Por que milhares de venezuelanos saíram às ruas de Caracas nesta quinta?

Daniel García Marco

Da BBC Mundo em Caracas (Venezuela)

  • AFP

A fila para comprar pão de manhã em Caracas nesta quinta-feira era menor do que o habitual. Vestidas de branco, muitas pessoas passavam direto, porque o objetivo delas era outro: tentavam chegar aos pontos marcados pela oposição para protestar contra o governo da Venezuela.

Milhares de partidários da oposição saíram às ruas da capital para participar da chamada "Tomada de Caracas", um prostesto para pressionar as autoridades eleitorais a realizarem ainda este ano um plebiscito revogatório contra o presidente Nicolás Maduro.

Era a parte final de uma jornada de manifestações majoritariamente pacíficas. Na praça Altamira, uma das mais emblemáticas da capital, pessoas de todas as idades cantaram, gritaram e passaram calor até que uma chuva caiu para refrescá-los.

"Vai cair, vai cair! Esse governo vai cair!", gritavam dezenas de adolescentes carregando uma bandeira gigante da Venezuela em direção às forças de segurança que bloqueavam um dos acessos da marcha.

"Estou aqui porque quero que, com essa marcha, o governo entenda que a única coisa que queremos é que o mandato (de Maduro) seja revogado, algo que está contemplado na Constituição e é um direito consagrado", disse Arminda Farias, que participava do protesto.

"Queremos paz. Queremos ter não a Venezuela de antes, mas uma melhor. Queremos um futuro para minhas filhas e meus netos. Sei que o governo não vai nos escutar, mas esse é meu grãozinho de areia de esperança, e é por ele que estamos todos aqui", afirmou, com um certo ar de resignação, um sentimento compartilhado por outros manifestantes.

Ao menos 40 pessoas foram detidas no protestos, segundo a ONG Foro Penal Venezuelano, e a polícia usou bombas de gás para tentar controlar os manifestantes.

Enquanto isso, em outro ponto da cidade, a legenda governista Partido Socialista Unido da Venezuela organizou uma manifestação na Avenida Bolívar, uma das principais de Caracas.

Maduro foi à concentração e disse que, nesta quinta-feira, tinha triunfado a paz e que a tentativa golpista havia sido derrotada. "Viemos até aqui cantando o canto da vitória e da paz", disse o presidente.

Maduro fez vários ataques contra o presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, dizendo que ele quer desestabilizar o país, e anunciou estar pronto para aprovar um decreto que retira a imunidade parlamentar de todos os deputados venezuelanos. "A imunidade foi criada para que se faça cumprir as leis, não para violá-las."

O anúncio do presidente foi visto como um "disparate" por Ramos Allup. "Ele está em um momento de angústia e com os nervos à flor da pele, porque viu que não são os partidos políticos, mas a população que quer colocar em prática o plebiscito, que é um direito constitucional."

A manifestação desta quinta foi convocada há várias semanas e mobilizou partidários de várias partes do país. O governo declarou que o verdadeiro motivo da convocação era planejar a execução de um golpe de Estado.

A oposição rechaçou a acusação e afirmou que o governo usou vários artifícios para dificultar a vinda de outros participantes de outros pontos do país para participar da marcha.

Data limite

O protesto tinha como objetivo pressionar o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) para marcar uma data para um plebiscito revogatório do mandato de Maduro, uma medida que a oposição vem pedindo desde abril.

O plebiscito é um mecanismo previsto pela Constituição para, por votação popular, tirar do poder um presidente, uma vez que ele tenha superado a metade do período para o qual foi eleito.

Mas, se quiser uma mudança real no governo, a oposição precisa que ele seja realizado antes de 10 de janeiro de 2017.

Isso porque a Constituição venezuelana estabelece que o vice-presidente deve assumir a gestão se o plebiscito for realizado após a metade (dois anos) do mandato do presidente - como o vice atual é governista, caso isso ocorra, o partido de Maduro continuaria no poder até o final do atual período de governo, em 2019.

Por isso, correr contra o tempo é crucial para os oposicionistas, que pleiteiam que o plesbicito ocorra ainda neste ano e prometem novos protestos populares.

A pressão sobre Maduro deve crescer, mas a oposição também tem um longo caminho pela frente para aprovar, de fato, o plebiscito.

A presidente do CNE, Tibisay Lucena, sinalizou que a possibilidade de que a coleta de assinaturas possa ser feita no final de outubro, o que colocaria em risco o objetivo da oposição de que a consulta seja realizada ainda neste ano. Lucena também já disse que o CNE não aceitará pressão e que os prazos serão seguidos.

Já o governo disse há meses que o plebiscito não acontecerá em 2016 e culpou a oposição por ter apresentado a petição em abril e não em janeiro. Um novo protesto foi marcado para 14 de setembro. 

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