Reino Unido vai às urnas em meio a atentados e montanha-russa nas pesquisas

Fernando Duarte

Da BBC Brasil em Londres

  • BBC

    Pesquisas mostram imensa variação de intenções de voto nos dois principais partidos do Reino Unido

    Pesquisas mostram imensa variação de intenções de voto nos dois principais partidos do Reino Unido

 

O Reino Unido vai às urnas nesta quinta-feira para uma eleição que desponta como imprevisível não apenas em termos de resultados, mas também de consequências.

 

O pleito foi convocado em 19 de abril pela primeira-ministra Theresa May, que decidiu antecipar a votação prevista para 2020 por entender que precisava do endosso popular para liderar as negociações da saída do Reino Unido da União Europeia - o processo conhecido como Brexit.

May assumiu o cargo em julho de 2016, depois da renúncia do então premiê, David Cameron, cuja posição ficou insustentável após a vitória do Brexit em um plebiscito. A renúncia de Cameron detonou um processo de eleição indireta, controlado pelo partido do governo, o Conservador.

Assim como Cameron, May participou da campanha pela permanência britânica na UE, quando ainda era ministra do Interior. Mas foi eleita pelos parlamentares conservadores sem nem precisar disputar um segundo turno - sua única rival, Andrea Leadsom, retirou-se da disputa.

Assim, ela se tornou a segunda mulher na história britânica ocupar o cargo de premiê. O problema é que, ao contrário de Margaret Thatcher, May herdou um governo com maioria parlamentar de apenas 17 cadeiras, considerada tênue para um processo tão controverso e divisivo como o Brexit.

Convocar a eleição "fora de hora" surgiu como opção para tentar aumentar a capacidade de manobra do governo, ainda mais porque as pesquisas de opinião indicavam em abril que os conservadores poderiam obter uma vitória avassaladora nas urnas diante de um momento de turbulência no principal partido de oposição, o Trabalhista.

Desde então, porém, May e os conservadores viram a vantagem nas pesquisas encolher.

Confira abaixo alguns dos principais pontos da eleição.

Quem leva?

A eleição de 2017 é um desafio à parte para os institutos de pesquisa, cuja reputação no Reino Unido sofreu abalos desde o pleito de dois anos atrás, em as projeções falharam em prever a vitória de Cameron.

E durante a campanha para o plebiscito do Brexit, no ano passado, elas subestimaram o apoio à saída da UE, que acabou prevalecendo nas urnas - 52% a 48%.

Na atual campanha, a percepção de uma vitória fácil de May deu lugar até a projeções de um "parlamento pendurado" - termo usado para uma situação em que nenhum partido obtém maioria das cadeiras (pelo menos 326).

Isso ocorreu nas eleições de 2010, o que forçou um governo de coalizão entre conservadores e liberais-democratas.

A maior surpresa em tudo isso é a recuperação dos trabalhistas, que haviam despencado em termos de popularidade desde que Jeremy Corbyn assumiu a liderança da legenda.

Esquerdista convicto e com posições muito diferentes das que marcaram o centrismo do partido, inclusive nos 13 anos de seu último governo (1997-2010), Corbyn enfrentou rejeição até nas fileiras trabalhistas, sendo atacado abertamente pelo ex-premiê Tony Blair.

Mas, a julgar pelas pesquisas, os britânicos já não veem com tanta desconfiança o homem que, até a surpreendente ascensão ao topo do trabalhismo, era apenas um deputado sem nenhuma experiência em governo.

O que não quer dizer que Corbyn vencerá a eleição: as projeções mais otimistas colocam os conservadores um ponto à frente dos trabalhistas, ao passo que as mais pessimistas dão 12 pontos de vantagem para o partido de May.

Voto distrital - e marginal

É importante frisar que o sistema eleitoral britânico é diferente do brasileiro.

Os eleitores votam em candidatos locais (650 distritos), o que inclui interessados no posto de primeiro-ministro. Não há segundo turno: o candidato com mais votos leva.

Existem desde distritos há décadas dominados por um ou outro partido aos chamados "pendulares", em que a vitória de uma legenda ocorre com diferença de menos de 10% dos votos. E que se tornam alvo dos estrategistas de campanha.

Na eleição de 2015, por exemplo, 17 distritos foram decididos com uma maioria de menos de mil votos e em pelo menos outros 50 a diferença do vencedor para o segundo colocado foi de menos de 5%.

Não por acaso, os liberais-democratas apelaram para o voto tático na campanha - seu líder, Tim Farron, pediu que eleitores trabalhistas "emprestem" seus votos em distritos em que os lib-dems são os principais rivais dos conservadores, para evitar que o governo saia das eleições com uma maioria muito grande.

"Não podemos dar um cheque em branco para May", disse Farron.

Impactos no Brexit

Apenas um dos grandes partidos envolvidos na eleição, o Liberal-Democrata, tem em sua plataforma a defesa da permanência na União Europeia.

Mas a legenda aparece com apenas 8,1% das intenções de voto, o que representaria apenas 10 cadeiras parlamentares. Sendo assim, os lib-dems não terão muito peso nas discussões sobre qual teor de Brexit será adotado.

O governo conservador até agora tem defendido um estilo duro de negociação, marcado pela frase "não fazer acordo é melhor do que fazer um acordo ruim", enquanto a plataforma trabalhista prima pela flexibilidade nas discussões com a UE e a importância da permanência no mercado comum europeu.

Comparecimento às urnas

O voto no Reino Unido não é obrigatório, e o comparecimento às urnas oscilou drasticamente ao longo das décadas e chegou ao menor de todos tempos (59,4%) em 2001.

No entanto, os últimos três pleitos foram marcados por uma recuperação - o comparecimento foi de 66% em 2015.

A importância disso? De acordo com a mídia britânica, houve um grande aumento no número de britânicos com idades entre 18 e 24 anos inscrevendo-se para votar este ano, uma parcela da população que normalmente vota nos trabalhistas.

Segurança

A questão da segurança já tinha papel importante na campanha eleitoral, mas ganhou força na reta final depois de, em apenas duas semanas, dois ataques terroristas assolarem o Reino Unido - a explosão na saía do show da cantora Ariana Grande, em Manchester, em 22 de maio, e o atropelamento e esfaqueamento de pessoas em Londres, no último dia 3.

Essas tragédias levaram a trocas de farpas entre os principais partidos.

Os trabalhistas acusaram o governo conservador de aumentar os riscos por causa da redução de efetivo nas forças policiais do Reino Unido - curiosamente, um projeto levado a cabo por Theresa May no Ministério do Interior.

Os conservadores, por sua vez, se defenderam, dizendo ter investido mais dinheiro em operações de contraterrorismo.

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