A estratégia de Temer para se aproximar de sem-terra, sem-teto e sindicatos

Ricardo Senra - @ricksenra - Da BBC Brasil em São Paulo

O entra e sai de carros pretos no Palácio do Jaburu, residência oficial da Vice-Presidência em Brasília, não leva só políticos e empresários para conversas privadas com Michel Temer (PMDB). A articulação do peemedebista, antecipando uma possível admissão do impeachment pelo Senado, inclui movimentos sociais tradicionalmente ligados ao PT, como sem-terra, sem-teto e sindicatos.

O diálogo é intermediado pelo deputado federal Paulinho da Força (SD-SP), presidente da Força Sindical - que reúne mais de 10 milhões de trabalhadores e faz oposição à governista CUT - e do Solidariedade, partido que, criado em 2013, hoje tem 14 representantes na Câmara, 200 prefeitos e mais de 115 mil filiados pelo país.

"O Michel me pediu para fazer esse meio de campo aí", disse Paulinho à BBC Brasil, horas depois de levar líderes de quatro centrais sindicais à sala de reuniões do vice-presidente. "Ele sabe que eu conheço muita gente na área."

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Um dos principais articuladores do impeachment na Câmara e criador de um bolão para adivinhar o placar da votação contra a presidente, Paulinho aposta nos pontos fracos da relação entre Dilma Rousseff e a esquerda que a elegeu. Nas últimas semanas, prometeu a movimentos sociais que Temer se dedicará a realizar exatamente as tarefas que o governo petista não conseguiu resolver.

A Guilherme Boulos, dirigente do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), o mensageiro disse que Temer investirá no Minha Casa, Minha Vida Entidades, braço do programa habitacional que permite que cooperativas populares - e não empreiteiras - construam moradias com financiamento público.

Preferida pelos movimentos sociais, a modalidade recebia menos de 1,5% do orçamento total do programa até o ano passado.

"Paulinho me procurou uma vez, sim, para conversar", disse Boulos à BBC Brasil. "Ressaltei que somos contrários a todas as políticas que têm sido associadas a Temer. Somos contra o golpe contra um governo eleito legitimamente."

Com o "amigo de 35 anos" José Rainha, ex-líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e atual coordenador da FNL (Frente Nacional de Luta Campo e Cidade), Paulinho conversa semanalmente sobre "a estagnação da reforma agrária" e "sua importância para o Brasil". Entre janeiro de 2015 e março deste ano, Dilma não havia realizado nenhuma desapropriação de terras improdutivas no país.

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Já com os sindicatos, ambiente em que circula com mais intimidade, o assunto principal é a retirada de caminhões, ônibus, motos e carros antigos de circulação para estimular a venda de veículos novos e a geração de empregos nas montadoras.

"Dilma deixou 10 milhões de desempregados e Michel sabe do momento econômico difícil, mas acha que um governo que dialoga pode ajudar o país a sair dessa crise", disse Paulinho à reportagem.

A ofensiva do deputado se intensificou desde a vitória do impeachment na Câmara, no último dia 17, como resposta à onda de protestos organizados por movimentos sociais a favor do governo. Nesta quinta-feira, atos a favor da presidente paralisaram avenidas e rodovias em pelo menos oito Estados.

Paulinho, Cunha e Temer

Dentro do Congresso, o principal trunfo do novo articulador de Temer é a proximidade com Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Rompido com o governo Dilma, que ajudou a eleger em 2010, o líder sindical se tornou um dos homens de confiança do presidente da Câmara, alvo de cinco inquéritos no Supremo Tribunal Federal.

"Se tirassem o Eduardo, o que resolveria para o Brasil? Tira o presidente da Câmara, mas o Brasil continua sofrendo porque tem uma presidente incompetente. O mais urgente é tirar a Dilma e foi isso que a gente fez, juntamos ali a oposição e a base do Eduardo na Câmara para tirar este mal maior. Sem ele não teria impeachment, não é qualquer deputado que tem coragem de enfrentar o império do PT."

A reportagem questiona: além de "coragem", Eduardo Cunha teria legitimidade? "A imagem que alguns querem passar é que a condução do processo foi dele, mas não foi. A função do Cunha foi só aceitar e conduzir a votação."

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Se a intimidade com o peemedebista lhe garante poderes para aprovar projetos na Câmara, a aproximação com Michel Temer pode render ao Solidariedade voos maiores, como um primeiro ministério.

"Não sei se meu partido vai participar do governo ou não. Nós não fomos convidados, então não dá para falar", diz. Paulinho. "A gente acha melhor esperar o governo aparecer e dizer 'olha, quero a ajuda de vocês nessa área ou naquela'. Será mais ele tomar essa iniciativa do que a gente", acrescenta.

"Eu não gostaria de assumir um ministério porque sou presidente de central sindical e de partido, ficaria estranho", diz. "Talvez para o partido pode ser."

Na avaliação de governistas, a valorização do passe de Paulinho entre políticos da oposição é fruto de sua rede de contatos fora do Congresso.

"Ele é a pessoa com mais influência sobre os trabalhadores fora do PT", disse um assessor do governo. "Temer já tem a simpatia do empresariado e dos partidos da oposição. Faltavam os movimentos sociais."

De José Rainha a Guilherme Boulos

Para romper a barreira representada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) - maior central sindical do país, ligada ao PT - e pelo MST - principal movimento de trabalhadores do campo, também governista -, Temer incumbiu Paulinho de "atirar pelas beiradas", concentrando-se nos movimentos sociais "coadjuvantes".

A FNL, dissidência do MST comandada por Rainha, presente em 15 Estados, é um exemplo.

"Paulinho é uma pessoa que respeito muito, devo muito ao Paulinho", disse José Rainha à BBC Brasil.

"É um cara inteligente, é metalúrgico, é habilidoso. A Dilma recebeu ontem o MTST na pessoa do Guilherme (Boulos), recebe o João Pedro (Stédile, dirigente do MST), mas nunca me convidou. Dilma tratou como se a gente não existisse, então, para mim, da mesma forma. Eu só lamento."

Rainha desconversa quando o assunto é Temer. "Não o conheço, você pode sempre ter surpresas, boas ou ruins. Como deputado, sei que era um cara inteligente, foi presidente da Câmara, hoje é vice-presidente."

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Para o MTST, principal movimento de luta por moradias dentro das cidades, tanto Paulinho quanto Temer são vistos com desconfiança.

À BBC Brasil, o líder Guilherme Boulos confirmou ter conversado com o mediador do vice-presidente, mas ressalta que "não reconhece a legitimidade de um governo que venha através de golpe e que não foi eleito, como é o caso do Temer."

"Perguntou quais eram as demandas do movimento e eu coloquei", diz ele, responsável por reiterados protestos populares contra o impeachment.

"Disse que tudo o que temos visto vindo do Temer são cortes de programas sociais. A "Ponte para o Futuro" (conjunto de propostas do PMDB para o país voltar a crescer) é um programa desastroso para os movimentos sociais."

"Não nos confundam com essa gente", completa Boulos, que classificou Paulinho, Temer e Cunha como "figuras nefastas". Graças a esta resistência, Paulinho já se foca em movimentos urbanos menores, que pleiteiam posições em conselhos municipais de habitação nas mais de 200 cidades que o Solidariedade governa.

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A voz dos sindicatos da oposição

Na manhã da última segunda, Temer discursou por 40 minutos para sindicalistas levados ao palácio do Jaburu por Paulinho.

Aos presidentes da Central dos Sindicatos Brasileiros, da Nova Central Sindical de Trabalhadores e da União Geral dos Trabalhadores, o vice pediu apoio para um governo de "união nacional" e prometeu medidas para aquecer a economia.

Os sindicalistas, por sua vez, entregaram a Temer uma carta com as principais reivindicações da categoria. Confira os principais pontos:

? Correção da tabela do Imposto de Renda;

? Fortalecimento e retomada do protagonismo histórico do Ministério do Trabalho e Emprego;

? Juros menores, voltados ao consumo e aos investimentos no comércio e na indústria;

? Desenvolvimento de uma política que fortaleça a indústria nacional e reconstrua o parque industrial, voltada principalmente para os setores de infraestrutura, petróleo, construção civil e pesada;

? Renovação da frota automotiva (caminhões, carros, ônibus, tratores e veículos de duas rodas);

? Fortalecimento da política de valorização do salário mínimo como forma de distribuir renda;

? Desenvolvimento de uma política de valorização dos servidores públicos.

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