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Especial/Efeitos da crise na Turquia podem chegar ao Brasil

26/08/2018 14h42

SÃO PAULO, 26 AGO (ANSA) - Por Fernando Otto - A Turquia enfrenta uma das maiores crises econômicas de sua história, e o cenário de incerteza provoca uma cadeia de efeitos que chega ao Brasil. A ANSA ouviu especialistas que analisaram como fatores políticos influenciam na desvalorização de 40% da lira frente ao dólar e os desdobramentos das turbulências no país.   

Qual é o cenário atual na Turquia? - A economia turca enfrenta uma combinação explosiva de problemas: o alto endividamento externo em dólares (US$ 429 bilhões), que representa quase 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e é agravado pela valorização da moeda norte-americana; o elevado déficit comercial (US$ 38 bilhões em 2017); e a alta inflação, que chegou a 16% em 2018.   

No começo deste mês, o governo diminuiu a previsão de crescimento do PIB de 5,5% para 4% em 2018, o que representa uma queda de mais de três pontos percentuais com relação ao resultado de 2017 (7,4%). A redução será provocada pela duplicação das tarifas alfandegárias dos Estados Unidos sobre a importação de aço e alumínio turcos, motivada oficialmente pela prisão do pastor norte-americano Andrew Brunson.   

O religioso, que vive na Turquia há 23 anos, é acusado de envolvimento na tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2016.   

Ancara se recusa a libertá-lo e, por isso, sofre sanções econômicas de Washington.   

A resposta do governo turco foi a taxação das importações de carros, bebidas alcoólicas e tabaco norte-americanos, que somam US$ 533 milhões. Erdogan acusa os Estados Unidos de atacarem a economia turca e também anunciou um boicote a produtos eletrônicos do país.   

"Em uma situação de elevado risco político, há dificuldade de captação de recursos pela Turquia, o que leva à desvalorização da lira, gerando maior saída de capitais. Esse processo resulta em um círculo vicioso que só pode ser interrompido por uma ação decidida na gestão macroeconômica, algo que o governo turco não parece disposto a fazer", diz o professor Clemens Nunes, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).   

Medidas adotadas para conter a crise inflacionária por países como Brasil, nos anos 1990, e Argentina, nesta década, como o aumento da taxa de juros e empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), atrelados a políticas "amigáveis" aos investidores, não parecem estar em questão pelo governo.   

O ministério das Finanças do país é comandado pelo genro de Erdogan, Berat Albayrak, e a liberdade de imprensa está comprometida, o que faz com que a mídia local não questione as políticas do Estado.   

"Na visão do governo turco, a elevação da taxa de juros terá efeitos negativos para o conjunto da economia nacional, encarecendo o financiamento interno para a produção, inibindo o consumo e majorando os serviços da elevada dívida do país. A economia turca vive um importante momento de crescimento econômico que resulta em capital político para o governo", explica Arnaldo Francisco Cardoso, professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie.   

A atual taxa de juros no país é de 17,75%, e o Banco Central resiste em aumentá-la por influência do presidente.   

Como a crise atinge o Brasil? - A Turquia, assim como o Brasil, é considerada um país emergente. A perda de confiança do mercado em nações deste "grupo" afasta investidores e diminui o crédito, o que pode causar a desvalorização das moedas locais.   

"O Banco Central pode ser forçado a elevar os juros se estes efeitos [a desvalorização do real e a falta de crédito] forem pronunciados. A escalada do protecionismo pode reduzir o volume global de comércio e afetar as exportações brasileiras", explica Clemens Nunes.   

Desde agosto, quando as taxas norte-americanas foram anunciadas, a cotação do dólar passou de R$ 3,70 para R$ 4,10, o que representa uma alta de 10%. O resultado também foi influenciado pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, que valorizou a moeda norte-americana em todo o mundo.   

"A economia brasileira, embora com problemas, vive situação menos preocupante que a da Turquia, pois dispõe de consistentes reservas cambiais da ordem de US$ 380 bilhões, e seu sistema financeiro apresenta números que indicam equilíbrio", ressalva Arnaldo Francisco Cardoso.   

O resultado da valorização da moeda norte-americana é o aumento dos custos de importação de insumos importantes para a nossa economia, como o trigo. "O encarecimento dos produtos para consumo interno, que vai do pão francês na padaria aos pisos cerâmicos para a construção civil, pressiona a inflação para cima e também aumenta os desembolsos em reais sobre financiamentos contraídos em dólares, inibindo novos investimentos do produtor nacional", afirma Cardoso.   

Outro fator de inibição é a incerteza causada pelas eleições presidenciais, que serão realizadas em outubro. "A perspectiva de o novo governo não realizar ajuste fiscal importante agravaria a situação econômica do país, com mais desvalorização, inflação e recessão", diz Nunes. (Continua)
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