Espanha: 2ª eleição em seis meses não define governo; o que acontece agora

Pablo Esparza - Especial para BBC Mundo, España

  • Cesar Manso/AFP

Os conservadores avançaram na Espanha após eleições realizadas no domingo. Porém, não obtiveram a maioria requerida e a formação do novo governo permanece incerta.

Nas segundas eleições em seis meses, o Partido Popular (PP), de centro-direita, chegou inclusive a melhorar os resultados de dezembro: obteve 33% dos votos e elegeu 137 deputados no Parlamento de 350 legisladores - 14 a mais que os que elegeu em dezembro de 2015.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) se manteve como segunda sigla mais votada, com 22% dos votos e 85 deputados.

A coalizão de esquerda Unidos Podemos ficou com 21% dos votos e 71 deputados, frustrando os prognósticos segundo os quais a agremiação passaria o PSOE como força hegemônica da esquerda espanhola.

O Ciudadanos, de centro e considerado um parceiro natural do PP, obteve 13% dos votos, elegendo 32 deputados - oito a menos que em dezembro de 2015.

Como nenhum partido cruzou a linha da maioria absoluta para governar sozinho - 176 deputados -, o resultado quer dizer que incertezas na política espanhola não se dissiparam.

"Repete-se um cenário ingovernável, com a diferença que o PP sai fortalecido", disse Guillermo López, analista político e professor de Jornalismo na Universidade de Valência, à BBC Mundo, o serviço espanhol da BBC.

"O PSOE resiste e o Unidos Podemos decepciona, mas não afunda. E o Ciudadanos, parceiro natural do PP, perde.

"O resultado também mostra que o bipartidarismo entre PP e PSOE, que há muito caracteriza a política espanhola, continua sob ataque das novas forças políticas no país, mas não acabou.

Negociações

Por isso, uma das ideias mais repetidas na Espanha neste momento é a de que caberá aos líderes políticos sentar à mesa para negociar, chegar a acordos e pactuar nos próximos dias.

A BBC Mundo apresenta a seguir alguns possíveis cenários que podem se tornar viáveis na Espanha na próxima semana.

1- Grande coalizão presidida por Mariano Rajoy, do PP

"Claramente, agora Rajoy e o PP estão em melhor posição que sete meses atrás para reivindicar o governo", diz Guillermo López.

A combinação lógica seria uma coalizão entre o PP e o Ciudadanos, mas o número de deputados somados (169) ainda ficaria abaixo da maioria absoluta.

Muitos analistas acreditam que a solução pode ser uma "grande coalizão" entre o PSOE e o PP para evitar novas eleições.

"Não seria uma grande coalizão no sentido estrito porque o PSOE não entraria no governo - na realidade, permitiria ao PP governar", diz López. "Seria uma forma diluída de grande coalizão."

Essa solução foi defendida pelo PP ao longo da campanha, porém ela vem sendo negada pelo PSOE há mais de um ano.

A fórmula já foi usada em outros países, sendo a "Grosse Koalition" (Grande Coalizão) à alemã o exemplo mais citado. Na Alemanha, o conservador CDU, de Angela Merkel, governa com o socialista SPD para garantir a estabilidade do país.

Mas a experiência pode também ser mal sucedida. Na Grécia, os socialistas do Pasok se vêem cada vez mais irrelevantes desde um pacto em 2012 com o conservador Nova Democracia. Aquela coligação, em vez de garantir a estabilidade grega, resultou em eleições antecipadas, a vitória do partido Syriza e a queda dos socialistas gregos para a sexta posição entre os maiores partidos.

2- Uma coalizão à portuguesa entre Podemos e PSOE

Em campanha, o líder do PSOE, Pedro Sánchez, disse que não faria Rajoy presidente e que pressionará pela esquerda para que seu partido chegue a um acordo com o Unidos Podemos para governar.

"Ambos os partidos precisariam ceder muito e seria complicado porque não alcançam maioria", disse à BBC Mundo o cientista político espanhol Álvaro Madrigal.

"Precisariam de um partido como o Ciudadanos - e então não seria um pacto de esquerdas - ou chegar a um acordo com partidos nacionalistas de esquerda."

Para estes grupos, uma questão decisiva é a realização de um plebiscito para decidir sobre a independência da Catalunha.

"Não creio que os nacionalistas catalães concordem em integrar o governo ou se abster se não obtiverem o plebiscito", diz López, da Universidade de Valencia.

"E não creio que o PSOE vá buscar uma forma de plebiscito para satisfazer essa exigência. Menos ainda depois que o Reino Unido decidiu sair da União Europeia (através de um plebiscito)."

Assim, este seria um pacto complexo e talvez por isso, menos provável.

3- Eleições - pela terceira vez

Poucos políticos se atrevem a considerar essa opção no momento. A pressão para que não sejam convocadas novas eleições é enorme e, durante a campanha, todos os candidados rejeitaram essa possibilidade.

"Não se pode descartar novas eleições", diz López. "A questão é: o que o PSOE acha que lhe prejudica mais, não apoiar o PP e ir de novo às urnas em novembro ou dezembro, ou permitir um governo do PP e ser punido?"

Álvaro Madrigal cita uma opção extrema para evitar um terceiro pleito: reformar a legislação eleitoral para mudar a forma como se nomeia o presidente do governo.

"Poderia ser incluída inclusive uma nova cláusula que diga, por exemplo, que governa a lista mais votada", diz.

Se nenhuma das três opções vingar, preveem-se negociações longas e complexas. Como foram as que se seguiram às eleições de dezembro, e que culminaram com a repetição da votação.

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