Entre acusações de Trump e 'conflito de interesses', subchefe do FBI pede demissão

O FBI, a polícia federal americana, tem nova mudança em sua cúpula: o vice-diretor da organização, Andrew McCabe, renunciou nesta segunda-feira, antes de sua data oficial de aposentadoria, segundo a emissora CBS News.

McCabe era frequentemente acusado de partidarismo político pelo presidente dos EUA, Donald Trump. E sua renúncia ocorre uma semana depois de virem à tona relatos de que Trump queria sua saída.

Mas a Casa Branca afirma não ter tido influência na mudança de comando do FBI.

"O presidente não participou dessa decisão", afirmou aos jornalistas a porta-voz de Trump, Sarah Huckabee Sanders.

Entenda as trocas de comando no órgão e seu significado político.

Por que isso é significativo?

McCabe assumiu temporariamente o FBI em maio passado, após a demissão de James Comey por Donald Trump.

Comey supervisionava a investigação policial sobre as acusações de interferência russa na eleição presidencial de 2016.

Trump acabou nomeando Christopher Wray como novo chefe do FBI, nome confirmado pelo Senado em agosto.

Wray recentemente ameaçou renunciar ao cargo após sofrer pressão do secretário de Justiça, Jeff Sessions, para demitir McCabe, segundo relatos da imprensa americana.

Por que Trump criticou McCabe?

A crítica de Trump se refere à mulher do subchefe, Jill McCabe, que concorreu (sem sucesso) pelo Partido Democrata a uma vaga no Senado pelo Estado da Virgínia.

A campanha dela recebeu cerca de US$ 500 mil em doações de um comitê político próximo a Hillary Clinton, rival de Trump em 2016.

Quando Andrew McCabe assumiu interinamente o comando da polícia federal americana, Trump tuitou: "O problema é que o chefe interino do FBI e a pessoa encarregada da investigação sobre Hillary (em referência à apuração, pelo FBI, do uso de servidores privados de e-mail pela democrata quando era secretária de Estado), Andrew McCabe, recebeu US$ 700 mil de H (Hillary) para sua mulher!"

Na semana passada, o jornal Washington Post noticiou que McCabe foi questionado pelo presidente em uma reunião no Salão Oval.

Segundo relatos de pessoas presentes no encontro, Trump perguntou a McCabe em quem ele votou na eleição de 2016. A resposta de McCabe foi que ele não compareceu à votação.

Em outra ocasião, por telefone, o presidente teria sugerido que McCabe perguntasse à esposa "como é se sentir como uma perdedora" - fazendo referência à derrota de Jill McCabe.

Havia conflito de interesses por parte de McCabe?

Mensagens divulgadas recentemente indicam que alguns agentes do FBI sentiam que McCabe deveria ter se declarado impedido das investigações sobre os e-mails de Clinton mais cedo, devido às aspirações políticas de sua esposa.

Em uma conversa de outubro de 2016, o agente Peter Strzok escreveu à colega Lisa Page que o chefe de gabinete do setor de McCabe "muito claramente 100% acredita que Andy deveria ser recusado por conta da 'percepção'".

Posteriormente, McCabe de fato se retirou do caso - uma semana antes das eleições de 2016.

Comissões legislativas lideradas por republicanos têm lançado investigações sobre as acusações de que o FBI teria boicotado apurações sobre Clinton, mostrando favoritismo pela candidata.

Por outro lado, democratas defendem que estas investigações seriam uma forma de tirar o foco das apuração sobre a influência da Rússia na campanha de Trump.

Há um expurgo?

O correspondente da BBC em Washington Anthony Zurcher explica que McCabe havia virado um para-raio das críticas republicanas à forma como o FBI lidou com a investigação de possíveis elos entre a Rússia e a campanha de Trump. Agora, McCabe está deixando o cargo - ou talvez sendo forçado a isso - um pouco antes do planejado.

Trump havia deixadas explícitas suas críticas ao subchefe do FBI durante a campanha eleitoral de 2016. E, em tuíte de dezembro passado, o presidente fez quase uma espécie de "contagem regressiva" para a aposentadoria de McCabe.

Ao mesmo tempo, surgiram os relatos de que o superior de McCabe, Christopher Wray, resistiu à pressão para demiti-lo. Pelo visto, algo mudou desde então - e uma das possibilidades é que a pressão dos republicanos tenha ficado forte demais. Na visão de alguns democratas, trata-se de um aparente expurgo político na principal agência de segurança do país.

Se há algo mais preocupante sobre a conduta de McCabe - além da afiliação de sua esposa aos democratas e o envolvimento de seu nome em uma conversa de agentes do FBI -, parece apenas uma questão de tempo para que novidades apareçam.

O que está claro até aqui, no entanto, é que as investigações sobre as campanhas eleitorais de 2016 estão se tornando uma trincheira partidária - podendo influenciar a continuidade destas apurações.

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