Por que os venezuelanos estão passando fome?

Por Sarah Germano CARACAS, 30 JUN (ANSA) - No último final de semana, 35 mil venezuelanos atravessam a fronteira com a Colômbia, aberta temporariamente, para poder comprar alimentos e remédios escassos em seu país, em mais um episódio que ilustra o difícil panorama atual da nação governada pelo chavista Nicolás Maduro.   

Além das severas crises política e econômica, a Venezuela também é assolada pelo desabastecimento de comida e produtos de uso diário, que vão desde papel higiênico até remédios. Especialistas acreditam que isso seja resultado de péssimas decisões do governo e políticas estabelecidas nos últimos anos.   

O professor de Relações Internacionais da Universidade do ABC (UFABC) e autor de dois livros sobre a Venezuela, Gilberto Maringoni, explicou que "a Venezuela importa praticamente tudo que consome, especialmente alimentos". "A crise financeira e seus efeitos no câmbio afetam muito as importações, resultando, entre outras coisas, na crise de abastecimento", acrescenta. De acordo com o professor de Relações Internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, esta crise foi gerada por um sistema econômico que aumentou o papel do Estado na economia, limitando a capacidade do setor privado.   

Ou seja, anos de crescentes intervenções no mercado acabaram por afastar os investimentos do setor privado, assim como a política de controle de preços, que tinha como objetivo ajudar a população. A matemática é simples: sem lucro, empresários não se sentiram atraídos a investir.   

"Economistas já previam isso. Quando o setor privado se recusou a produzir certos produtos, o Estado os substituiu. Isso deu certo por um tempo, mas agora está tendo dificuldades para se manter, especialmente com a queda do preço do petróleo, maior fonte de renda do governo", aponta Stuenkel. Além disso, quando o alimento está disponível nas estantes dos supermercados, muitas vezes é impossível obtê-lo diante da inflação galopante, a maior do mundo, que ultrapassa 700%.   

O salário mínimo pago na Venezuela é de cerca de 15 mil bolívares, aproximadamente R$4.687. O preço da cesta básica no país, que, diferentemente do Brasil, inclui itens de moradia, serviços, saúde e higiene, entre outros, é de ao menos 89 mil bolívares, no entanto.   

Desta forma, grande parte da população se vê obrigada a apelar aos mantimentos cujos preços são regulados pelo Estado.   

Não é fácil consegui-los, no entanto, e muitas vezes a população apela a saques em pequenos comércios, que são obrigados a racionar a distribuição de comida, controlada por comitês de bairros supervisionados pelo chavismo. Diante da falta de alimentos, muito venezuelanos estão procurando restos no lixo para se alimentar e é comum ver pessoas revirando as lixeiras das maiores cidades.   

Calcula-se que cerca de 76% da população do país esteja vivendo abaixo da linha da pobreza, sendo que em 2014, essa cifra era de pouco mais de 50%. A pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp, Carolina Silva Pedroso, ainda lembra que o país sofre os efeitos de um processo acelerado de urbanização, o que aprofundou as dificuldades da agricultura em se estabelecer como um negócio viável no país.   

Segundo ela, o chavismo tentou estabelecer políticas que estimulassem as pessoas a voltarem para o campo e produzirem alimentos, mas com os preços internacionais do petróleo disparando no começo dos anos 2000, não valia a pena produzir alimentos, pois o custo era mais alto do que importá-los. O modelo, no entanto, sofreu com a queda do preço do petróleo, que alimentava todos os programas sociais chavistas. Nos últimos anos, o preço do barril despencou cerca de US$ 100 para menos de US$ 40.   

"Em suma, essa situação faz com que, em qualquer queda do preço do petróleo, o Estado venezuelano fique sem divisas para importar. Considerando que a pauta importadora inclui boa parte dos alimentos e medicamentos consumidos no país, fica claro o porquê das constantes quedas do preço do barril do petróleo desde 2012 vêm sendo fundamentais para compreender a situação de escassez desses produtos no país desde então", conclui a pesquisadora da Unesp. (ANSA)
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