'Campanha do medo' e assassinato marcam reta final de plebiscito britânico sobre UE

Pablo Uchoa

Em Londres

  • Stefan Wermuth/Reuters - 17.jun.2016

    Britânicos prestam homenagem a Jo Cox (foto), parlamentar do Partido Trabalhista britânico que morreu após ser esfaqueada e baleada próximo à cidade de Leeds, na Inglaterra. Ela era partidária da permanência do Reino Unido na União Europeia

    Britânicos prestam homenagem a Jo Cox (foto), parlamentar do Partido Trabalhista britânico que morreu após ser esfaqueada e baleada próximo à cidade de Leeds, na Inglaterra. Ela era partidária da permanência do Reino Unido na União Europeia

A decisão mais importante para a relação do Reino Unido com o resto da Europa nesta geração será tomada na próxima quinta-feira (23), quando os eleitores britânicos decidem em plebiscito se o país continua ou não a integrar a União Europeia.

Na semana anterior ao pleito, o país assistiu a uma disputa acirrada nas pesquisas e nos ânimos, incluindo o trágico assassinato de uma deputada de esquerda por um suspeito com fortes elementos de extrema-direita.

Após uma pausa na campanha, suspensa após a morte da deputada trabalhista Jo Cox na quinta-feira (16), alguns esperam que a campanha seja retomada em tom mais ameno.

O debate inesperadamente acre da campanha, carregado de ataques pessoais, apelos emocionais e argumentos exagerados, surpreendeu muitos mesmo nos círculos políticos.

Analistas também apontam que a campanha foi marcada pela dificuldade, em ambos os lados, de colocar a discussão em termos concretos, fazendo do medo a principal tática para atrair os eleitores.

Para Charlotte Galpin, pesquisadora britânica na Universidade de Copenhague, os britânicos chegarão "com opiniões distorcidas" à votação mais importante sobre a integração regional desde 1975, ano em que dois terços dos eleitores confirmaram a entrada do país na Comunidade Econômica Europeia.

"A mídia britânica dá pouca importância à política europeia e o tema é pouco estudado nas escolas e universidades a não ser em currículos específicos. Então as pessoas não sabem como articular os argumentos", disse Galpin à BBC Brasil.

Ela aponta uma sondagem feita no ano passado pelo instituto Eurobarometer, em que o Reino Unido foi considerado o país da União Europeia cujos cidadãos têm o pior nível de conhecimento do funcionamento do bloco.

"As pessoas não sabem discutir levando em conta as realidades da União Europeia e acabam sendo atraídas pela campanha do medo, cujos argumentos são mais fáceis de entender."

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País ao meio

Pesquisas divulgadas no fim de semana confirmam que o país está rachado ao meio entre ficar na UE ou sair do bloco: a mais importante delas, do instituto YouGov, dá 44% para a opção de "ficar na EU" e 43% para a opção de "sair da UE".

Apesar do empate técnico, partidários do "fica" veem nos números um retorno dos eleitores ao status quo, após um aumento súbito no apoio à saída registrado neste mês.

Dois terços dos entrevistados na pesquisa foram sondados após a morte da deputada Jo Cox. A lógica é que o crime abalaria seriamente a campanha pela separação.

Ao mesmo tempo, as sondagens revelam o peso que terá a posição dos indecisos - grupo, que segundo as pesquisas, giraria em torno de 10%.

Ambos os lados têm martelado seus argumentos e reduzido a discussão a apenas dois temas: imigração e economia.

No primeiro tema, a discussão foi visceral e pautada, em grande parte, pelo partido nacionalista Ukip e seu líder, Nigel Farage.

A mais recente aposta de marketing de Farage - um cartaz mostrando um fluxo de refugiados sírios destinado a afugentar os eleitores preocupados com os níveis de imigração - foi classificada de "racista" e criticada por ambos os lados da campanha.

Outro ponto que tem gerado confusão e temor é a possibilidade da entrada da Turquia na União Europeia - coisa que o premiê, David Cameron, partidário da permanência do Reino Unido no bloco, tem ressaltado que não ocorrerá antes de "décadas" de negociação.

Minando seus esforços está o seu próprio ministro da Justiça, Michael Gove, para quem a entrada de países como a Turquia na UE poderia levar a um aumento de 5 milhões de imigrantes no Reino Unido até 2030 - uma população do tamanho da Escócia.

Isto, argumentam os partidários da saída, levaria ao colapso do sistema de saúde, o esgotamento dos benefícios sociais e a superlotação das escolas.

Incertezas

Do outro lado, os defensores da permanência na União Europeia também são acusados de embarcar na campanha do medo e de tentar vender a versão de que a saída do bloco representará uma catástrofe econômica para o Reino Unido.

A cartada mais controversa nessa estratégia veio do ministro da Economia, George Osborne, que apresentou um dramático "orçamento de emergência" para um cenário de saída.

Nos cálculos de Osborne, essa opção deixaria um rombo nas contas públicas de 30 bilhões de libras (quase R$ 150 bilhões), que teria de ser coberto com aumentos de impostos, cortes na saúde, educação e defesa, e anos de políticas de austeridade.

A projeção foi duramente criticada por parlamentares do próprio partido Conservador, que acusaram o ministro de fazer uma campanha do medo com ameaças vazias.

A aprovação do orçamento seria muito improvável no Parlamento, depois que quase 60 deputados conservadores disseram que se rebelariam e rejeitariam a proposta.

Poucos questionem, porém, que a separação seria um baque econômico para o país. Na sexta-feira, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou suas próprias projeções para um cenário de saída, estimando que encolheria a economia britânica entre 1,5% a 5,5% até 2019.

O país exporta metade de sua produção para países da União Europeia e, se sair do bloco, teria de renegociar cerca de 60 acordos comerciais da UE com o resto do mundo, incluindo com países importantes, como EUA, China, Japão, Índia e Austrália.

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'Campanha do medo'

O que praticamente não se ouviu foram razões positivas para a permanência na União Europeia, concordam analistas.

Entrevistado pelo público na BBC no domingo à noite, o premiê David Cameron admitiu que precisa "melhorar" sua argumentação em favor do bloco.

"O que aprendi em seis anos é que não existe problema no mundo que não seja melhor resolvido com seus aliados, seus amigos, seus vizinhos", disse Cameron.

Para Raoul Ruparel, co-diretor do centro de estudos OpenEurope, a discussão configurou o que ele e outros acadêmicos chamam de "Project Fear": Projeto Medo.

"Isso não quer dizer que os argumentos não tenham méritos. Alguns têm e outros não têm, mas todos são argumentos negativos que destacam os riscos associados com uma opção ou outra", escreveu Ruparel.

"A realidade é que até o momento (o plebiscito) foi a campanha do medo contra a campanha do medo."

Charlotte Galpin, da Universidade de Copenhague, diz que a ausência de viés positivo no debate condiz com o forte ceticismo existente no Partido Conservador em relação à integração europeia.

"Vimos um debate primariamente dominado por homens brancos, principalmente do Partido Conservador. Vimos pouquíssimas especialistas mulheres, pouquíssimas vozes de minorias", disse a pesquisadora.

"Há diversas proteções europeias para os trabalhadores e para as mulheres vítimas de violência doméstica, por exemplo. Na questão do meio ambiente, a legislação europeia melhorou muito a qualidade das praias britânicas", exemplifica.

"As vozes enfatizando estes aspectos não receberam tanta atenção."

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