Topo

BBC

Em menos de um ano, ameaça de guerra nuclear se transformou em promessa de paz entre Coreias

Korea Summit Press Pool via AP
27.abr.2018 - Kim Jong-un e Moon Jae-in se abraçam durante a cúpula da Coreia do Norte e da Coreia do Sul em Panmunjom, na zona desmilitarizada Imagem: Korea Summit Press Pool via AP

Felipe Corazza

Da BBC Brasil em São Paulo

28/04/2018 06h44

Quando Donald Trump ameaçou a Coreia do Norte com "fogo e fúria" em agosto, o mundo voltou algumas décadas no tempo e se viu, novamente, imerso na possibilidade de um conflito nuclear.

O presidente americano afirmou que não seria brando na reação a novos testes feitos pelo regime de Kim Jong-un, que acabara de fazer um novo experimento com seus mísseis capazes de carregar uma ogiva atômica.

Meses depois, nesta sexta-feira, o próprio líder norte-coreano atravessou a fronteira com o Sul, apertou a mão do presidente sul-coreano, Moon  Jae-in, e sinalizou um provável acordo de paz que ponha fim à guerra que nunca terminou formalmente entre os dois países - além de indicar que não pretende mais realizar testes nucleares.

A possibilidade de um cenário apocalíptico passou pela cabeça não apenas do grande público, mas de especialistas como John Tierney, ex-deputado americano pelo Partido Democrata e atual diretor-executivo do Centro para Controle de Armas e Não-Proliferação, organização sediada em Washington que monitora a corrida armamentista e nuclear mundo afora.

A preocupação, diz Tierney à BBC Brasil, era com o potencial de um gesto descuidado ou mais duro por parte de Trump que fizesse Kim Jong-un entender que seu regime estivesse sob ameaça iminente de ataque. Segundo ele, também havia a chance de alguma reação impensada do líder americano às provocações de Pyongyang. "Em qualquer destes cenários, parecia haver o risco real de que algum dos lados iniciasse uma ação militar que, mesmo limitada, provocaria uma escalada."

Apesar dos avanços norte-coreanos na área nuclear, no entanto, um ataque atômico direto contra o território americano seria improvável, mas o possível uso de armamento convencional contra alvos na região - como os quase 30 mil soldados dos EUA estacionados na Coreia do Sul - poderia ser o suficiente para confirmar os piores temores à época.

Aperto de mão

Diante deste cenário era difícil imaginar, em meados de 2017, a cena protagonizada por Kim e Moon na Zona Desmilitarizada na sexta-feira: um aperto de mãos, uma reunião amigável e a promessa de encerrar formalmente o conflito ainda neste ano. A "trajetória relâmpago" de um extremo a outro chama atenção, mas não deve ser vista apenas como uma guinada radical ou, ainda, como efeito direto de um punhado de tuítes do presidente americano, segundo Tierney.

Na avaliação de analista, uma possibilidade é que o programa nuclear norte-coreano já tenha evoluído o suficiente para que Kim tenha decidido, agora, voltar seus olhos para tentativas de melhorar a combalida economia do país.

"Analistas, diplomatas experientes e militares parecem acreditar que a habilidade de afirmar que a Coreia do Norte já dominou a miniaturização de ogivas e a tecnologia de mísseis deu a ele (Kim) uma vantagem em negociações e uma licença interna para atacar os desafios econômicos que, em teoria, deveriam estar sendo resolvidos paralelamente ao avanço do programa atômico, mas que na prática não estão melhorando."

O contexto em que os dois líderes deram os maiores passos em direção à paz em décadas também inclui muitas outras nações além dos EUA de Trump. A construção do encontro entre Kim e Moon, de fato, remonta a anos de diálogos de bastidores e de pressões como a da China, que há muito demonstra sinais de incômodo com a postura provocativa dos aliados norte-coreanos no cenário internacional.

Pouco tempo após assumir o poder em Pequim, Xi Jinping passou a mencionar esforços de reunificação da Península Coreana em seus discursos sobre o tema. Ainda durante o governo da ex-presidente sul-coreana Park Geun-hye, o governo chinês intensificou as conversas com Seul e passou a defender mais diálogo entre as nações da região para tratar da questão norte-coreana.

Apesar do aumento da pressão chinesa por diálogo, à época, Seul não intensificou na mesma proporção os esforços diplomáticos na direção de um diálogo com o Norte. Filha do general Park Chung-hee, que lutou pelo exército do Sul na Guerra da Coreia e, posteriormente, comandou o país em uma ditadura que se arrastou de 1963 a 1979, a ex-presidente sul-coreana declarava sua pretensão de conduzir a península a uma paz duradoura, mas, ao mesmo tempo, reforçava constantemente a ideia de que não aceitaria qualquer ação de Pyongyang que pusesse em risco a segurança e a soberania do Sul.

Deposta em impeachment por um caso de corrupção e tráfico de influência, Park foi sucedida por um governo tampão e, após a realização de eleições, por Moon, o atual presidente e um histórico defensor da conciliação e do diálogo como solução para a questão com a Coreia do Norte.

"Não podemos minimizar o trabalho do líder sul-coreano, Moon Jae-in, para criar essa oportunidade diplomática. Ele aproveitou a abertura trazida pelos Jogos Olímpicos (de inverno, em Pyeongchang, no Sul) e construiu a chance em cima disso", afirma Tierney.

O especialista se refere ao relaxamento das tensões trazido pela participação norte-coreana na competição esportiva em território sul-coreano - uma delegação de altos oficiais de Pyongyang viajou ao país rival para acompanhar os jogos e, paralelamente, preparar as negociações que culminaram no encontro entre os líderes.

China e Rússia

O papel da China também foi importante na mediação do diálogo no ano passado. No auge da crise de meses atrás entre Washington e Pyongyang, Xi Jinping conversou em diversas ocasiões com Trump e Kim Jong-un, fazendo apelos para que a via diplomática fosse preservada e ninguém disparasse o temido "primeiro tiro". Em março, o líder norte-coreano fez sua primeira visita oficial a Pequim e foi recebido pelo presidente chinês.

Outra potência com interesses estratégicos e econômicos na região teve atuação menos suave: a Rússia. O presidente Vladimir Putin deu declarações fortes sobre a questão norte-coreana durante a crise com Trump, afirmando que não seria sábio "encurralar Kim Jong-un" e pedindo que os EUA "parassem com as provocações" direcionadas, segundo ele, a Pyongyang.

Entre as possibilidades levantadas por Kim após a reunião com o presidente sul-coreano estava o congelamento de todos os testes nucleares por parte da Coreia do Norte. A paralisação, no entanto, vem após dois pontos cruciais do programa de armamentos terem sido anunciados pelos norte-coreanos como resolvidos: a miniaturização das ogivas atômicas norte-coreanas e a obtenção de um míssil intercontinental capaz de levá-las até os alvos.

"Não há confirmação de que eles tenham uma ogiva miniaturizada ou um ICBM (Míssil Balístico Intercontinental) totalmente funcional", observa Tierney. Mas, mesmo que seja apenas mais propaganda, a ideia parece ter sido absorvida pelo establishment norte-coreano, dando a Kim uma folga para se concentrar em expansão econômica.

Capitalizando a paz

Apoiadores de Donald Trump não demoraram a apontar a suposta eficácia da estratégia do presidente americano para lidar com a Coreia do Norte.

No Twitter, os mais exaltados chegam a dar como certa a concessão de um Nobel da Paz ao republicano. A situação, no entanto, não é tão simples e o impacto na política interna americana é incerto.

"Talvez um aspecto positivo, se um acordo (entre as Coreias) for alcançado, possa ser que, nessa nação dividida, um acordo de paz terá aceitação mais ampla, constrangendo a extrema-direita como ocorreu durante a visita de Nixon à China", avalia Tierney.