Escândalo "Panama Papers" atinge família Le Pen

Em Roma

  • Jacques Brinon/AP

    Jean-Marie e Marine Le Pen, líderes da extrema-direita francesa

    Jean-Marie e Marine Le Pen, líderes da extrema-direita francesa

A investigação "Panama Papers" ("Papéis do Panamá") pode ter atingido mais uma família de políticos na Europa, segundo revelou o jornal "Le Monde" nesta terça-feira (5). Desta vez, pessoas muito próximas à presidente do partido de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, e o ex-presidente e fundador do FN, Jean-Marie Le Pen, teriam criado um sofisticado esquema de offshores para ocultar seu patrimônio do Fisco francês.

De acordo com o periódico, o "tesouro" do fundador da sigla xenófoba teria sido dissimulado através da sociedade offshore Balerton Marketing Limited, que tinha sede em vários paraísos fiscais do Caribe. A empresa seria gerenciada por empresários e pessoas próximas aos líderes do partido.

Outra família política que está sofrendo muita pressão para se manifestar sobre o caso é a do primeiro-ministro britânico David Cameron. Os documentos revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) mostraram que o pai do premier, Ian, que morreu em 2010, teria ocultado desde 1982 parte do patrimônio familiar.

A mídia inglesa questiona Cameron sobre o caso, mas até o momento, ele se manifestou apenas através de um porta-voz afirmando que essa é uma "questão privada".

Ainda no âmbito familiar, desta vez na América do Sul, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, se defendeu em uma entrevista de ter agido de maneira ilegal sobre uma offshore aberta por seu pai, Franco, no Panamá. Mesmo tendo sido diretor da Fleg Trading Ltd, o atual líder político argentino desmentiu que a empresa fazia algo ilícito.

Segundo Macri, a sociedade foi criada para apoiar um investimento no Brasil que acabou sendo não executado e sua existência foi regularmente notificada ao fisco. Apesar de grande parte dos investigados alegar inocência, muitos países anunciaram abertura de investigações sobre seus cidadãos citados nos "Panama Papers".

Entre eles, Itália, França, Nova Zelândia, Áustria, Suécia e Holanda já informaram que começaram a analisar os casos. Mesmo não tendo nenhum cidadão norte-americano citado no esquema, o governo dos Estados Unidos anunciou que acompanha a situação de perto.

Na Itália, que tem mais de mil envolvidos nos mais de 11,5 milhões de documentos da empresa panamenha Mossack Fonseca, além de investigar a suposta evasão fiscal de seus cidadãos, a Polícia Tributária da Guarda de Finanças de Turim anunciou ter aberto uma análise por lavagem de dinheiro.

"Os agentes já foram delegados para requisitar dados e informações na ordem apresentadas na listagem e iniciar processos necessários sobre as mesmas. [Elas] se inserem no âmbito das investigações da polícia judicial já iniciadas em 2015 pelo crime de lavagem, na qual ocorre um aprofundamento, sobre as posições relativas às numerosas empresas panamenhas ligadas ao Mossack Fonseca", disse em nota a Procuradoria.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirmou que a mega divulgação do "Panama Papers" "jogou luz sobre a cultura e a prática do segredo no Panamá, última grande fortaleza que continua a permitir que fundos offshore escondam dados das autoridades fiscais e judiciárias".

Como o dinheiro se esconde

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De acordo com o secretário-geral da entidade, Angel Gurria, a OCDE alertava "constantemente" sobre o risco representado pelos países que não estão em linha com os órgãos internacionais de transparência. "As consequências da falência do Panamá em adequar-se aos órgãos internacionais agora apareceu. O Panamá deve organizar sua própria casa, implementando rapidamente estas regras", destacou Gurria.

Revelado no último domingo (03), o "Panama Papers" apresentou uma série de empresas offshores - que são aquelas que têm sede fiscal em outro país que não no de origem - que seriam utilizadas por pessoas físicas e jurídicas para burlar sistemas fiscais, sonegar impostos ou cometer fraudes e lavagem de dinheiro. Ao todo, 240 mil offshores abertas pela empresa panamenha Mossack Fonseca estão sob suspeita. O ICIJ recebeu mais de 11,5 milhões de documentos sobre essas organizações do jornal alemão "Süddeutsche Zeitung" e organizou uma busca mundial para a checagem das informações que envolvem o período de 1977 a 2015. Participaram da averiguação 107 empresas de comunicação, com mais de 300 jornalistas, em 78 países diferentes. Os dados serão revelados aos poucos, mas os primeiros papéis já mostraram a ligação a empresas offshores de 12 chefes ou ex-chefes de Estado mundiais. 

Entre os citados, estão pessoas próximas ao presidente russo, Vladimir Putin, ao líder chinês, Xi Jinping, ao premier da Islândia, Sigmundur Gunnlaugsson, ao rei da Arábia Saudita, Salman Bin Abdulaziz AL-Saud, e aos já citados Macri e Cameron.

Também estariam na fraude pessoas ligadas ao presidente sírio, Bashar al-Assad, ao falecido ditador Muammar Khadaffi, o ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak e o ex-secretário pessoal do ex-presidente argentino Néstor Kirchner, Daniel Muñoz. Há também empresários e celebridades envolvidas nos atos, como o ex-presidente da Ferrari e atual líder da Alitalia, Luca di Montezemolo, o jogador argentino Lionel Messi, o ex-piloto de Fórmula 1 Jarno Trulli, o diretor espanhol Pedro Almodóvar, o ator Jackie Chan, entre outros.

- Brasil: Segundo dados divulgados pelo ICIJ, políticos de ao menos sete partidos brasileiros estão envolvidos no esquema de corrupção. PDT, PMDB, PP, PSB, PSD, PSDB E PTB teriam representantes ligados ao escândalo. Entre os nomes conhecidos até o momento, está o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), e o ex-ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Ambos negaram as acusações.

- Chile: No Chile, o escândalo provocou uma cena, no mínimo, embaraçosa. O presidente da ONG Transparência Internacional, Gonzalo Delaveau, renunciou ao cargo após seu nome ser ligado ao escândalo de corrupção. Delaveau, que liderava a organização encarregada de promover práticas de transparência e de probidade em instituições públicas e privadas da sociedade chilena, figura em uma série de empresas offshores relacionadas com empresários e advogados da nação. (ANSA)

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