-Presse

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