A vida em um acampamento das Farc, que assinou acordo histórico de paz na Colômbia

Em Havana: Juan Manuel Santos (esq.) e o líder das Farc, Timochenko (dir.), e o presidente cubano, Raúl Castro (centro)

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos (esq.) e o líder das Farc, Timochenko (dir.), assinaram o acordo em Havana, com a participação do presidente cubano, Raúl Castro (centro)

O governo da Colômbia e os rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinaram nesta quinta-feira um acordo histórico de cessar-fogo bilateral e definitivo, naquele que é o passo mais concreto para encerrar um conflito que já dura mais de meio século.

Após três anos de negociações, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder das Farc, Timoleón Jiménez, conhecido como "Timochenko", se reuniram em Havana (Cuba) para oficializar o tratado sobre o fim do conflito armado interno mais antigo da América Latina.

Durante mais de 50 anos, a guerra colombiana deixou mais de 200 mil mortos e forçou 6,9 milhões de pessoas a deixarem suas casas por causa da violência.

O acordo é formado por quatro pontos principais:

  • Desarmamento das Farc;
  • Cessar-fogo (e das hostilidades) bilateral e definitivo;
  • Garantias de segurança e luta contra organizações criminosas responsáveis por homicídios e massacres ou que ameaçam defensores dos direitos humanos e movimentos sociais e políticos;
  • Combate a condutas criminais que ameacem a construção da paz.

Mas ainda que se trate de um passo importante, o cessar-fogo definitivo só entrará em vigor quando for assinado o acordo final de paz. No texto assinado nesta quinta, foi estabelecido um prazo de 180 dias para que as Farc abandonem as armas.

O processo de desarmamento será monitorado por uma missão de observadores de paz da ONU e da Comunidade de Estados da América Latina e Caribe (Celac).

Adeus aos acampamentos?

O tratado também prevê a criação de 22 zonas de transição ao longo do território colombiano. Nelas, se concentrarão os membros das Farc enquanto durar o processo de reincorporá-los à vida civil.

Diante desse cenário histórico e dessa mudança no horizonte, o correspondente da BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC) Natalio Cosoy foi até as selvas do oeste da Colômbia, onde conheceu um dos acampamentos dos rebeldes. Leia abaixo o relato de sua visita:

"O rio Naya, que divide as regiões de Cauca e Valle del Cauca, no oeste da Colômbia, é como uma grande avenida na região, onde quase não há estradas.

Como qualquer grande avenida, apresenta oportunidades de propaganda. E as Farc, sabendo disso, colocaram dezenas de cartazes com mensagens como "Farc-EP, 52 anos em busca da paz", com fotos de seus líderes.

O guerrilheiro Camilo quer ser engenheiro

O guerrilheiro Camilo queria ser engenheiro

A lancha que nos leva para perto de um pequeno riacho. Um grupo de guerrilheiros e guerrilheiras muito jovens nos recebe em silêncio e começa a carregar nossa bagagem. São tímidos e cada um leva um fuzil no ombro.

Uma das jovens sorri e mostra dentes muito bem cuidados. E ela não é a única do grupo que recebe tratamento odontológico ali.

Depois de uma caminhada pela selva, em meio à muita umidade, chegamos ao acampamento.

É uma pequena vila de madeira, escondida debaixo da copa das árvores e perto de uma fonte de água - a primeira condição para a guerrilha escolher um lugar onde armar suas bases.

Grandes mangueiras negras alimentam um tanque de 2x2 metros que serve para cozinhar, lavar pratos e roupas, limpar as botas do barro e tomar banho de balde.

Aqui vivem 18 guerrilheiros, 11 homens e sete mulheres. Em três semanas eles construíram o lugar, levantaram meia dúzia de espaços para dormir com piso, teto e uma parede, colocaram camas com colchonetes e mosquiteiros para casais.

Cada um divide a cama com uma pessoa indicada pelo comandante, pois as decisões sempre vem de cima.

Os casais podem dormir juntos. Mas precisam ser homem e mulher.

Uniforme das Farc

Durante mais de meio século, conflito colombiano deixou mais de 200 mil mortos

A guerrilha foi acusada de ser uma organização homofóbica. Apesar de não proibir os homossexuais entre seus guerrilheiros, as Farc costuma os retirar dos acampamentos, recolher suas armas e os manda para trabalhar como milicianos, segundo informações passadas por três comandantes.

Além dos espaços para dormir e para lavar roupas, louças e banho, o acampamento tem um banheiro e um pátio de cerca de 10x3 metros, feito com tábuas de madeira, uma sala de reuniões ou de aula - maior do que o pátio, equipada com cadeiras e uma mesa de jardim, tudo de plástico azul -, e um armazém de alimentos e produtos de limpeza.

Todas as estruturas estão unidas por corredores de madeira para que os pés não fiquem sujos de barro.

O acampamento tem energia elétrica fornecida por um gerador e os dormitórios têm tomadas. A sala tem uma televisão de tela planta com 32 polegadas. Há também tem uma geladeira branca, pequena.

Vários guerrilheiros estão em volta da TV assistindo a um filme mexicano antigo. Em outro momento, eles viam um filme de ação americano.

Neste acampamento, o grupo tem sua rotina de comer, dormir, assistir televisão ou então à chuva que cai toda tarde. Também fazem cursos para se preparar para a vida política após o conflito.

Engenheiro civil

Camilo é um dos guerrilheiros que está no local, mas não vive de forma permanente no acampamento. Tem 27 anos, mas parece mais jovem. Chegou apenas até o 5º ano do ensino fundamental, embora quisesse ser engenheiro civil.

Ele conta que começou nas Farc aos 13 anos e gerenciava um grupo com cinco milicianos. Não é o único de sua família de oito irmãos que se envolveu com a guerrilha - o irmão caçula, porém, foi para o Exército.

Camilo pegou em armas aos 17 anos e, aos 24, já era comandante de guerrilha, liderando 24 homens.

Treinamento militar em acampamento

Guerrilheiros contam que nas Farc não há amigos, apenas companheiros, camaradas

No entanto, sua vida é orientada pelas relações superior-subordinado ou guerrilheiro-guerrilheiro, seguindo sempre os moldes das Farc.

Com o cessar-fogo é possível que Camilo e muitos outros tenham que aprender a manter relações diferentes.

Os guerrilheiros contam que nas Farc não há amigos, existem companheiros, camaradas. "Aqui não há direito a amigos. Somos companheiros, um amigo é algo muito íntimo", afirmou Camilo.

E os comandantes das Farc acreditam que a intimidade pode gerar uma lealdade comprometedora. E o próprio Camilo pergunta como tomar uma decisão difícil sobre alguém que se transformou em um amigo.

Ele cita um exemplo mais dramático: como votar caso tenha que executar um guerrilheiro que desrespeitou as regras da insurgência. Camilo mesmo teve que fazer isso mais de uma vez, quando companheiros foram condenados à morte por roubo de dinheiro, por exemplo.

Durante a conversa, ele me disse:

'Eu me dedicava aos explosivos, não a prepará-los, mas a ativá-los.'

Assim, do nada, com essa apenas essas frase, lembrei que o sujeito simpático e amável sempre bem disposto era parte de uma guerra violentíssima. Um participante muito ativo. Ele deixou essas suas funções desde o cessar-fogo unilateral de julho de 2015."

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