Nigel Farage não chegou ao Parlamento, mas foi crucial no referendo

  • Toby Melville/Reuters

    Nigel Farage (de terno azul), líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), comemora decisão do Reino Unido de sair da União Europeia

    Nigel Farage (de terno azul), líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), comemora decisão do Reino Unido de sair da União Europeia

A decisão pela saída do Reino Unido da União Europeia representa o auge da trajetória pública de um dos personagens mais proeminentes da batalha do referendo.
Nigel Farage, líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês), construiu toda a sua carreira política fazendo campanha para que o país deixasse o bloco europeu. Ao lado do ex-prefeito de Londres, o conservador Boris Johnson, ele é considerado um dos principais vencedores desse processo.

E Farage conseguiu tal feito sem nunca ter pisado no Parlamento britânico. Sua tentativa de se eleger fracassou nas eleições de 2015.

"Fizemos tudo isso sem precisar brigar, sem precisar disparar uma bala", declarou nesta sexta-feira (24). "Este é o amanhecer de uma nova nação independente."

Ainda que Farage divida opiniões entre os britânicos --é amado e odiado ao mesmo tempo--, uma coisa é certa: a vitória da campanha pela saída do bloco não teria sido possível sem os esforços dele.

Mas como alguém que durante muito tempo esteve à margem da política britânica conseguiu essa façanha?

'Contra o establishment'

David Cameron convocou o referendo e conseguiu a maioria necessária para fazê-lo acontecer. Mas a ideia do primeiro-ministro foi uma resposta à pressão do UKIP e especificamente de Farage, além de vários outros 'eurocéticos' conservadores. E acabou se tornando um pesadelo para Cameron: após o resultado, ele anunciou que renunciará ao cargo em outubro.

Durante a campanha, Farage adotou o discurso de que a votação seria uma "luta do povo contra o establishment".

O pesadelo do primeiro-ministro e da campanha pela permanência começou a se concretizar quando o UKIP decidiu vincular o referendo à questão da imigração.
Um dos momentos mais controversos foi quando Farage apresentou um anúncio em que mostrava uma fila enorme de imigrantes --a maioria era de sírios fugindo da guerra em seu país-- caminhando por um campo com o slogan "Ponto de Ruptura".

A peça, divulgada pouco antes do assassinato da parlamentar Jo Cox, do Partido Trabalhista, e retirada horas depois, foi chamada de "racista" e "xenófoba" pelos adversários. Em defesa, Farage disse que o anúncio era apenas um "reflexo da realidade" sobre a imigração na União Europeia.

Quem é?

Ele ganhou notoriedade na política britânica quando nem sequer havia se tornado um membro do Parlamento, algo que nunca conseguiu ser.

Além de seu incisivo discurso anti-imigração e antieuropeu, sua arma secreta foi vender a imagem de um homem comum, que continua vivendo na mesma região onde nasceu e que frequenta, há mais de 30 anos, o mesmo pub, George & Dragon.
 

Farage nasceu em 1964 em Kent (sudeste da Inglaterra). Seu pai, o corretor da bolsa Guy Oscar Justus Farage, abandonou a família quando o garoto tinha apenas cinco anos. Ainda assim, ele cresceu em um clã rico e frequentou escola particular, onde desenvolveu paixão pelo críquete, pelo rúgbi pelo debate político. Mas não frequentou a universidade, preferiu fazer carreira no mercado financeiro de Londres. Antes de completar 30 anos, já ganhava o suficiente para ter uma vida mais que confortável.

Contradições

Farage sempre fez da fobia à imigração e de sua posição anti-UE o palanque para sustentar sua carreira política.

"Queremos um divórcio amigável com a União Europeia e a substituição do bloco por um acordo de livre-comércio, promessa vendida à geração dos meus pais", disse em diversas ocasiões.

Ele aproveitava seus frequentes bate-bocas públicos com rivais políticos e europeus para reiterar sua posição. Mas críticos afirmam que sua atitude sobre a Europa sempre foi rodeada por diversas contradições. Uma delas é que Farage integra o Parlamento europeu desde 1999, e é lá que seu partido tem maior presença. Outra é que, embora seja crítico ferrenho da imigração, o político é casado com uma alemã.

Ele fundou o UKIP em 1993, um ano depois de sair do Partido Conservador, que integrava desde os anos de escola. O motivo: sua posição anti-UE. Para os críticos, o partido de Farage é racista e anti-islâmico, o que ele refuta.

"De maneira alguma é racista dizer que devemos controlar a quantidade e a qualidade dos imigrantes que entram no Reino Unido", disse.

'Um de nós'

Nigel Farage se descreve como o típico "homem de pub", o tradicional bar britânico. Diz abertamente que gosta de "beber e fumar, porque só se vive uma vez". Isso ajudou a moldar sua carreira política, bastante calcada em sua grande habilidade ao lidar com a imprensa.

Com uma "pint" de cerveja e um cigarro nas mãos, critica os demais políticos por estarem "desconectados da vida do povo". Além disso, costuma não ter papas na língua, muito menos preocupação com o "politicamente correto".

"É um personagem divertido, que não gosta de formalidades nem de atitudes politicamente corretas. E é contrário às regulações absurdas da União Europeia", disse uma vez Boris Johnson.

"Nós, conservadores, o vemos com o copo de cerveja e o cigarro nas mãos, com seu senso de humor, e instintivamente o reconhecemos como um de nós."

Não há dúvidas de que a saída do Reino Unido da União Europeia terá efeitos profundos nas relações do país com o resto do mundo. Restará saber se a história dará a Nigel Farage o crédito pela vitória ou a culpa pelo fracasso.

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