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As diferentes versões dadas pela Arábia Saudita até admitir assassinato de jornalista opositor do regime

Cartazes em manifestação lembram que Khashoggi está desaparecido desde 2 de outubro; polícia ainda faz buscas pelo corpo - Osman Orsal/Reuters
Cartazes em manifestação lembram que Khashoggi está desaparecido desde 2 de outubro; polícia ainda faz buscas pelo corpo Imagem: Osman Orsal/Reuters

22/10/2018 09h19

Após admitir pela primeira vez que o jornalista Jamal Khashoggi foi assassinado, a Arábia Saudita negou que a ordem para matá-lo tenha partido do reino e culpou o que chamou de "operação não autorizada" pelo ocorrido.

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O jornalista era um conhecido crítico do governo. Ele foi visto pela última vez no dia 2 de outubro ao entrar no consulado saudita em Istambul, na Turquia. Desde então, especulava-se que havia sido morto no local, uma versão que só foi oficialmente confirmada na última sexta-feira, cerca de 18 dias após seu desaparecimento. O episódio tem provocado grande comoção internacional.

A polícia ainda faz buscas pelo corpo.

"Tremendo erro"

As declarações sobre "a culpa" pelo assassinato são do ministro das Relações Exteriores saudita, Adel al-Jubeir.

Ele disse à rede de TV americana Fox News que o ato foi um "tremendo erro" e negou que o poderoso príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, o tenha ordenado.

Sob intensa pressão para explicar o paradeiro de Khashoggi, os sauditas apresentaram versões conflitantes para a história.

Eles inicialmente disseram que o jornalista saiu do prédio ileso.

Dezoito dias depois, no entanto, na última sexta-feira, admitiram pela primeira vez que ele estava morto, afirmando que isso havia ocorrido durante uma briga no consulado - uma versão que foi recebida com amplo ceticismo. Autoridades turcas afirmam que o jornalista foi assassinado por uma equipe de agentes sauditas dentro do prédio e que tem elementos para provar isso.

"Obviamente houve um tremendo erro, e o que agravou esse erro foi a tentativa de encobrir", disse ministro saudita Adel al-Jubeir - AFP/Getty - AFP/Getty
"Obviamente houve um tremendo erro, e o que agravou esse erro foi a tentativa de encobrir", disse ministro saudita Adel al-Jubeir
Imagem: AFP/Getty

"Tentativa de encobrimento"

Os comentários de Adel al-Jubeir, caracterizando o caso como assassinato, são alguns dos mais diretos vindos de um oficial saudita até agora. "Estamos determinados a descobrir todos os fatos e a punir os responsáveis "por esse assassinato", disse ele.

"Os indivíduos que fizeram isso atuaram fora do escopo de sua autoridade", acrescentou.

"Obviamente houve um tremendo erro, e o que agravou esse erro foi a tentativa de encobri-lo".

O ministro também afirmou que o governo não sabe onde o corpo está e reforçou que a ação não foi ordenada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, visto como a figura mais poderosa da Arábia Saudita.

"Nem mesmo o comando do nosso serviço de inteligência estava ciente disso", disse al-Jubeir, chamando a "operação" de "não autorizada".

No entanto, o jornal local Yeni Safak, que é alinhado ao governo turco, diz ter informações que mostram que o gabinete do príncipe herdeiro recebeu quatro telefonemas do consulado após a morte.

Segundo o diário, que vazou vários detalhes das investigações até agora, uma autoridade da embaixada, Maher Mutreb, usou seu próprio celular para telefonar ao gabinete do príncipe, assim como a um número americano que pertenceria ao irmão mais novo do monarca, Khaled, que foi embaixador da Arábia Saudita nos EUA.

O príncipe Khaled bin Salman deixou os EUA logo após o desaparecimento de Khashoggi.

Versão oficial aponta que jornalista foi morto em operação não autorizada que pretendia levá-lo de volta à Arábia Saudita - Reuters - Reuters
Versão oficial aponta que jornalista foi morto em operação não autorizada que pretendia levá-lo de volta à Arábia Saudita
Imagem: Reuters

Próximos passos

O governo saudita diz que prendeu 18 pessoas, demitiu dois auxiliares de Mohammed bin Salman e montou um comitê, sob a liderança do príncipe herdeiro, para reestruturar a agência de inteligência do país.

Tanto o rei Salman quanto o príncipe herdeiro ligaram para o filho de Khashoggi, Salah, no domingo, para expressar suas condolências pela morte, informou a agência de notícias Saudi Press.

Salah Khashoggi mora na Arábia Saudita e, segundo o jornal americano The Wall Street Journal, foi impedido de deixar o país para visitar o pai, que vivia em autoexílio nos Estados Unidos.

Enquanto isso, a noiva do jornalista, Hatice Cengiz - que alertou sobre seu desaparecimento depois de esperar por ele fora do consulado - tem recebido proteção policial 24 horas por dia, informou a agência de notícias estatal Anadolu.

A reação do mundo

Em entrevista ao jornal americano The Washington Post no sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que houve "enganos" e "mentiras" na explicação da Arábia Saudita. Anteriormente, ele havia dito que achava a história convincente.

Ele disse que iria "adorar" se o príncipe herdeiro não fosse responsável pelo assassinato. O presidente levantou a possibilidade de impor sanções, mas disse que suspender um acordo de armas que existe entre as partes "machucaria mais" aos EUA do que os prejudicaria.

O Reino Unido, a França e a Alemanha emitiram uma declaração conjunta expressando choque com a morte e exigindo uma explicação completa, dizendo: "Nada pode justificar este assassinato e nós o condenamos nos mais fortes termos possíveis".

A chanceler alemã, Angela Merkel, disse que não permitirá que as exportações de armas para a Arábia Saudita continuem "dadas as atuais circunstâncias", e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, ameaçou cancelar um contrato de defesa multibilionário com o reino.

Mas vários dos aliados regionais da Arábia Saudita saíram em seu apoio.

O Kuwait elogiou o rei Salman pela forma de lidar com o caso. O Egito, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos fizeram coro.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse que revelaria a "verdade nua e crua" do assunto no parlamento na terça-feira.

Em que estágio está a investigação?

Embora a Turquia até agora não tenha culpado oficialmente a Arábia Saudita pelo assassinato, investigadores disseram ter provas em áudio e vídeo mostrando que Khashoggi foi morto por uma equipe de agentes sauditas dentro do consulado.

A polícia faz buscas na Floresta de Belgrado, nos arredores de Istambul, para onde acredita que o corpo pode ter sido levado.

Um dos agentes envolvidos disse estar confiante de que seu destino seria conhecido "em breve".

Tanto o consulado quanto a residência do cônsul saudita foram alvos de buscas.

A agência de notícias Reuters informou no domingo que conversou com um oficial saudita segundo o qual Khashoggi morreu em um estrangulamento após resistir a tentativas que fizeram de mandá-lo de volta à Arábia Saudita.

Seu corpo foi então enrolado em um tapete e entregue a um "co-operador" local para se livrar dele.

Um dos agentes sauditas teria então supostamente vestido as roupas de Khashoggi e deixado o consulado.

O funcionário disse que as declarações sauditas mudaram por causa de "informações falsas reportadas internamente na época".

O que se sabe até agora

Esta é a linha do tempo dos eventos que se desenrolaram desde 2 de outubro, quando o jornalista desapareceu.

03h28: Um jato particular transportando supostos agentes sauditas chega ao aeroporto de Istambul. Um segundo jato também aterrissa posteriormente.

05h05: O grupo é visto em dois hotéis próximos ao prédio do consulado saudita.

12h13: Vários veículos diplomáticos são filmados chegando ao consulado, supostamente carregando alguns dos agentes.

13h14: Khashoggi entra no prédio, onde pretendia pegar uma documentação necessária ao casamento.

15h08: Veículos deixam o consulado e são filmados chegando à residência do cônsul saudita, nas proximidades.

17h33: A noiva de Khashoggi, Hatice Cengiz, é vista no circuito interno de TV esperando do lado de fora do consulado.

21h00: Os dois jatos que haviam pousado mais cedo em Istambul deixam o aeroporto por volta das 21h.

3 de outubro - O governo turco anuncia que Khashoggi está desaparecido e diz acreditar que ele esteja no consulado.

4 de outubro - A Arábia Saudita diz que ele deixou a embaixada.

7 de outubro - Autoridades turcas dizem à BBC que acreditam que Khashoggi foi morto no consulado. A versão é veementemente negada pela Arábia Saudita.

13 de outubro - Autoridades turcas dizem à BBC Árabe que têm provas em áudio e vídeo do assassinato. A existência de tais fitas já havia sido relatada pela mídia local.

15 e 17-18 de outubro - Equipes de perícia realizam buscas no consulado.

19 de outubro - TV estatal saudita informa que, segundo uma investigação inicial, Jamal Khashoggi morreu no consulado. Dois altos funcionários sauditas são demitidos e o rei Salman anuncia a formação de um comitê ministerial para reestruturar os serviços de inteligência.

20 de outubro - Autoridades turcas prometem revelar todas as provas relacionadas ao assassinato.

21 de outubro - O ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita diz à Fox News que foi uma "operação não autorizada" e nega que o príncipe herdeiro tenha ordenado o "assassinato".