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MP do Pará tem indícios de que policiais podem ter executado sem terra

Alex Rodrigues* Repórter da Agência Brasil

11/07/2017 11h57

Os dez posseiros mortos durante a ação de reintegração de posse de uma fazenda da cidade de Pau D?Arco, no sudeste do Pará, podem ter sido executados por policiais militares e civis que participaram da operação, deflagrada no dia 24 de junho. É o que sugere o Ministério Público (MT) estadual, com base nas investigações, resultados preliminares das perícias e, principalmente, nos depoimentos de um delegado e investigador que fizeram acordo de delação premiada e estão colaborando com os promotores de justiça. "Os tiros dados nas vítimas não foram [disparados] à distância. Parte dos tiros foi dada à queima-roupa. De cima para baixo. Nenhuma das dez vítimas tinha resquícios de pólvora nas mãos. Tudo isso, desde que recebemos a prova pericial, indica a execução", declarou o promotor Leonardo Caldas na noite desta segunda-feira (10), logo após a prisão temporária  de 11 policiais militares e dois policiais civis. De acordo com o promotor Alfredo Amorim, coordenador das investigações, as prisões temporárias foram pedidas para que os policiais não interfiram nas investigações, pois o MP teria recebido informações de que os suspeitos de participação nas mortes dos sem terra estariam abordando e intimidando outros policiais e testemunhas. A prisão temporária por 30 dias pode ser prorrogada ou convertida em prisão preventiva. Ao todo, mais de 20 policiais participaram da operação de reintegração de posse que resultou nas mortes de nove homens e uma mulher, mas, segundo o MP, não há, até o momento, indícios de que outros agentes de segurança além dos 13 presos ontem tenham alguma participação nos supostos assassinatos. Em 26 de junho, a Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social do Pará já tinha determinado o imediato afastamento de 21 policiais militares e oito policiais civis. Ainda segundo o MP, o delegado e o investigador que estão colaborando com as investigações descreveram circunstâncias e fatos relacionados à operação policial que reforçam a tese de que os posseiros foram executados. "Quando os policiais civis chegaram ao local do crime, foram abordados pelos policiais militares, que diziam 'E aí, delegado, como é que vai ser? Não pode sair ninguém vivo daqui', num claro sinal de intimidação para que os policiais civis aderissem aos crimes ou poderiam se tornar vítimas também", contou Amorim, explicando que, de acordo com os delatores, o cerco e a perseguição aos posseiros foi feita pelos policiais militares. Segundo o promotor, os delatores também afirmam que, quando os policiais civis que participaram da operação chegaram ao local, além de mortos, havia ainda posseiros feridos, algemados, mas com vida. Logo após a operação, em meio à repercussão dos fatos, os policiais que tomaram parte na ação de reintegração contaram que foram recebidos a tiros ao chegar à propriedade para cumprir os mandados judiciais que, além de busca e apreensão, incluíam a prisão temporária de suspeitos de participar do homicídio de um vigilante da fazenda, Marcos Batista Montenegro, morto a tiros no dia 30 de abril. Os policiais garantiam que apenas reagiram aos disparos feitos, segundo eles, pelos posseiros. A versão de testemunhas e de parentes das 10 vítimas, no entanto, é diferente. Em depoimentos perante promotores e integrantes da comitiva federal que visitou a região da ocorrência, eles disseram que os policiais chegaram ao local atirando, atingindo pelas costas algumas pessoas que tentavam fugir da confusão. Para o promotor Leonardo Caldas, "é difícil imaginar cenário de confronto se em um dos lados não houve resistência." * Com informações da Ascom MP-PA