O que relatório britânico de 2,6 milhões de palavras conclui sobre 3 questões-chave da Guerra do Iraque

Laura Kuenssberg - Editora de Política

Demorou mais do que todos esperavam. Mas as conclusões do chamado relatório Chilcot, que analisou a participação do Reino Unido na invasão ao Iraque em 2003, alcançadas com o peso de mais de 2 milhões de palavras e sustentadas por milhares de documentos, são cristalinas, respeitosas e extremamente críticas - mesmo sem trazer grandes surpresas reais.

Serão semanas de pesquisas sobre as provas, que estão sendo publicadas pela primeira vez - logo estas primeiras reflexões poderão ser reformuladas à frente.

As afirmações de John Chilcot, o chefe da investigação, parecem cuidadosas, mas também corajosas e precisas.

O relatório sugere que o governo britânico, a comunidade de inteligência e os militares falharam, e que o ex-premiê Tony Blair conduziu seu governo de modo a evitar que possíveis e prováveis consequências da ação militar fossem levadas em conta.

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Isso apesar da sugestão de que o ex-primeiro-britânico tenha discutido com o ex-presidente americano George W. Bush (2001-2008), ainda em dezembro de 2001, uma "estratégia inteligente" para mudar o governo no Iraque.

O relatório também sugere que, embora a ação militar pudesse ter sido necessária para conter Saddam Hussein em algum momento no futuro, não era a última opção naquele momento. Não havia, portanto, "ameaça iminente" quando militares britânicos, homens e mulheres, colocaram suas vidas em risco.

Essas são, literalmente, as principais conclusões da investigação:

"Concluímos que o Reino Unido escolheu se unir à invasão do Iraque antes da exaustão de todas as opções pacíficas para o desarmamento (do regime de Saddam Hussein). A ação militar não era a última opção naquele momento."

"As avaliações sobre a gravidade da ameaça representada pelas armas de destruição de massa do Iraque foram apresentadas com uma certeza que não era justificada."

"Apesar de alertas explícitos, as consequências da invasão foram subestimadas. O planejamento e as preparações para o Iraque após Saddam Hussein foram totalmente inadequados."

"O governo falhou em alcançar seus objetivos declarados."

Mas o relatório Chilcot percorre apenas parte do caminho em busca de três questões recorrentes quando o assunto é a Guerra do Iraque e a participação do Reino Unido.

1) A guerra foi legal?

O relatório lembra que o comitê responsável pela investigação não é um tribunal nem um júri, pois não foi criado para fazer apontamentos legais.

Mas o trabalho avança - até onde é possível diante dessa limitação - ao afirmar: "Nós concluímos, contudo, que as circunstâncias em que foi decidido que havia base legal para a ação militar britânica estavam longe de ser satisfatórias".

O que o relatório também mostra de forma explícita é que a decisão final sobre a legalidade da invasão foi tomada por Tony Blair, e não por outra instância de governo.

De fato, o advogado-geral de Blair à época deixou claro em documentos publicados no relatório que se tratava "de uma decisão para o primeiro-ministro".

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A decisão específica era sobre o Iraque estar ou não em "violação material" da resolução 1441 do Conselho de Segurança da ONU, o que justificaria legalmente uma ação militar sem uma nova resolução.

Correspondência do gabinete de Tony Blair afirmava à época que a violação da resolução pelo Iraque era uma "visão inequívoca" do então primeiro-ministro, mas o relatório Chilcot conclui que "não é claro onde Blair se apoiou para chegar a tal visão".

2) O povo do Reino Unido foi enganado pelo governo?

O relatório "absolve" o governo britânico de uma das acusações mais polêmicas, a de que teria manipulado ou "apimentado" o caso deliberadamente para provocar a invasão.

"Não há evidências de que dados de inteligência tenham sido incluídos de maneira imprópria no dossiê (que justificou a invasão) ou de que o governo tenha influenciado o texto impropriamente."

Mas ao ler o relatório fica a impressão de que o governo Blair estava buscando fatos para corroborar sua determinação de mudar o regime iraquiano, mais do que analisando fatos de forma cuidadosa para tomar uma decisão.

A investigação apontou que setores de inteligência "não concluíram sem margem de dúvida que Saddam Hussein havia continuado a produzir armas químicas e biológicas".

E diz que no dossiê pré-guerra havia uma "seleção deliberada de uma formulação que sustentava as crenças de Blair, mais do que as avaliações que o Comitê Conjunto de Inteligência havia feito".

Em outras palavras, a política ofuscou os julgamentos práticos, mesmo que não haja provas de tentativas deliberadas de manipular opiniões.

3) O Reino Unido estava preparado?

A resposta de Chilcot? Nem remotamente.

É surpreendente ver, de maneira nua e crua, a conclusão de que "não houve discussões substantivas sobre as opções militares, apesar de promessas neste sentido por Blair, antes do encontro de 17 de março (de 2003)" - isso foi menos de uma semana antes do começo da guerra.

O relatório deixa claro que não houve planejamento nem preparação militar suficiente, e que não havia capacidade para um comprometimento de longo prazo.

E sobre a turbulência que a guerra desencadeou na região, Tony Blair declarou na investigação que isso era algo que não poderia ser previsto.

Tal argumento é rebatido numa conclusão polida e incisiva:

"Não concordamos que uma visão retrospectiva tenha sido necessária. Os riscos de conflitos internos no Iraque, a busca ativa do Iraque por seus interesses, a instabilidade regional e as atividades da Al-Qaeda no Iraque foram fatores explicitamente identificados antes da invasão", e ministros estavam cientes, diz o relatório sobre a "inadequação" dos planos americanos.

É perfeitamente plausível que o relatório Chilcot confirme mais opiniões do que mude cabeças, mas o trabalho fornece a mais completa prestação de contas de uma guerra recente.

Há uma possibilidade de que aqueles que se preocupam de forma mais apaixonada sobre o que deu errado usem o que foi revelado hoje para buscar punição pelos erros. Os vereditos de John Chilcot superaram dois milhões de palavras, mas ainda há muito por vir.

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