Bairros de maioria muçulmana apostam em cultura contra extremismo em Bruxelas

Márcia Bizzotto

De Bruxelas para a BBC Brasil

  • Ulises Ruiz Basurto/EFE

Os atentados terroristas de Paris e Bruxelas apresentaram ao mundo dois bairros de nomes estranhos, descritos como celeiros de terroristas, um tecido remendado no coração da capital belga.

Com importantes populações muçulmanas, Molenbeek e Schaerbeek rejeitam a representação que voltou a dominar os noticiários internacionais esta semana e multiplicam iniciativas sócio-culturais para promover a integração dos estrangeiros e desvincular a imagem do islã do extremismo.

A mais recente foi lançada pela administração local de Schaerbeek na quarta-feira (23), um dia depois dos ataques ao aeroporto e ao metrô, preparados nesse mesmo bairro, o segundo mais populoso da capital, onde 20% dos habitantes são marroquinos e turcos.

Chamada de 'Via', a organização sem fins lucrativos, subvencionada pelo governo regional, oferecerá aos estrangeiros um 'percurso de integração', com cursos de francês e orientação sobre questões da vida social, direitos e deveres na Bélgica.

No bairro vizinho de Molenbeek, onde 25,5% dos habitantes são marroquinos, a 'Via' espera atender até 2.000 imigrantes ao ano.

Mas projetos como esse não foram motivados pela recente descoberta de redes terroristas nesses bairros.

Teatro

Na 'Maison des Cultures et de la Cohésion Sociale' de Molenbeek, o ator e diretor Ben Hamidou iniciou há um ano a montagem de uma peça teatral baseada no texto 'Invasão', do autor sueco Jonas Hassen Khemiri, com a qual pretende "abrir o espírito" dos jovens do bairro para os "grandes temas fundamentais, como o respeito à mulher e a discriminação".

"A intriga é um pouco sobre esse preconceito, essa paranoia que temos durante um evento preciso sem dar um nome. Fala bastante de islamofobia, mas com um humor fino, mais acessível", explicou à BBC Brasil.

Os atores são adolescentes do bairro, onde o desemprego de menores de 25 anos é superior a 41%, o nível mais alto de Bruxelas.

O projeto vai além dos ensaios e representações. Hamidou leva seu 'atores' a outras peças e promove discussões sobre os temas abordados.

O modelo é similar ao da associação Ras El Hanout, um centro cultural que busca atualmente financiamento para construir um verdadeiro teatro em Molenbeek, com capacidade para um público de 192 pessoas, assentos retráteis para que o local possa ser convertido em sala polivalente e um estúdio para futuros projetos audiovisuais.

Valorização

"É o tipo de iniciativa que atrai jovens que podem estar em busca de uma identidade, de um propósito na vida e que, de outra maneira, poderiam ser atraídos pelo discurso extremista", opina Vanheukelom, educadora da associação sócio-cultural JES (sigla para "Juventude e Cidade" em flamenco), criada há 30 anos e que também promove diversas atividades culturais em Molenbeek.

Envolver os habitantes locais em produções culturais é também uma forma de "valorizar esse jovens que estão vendo seu bairro ser criticado diariamente no mundo inteiro e que se revoltam, que querem mostrar que os radicais são menos de 1% na comunidade."

Vanheukelom defende que essa é a melhor maneira se afastá-los do extremismo.

"Um jovem de 17 anos sem diploma que vê todo mundo dizer que ele é ruim acaba assimilando essa ideia e não vê razão para se esforçar", acredita a educadora.

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