'Inibimos Dilma', dizem deputados que foram aos EUA rebater 'discurso do golpe'

João Fellet - @joaofellet - Enviado especial da BBC Brasil a Nova York

Enviados a Nova York para acompanhar a participação de Dilma Rousseff em evento na ONU e divulgar a versão da oposição sobre o processo de impeachment, os deputados José Carlos Aleluia (DEM-BA) e Luiz Lauro Filho (PSB-SP) dizem que presença da dupla inibiu a presidente em seu discurso.

"Seguramente (nossa vinda) teve influência na decisão sensata da presidente de não atacar as instituições brasileiras", diz Aleluia.

Na véspera da viagem, jornais publicaram que Dilma poderia usar seu discurso na cerimônia de assinatura do acordo climático de Paris para se dizer alvo de um golpe no Brasil. Contra essa possibilidade, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ordenou a missão de deputados para acompanhar a visita e apresentar o outro lado.

Dilma, porém, fez apenas uma breve menção à crise brasileira em sua fala. Ela afirmou que o país "vive um grave momento", mas que o povo brasileiro tem "apreço pela democracia" e saberá "impedir quaisquer retrocessos".

Para Aleluia, o discurso de Dilma foi "perfeito". "Ela disse que não vai ter retrocesso e não vai ter mesmo: as instituições estão funcionando, o processo a que ela está sendo submetida é totalmente constitucional".

"Não houve nada que não estivesse compatível com uma chefe de Estado num momento em que se assina um acordo sobre o clima", diz o deputado. A questão climática foi o principal tema do discurso da presidente.

A BBC Brasil contatou assessores da Presidência para saber se Dilma realmente mudou o discurso, mas não obteve resposta.

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STF

Para Aleluia, outro fator que, segundo ele, levou Dilma a adotar um tom moderado na ONU foi uma fala recente de Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Mello afirmou na quarta-feira que considera um "gravíssimo equívoco" tratar o processo de impeachment como um golpe.

Aleluia e Lauro Filho acompanharam o discurso de Dilma de uma sala próxima ao plenário e não cruzaram com a presidente. Após a fala, encontraram-se com cerca de 30 brasileiros que se manifestavam a favor do impeachment fora do edifício; outras cerca de 30 pessoas protestavam a favor de Dilma.

Os deputados tiraram fotos com os manifestantes e voltaram para a sede da ONU para conversar com jornalistas - uma das funções essenciais da missão, segundo eles.

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Ambos viajaram a Nova York em classe executiva e se hospedaram no Marriot East Side, hotel em Manhattan com diárias a partir de US$ 166 (R$ 590).

Jornalistas questionaram se a viagem - e especialmente as passagens em classe executiva - não eram uma extravagância num momento em que o Brasil enfrenta uma grave crise econômica.

"Para a minha saúde, não viria numa viagem dessas sem executiva de jeito nenhum", disse Aleluia. "Este menino podia vir, eu não", afirmou, referindo-se ao colega de missão.

Em seu primeiro mandato na Câmara, Lauro Filho, 37 anos, diz ter sido escalado para a viagem por falar bem inglês (ele já morou na Nova Zelândia). Ele afirma, porém, que a habilidade "até agora não foi demandada", já que Dilma discursou em português e a maioria dos jornalistas que os procuraram eram brasileiros.

Questionado se a Câmara não agia de forma contraditória ao custear a viagem da dupla mas se recusar a liberar recursos para a convocação de acusadores de Eduardo Cunha no processo que tramita contra o deputado, Lauro Filho diz que há de fato uma "discrepância".

Ele afirmou ainda que a Casa deverá economizar com sua passagem de volta, já que as vagas na classe executiva esgotaram. "Vou voltar de econômica, feliz."

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