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Evo Morales deixa o poder na Bolívia: Quais países apoiam o ex-líder e quais veem afastamento com bons olhos

Evo Morales anunciou renúncia em pronunciamento em rede nacional no domingo — vice também deixou o cargo - AFP
Evo Morales anunciou renúncia em pronunciamento em rede nacional no domingo — vice também deixou o cargo Imagem: AFP

13/11/2019 09h32

A renúncia de Evo Morales à presidência da Bolívia, após a "sugestão" feita pelo Exército no domingo, e sua subsequente saída do país mobilizam a atenção mundial desde o início da semana.

No episódio mais recente da crise, a senadora da oposição Jeanine Áñez se declarou presidente interina, apesar das dúvidas sobre se havia quórum para instalar a sessão que a alçou ao posto. Ela disse que era a primeira na linha de sucessão pela Constituição e prometeu realizar eleições em breve.

Enquanto isso, os governos latino-americanos reagem de acordo com sua própria interpretação da crise política e social que assola a Bolívia há três semanas.

As eleições presidenciais de 20 de outubro — na qual o sistema de contagem de votos foi interrompido quando indicava segundo turno e retomado subitamente cerca de 24 horas indicando a vitória de Morales — instauraram um cenário complexo que desencadeou protestos de apoiadores do governo e da oposição.

Ao anunciar a renúncia, Morales denunciou o que classificou como um golpe de Estado planejado por setores da oposição, pela polícia e por grupos civis.

Além de Evo, deixaram seus cargos o vice-presidente, Álvaro Garcia; a presidente do Senado, Adriana Salvatierra; o vice-presidente do Senado, Rubén Medinacelli; e o presidente da Câmara dos Deputados, Víctor Borda. A renúncia coletiva criou um grande vácuo na hierarquia de poder prevista na Constituição.

A oposição afirma, por sua vez, que desde a polêmica candidatura à reeleição de Morales — rejeitada em referendo, mas autorizada pelo Tribunal Constitucional — o governo já vinha cometendo irregularidades eleitorais.

E que a interrupção da contagem dos votos da eleição de 20 de outubro, quando os resultados previam um segundo turno, acabou materializando o que eles chamaram de "fraude escandalosa".

Mas o que pensam outros líderes da região e do mundo?

Países que não apoiam Evo Morales

Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil reconhece a senadora Jeanine Añez como presidente interina da Bolívia, conforme noticiado por veículos da imprensa brasileira.

"Interinamente, claro, acho que é importante o compromisso de convocar eleições. Então nossa primeira percepção é que está sendo cumprido o rito constitucional boliviano, e queremos que isso contribua para a pacificação e a normalização do país", declarou Araújo a jornalistas.

Logo após a renúncia de Morales, o presidente Jair Bolsonaro se manifestou no Twitter sobre os acontecimentos na Bolívia, chamando a atenção para a necessidade de auditorias nos processos eleitorais e defendendo o voto impresso no Brasil.

"Denúncias de fraudes nas eleições culminaram na renúncia do presidente Evo Morales. A lição que fica para nós é a necessidade, em nome da democracia e transparência, contagem de votos que possam ser auditados. O VOTO IMPRESSO é sinal de clareza para o Brasil!", tuitou Bolsonaro.

Na sequência, escreveu um post usando o termo "grande dia", seguido por um emoji de "joinha" — expressão que costuma usar nas redes sociais para celebrar conquistas do governo ou ironizar derrotas da oposição — mas sem fazer referência à renúncia de Morales.

Pouco antes de o presidente boliviano anunciar a renúncia, o governo brasileiro se manifestou, por meio de um comunicado do Ministério das Relações Exteriores, sobre as irregularidades identificadas pela auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA) no processo eleitoral da Bolívia.

"O Brasil considera pertinente a convocação de novas eleições gerais em resposta às legítimas manifestações do povo e às recomendações da OEA, após a constatação das graves irregularidades", diz um trecho da nota.

Estados Unidos

O governo do presidente americano Donald Trump classificou a renúncia de Morales como um "momento significativo para a democracia no hemisfério ocidental".

"Os Estados Unidos aplaudem o povo da Bolívia por exigir liberdade e os militares bolivianos por cumprirem seu juramento de respeitar não apenas uma pessoa, mas a Constituição."

"Esses acontecimentos são um forte sinal para os regimes ilegítimos da Venezuela e da Nicarágua de que as democracias e a vontade do povo prevalecerão", acrescentou Trump em comunicado.

País dividido

Argentina

Uma situação peculiar é a da Argentina, país em que houve duplicidade de posicionamentos, uma vez que se encontra em meio à transição governamental.

O governo em exercício de Mauricio Macri não vê "elementos para definir (os acontecimentos) como um golpe de Estado", segundo as palavras do chanceler Jorge Faurie, uma vez que "as Forças Armadas não assumiram o poder".

Ele também negou que Morales e outras autoridades bolivianas tenham solicitado asilo no país.

No entanto, o presidente eleito Alberto Fernández pediu a Macri que condene o que considera um golpe de Estado, além de dar abrigo para aqueles que são "perseguidos pelo golpe".

Países que apoiam Evo Morales

A maioria dos países que demostraram seu apoio a Evo Morales definiu o que aconteceu na Bolívia como um golpe de Estado.

México

"É um golpe", disse o chanceler Marcelo Ebrard, "porque o Exército pediu a renúncia do presidente e isso viola a ordem constitucional no país".

O governo mexicano concedeu asilo político ao ex-presidente da Bolívia por considerar que sua vida estava em perigo em seu país.

"Entrou em um terreno que não estava previsto na Constituição", sugeriu o chanceler.

Uruguai

O governo uruguaio expressou em comunicado sua "consternação com o colapso do Estado de direito verificado no Estado Plurinacional da Bolívia, que forçou a saída do poder do presidente Evo Morales e mergulhou o país no caos e na violência".

"O Uruguai considera que não há argumento que possa justificar esses atos, em particular, após o presidente Morales ter anunciado horas antes sua intenção de convocar novas eleições, com base no relatório produzido pela missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos".

Venezuela

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, também falou em golpe, acrescentando que teria sido financiado pelos Estados Unidos.

"Se eles acham que vão replicar o fascismo que a direita aplicou na Bolívia, estão muito enganados. Aqui vamos aplicar a lei com firmeza", declarou Maduro em comunicado respaldado pela alta liderança política e militar do chavismo.

Por sua vez, o líder da oposição, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino do país, comemorou o que considerou "brisas" de um "furacão democrático" que estaria se espalhando por toda a região.

Nicarágua

O país da América Central se expressou em termos semelhantes à Venezuela.

"O governo da Nicarágua denuncia e condena fortemente o golpe de Estado que foi consumado hoje", disse em comunicado.

"Manifestamos nossa rejeição e repúdio às práticas fascistas que ignoram a Constituição, leis e instituições que regem a vida democrática das nações."

Cuba

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, manifestou no Twitter sua "veemente condenação do golpe de Estado" na Bolívia.

Rússia

A Rússia, por sua vez, pediu na segunda-feira para "se encontrar uma saída constitucional" para a crise na Bolívia após o que também chamou de "golpe de Estado".

"Preocupa profundamente (...) que a disposição do governo (boliviano) de buscar soluções construtivas baseadas no diálogo tenha sido esmagada pelo desenrolar dos acontecimentos, que seguiram o padrão de um golpe de Estado", afirmou o Ministério das Relações Exteriores russo em comunicado.

Na segunda-feira, também foi divulgado que a rede de televisão estatal russa RT ofereceu a Morales uma vaga de apresentador em seu canal em espanhol, no qual Rafael Correa, ex-presidente do Equador, também conta com um espaço há dois anos.

Países que defendem novas eleições e 'transição pacífica'

Um grupo de países da região não se referiu aos fatos que levaram Morales a renunciar à presidência e, na sequência, deixar o país.

Mas expressaram a necessidade de realizar novas eleições na Bolívia para garantir uma "transição pacífica".

Peru

O governo peruano emitiu "seus melhores votos pelo rápido restabelecimento da convivência pacífica entre todos os bolivianos, com base no pleno respeito às instituições democráticas, e pela realização de eleições gerais com as devidas garantias de transparência e acompanhamento da Organização dos Estados Americanos e outras instâncias internacionais ".

Colômbia

O governo colombiano convidou "os representantes das instituições do Estado, os diferentes partidos políticos e a sociedade como um todo a trabalhar em conjunto para garantir um processo de transição pacífica, em estrita conformidade com as disposições constitucionais que regem a ordem jurídica".

Equador

O governo equatoriano manifestou "sua confiança em que a vocação pacífica e democrática do povo boliviano contribuirá para a restauração completa do sistema democrático no âmbito da Constituição e da lei, com a organização de novas eleições, livres e transparentes, convocadas por um tribunal eleitoral renovado e acompanhadas da participação de países amigos, da OEA e de outros mecanismos internacionais ".

Honduras

O país da América Central "se junta aos apelos pelo diálogo para permitir aos diferentes atores da sociedade boliviana, partidos políticos e representantes do Estado trabalharem juntos para alcançar uma transição pacífica seguindo as disposições constitucionais do país".

Espanha

Por meio de comunicado, o governo espanhol fez um apelo a "todos os atores políticos bolivianos a trabalhar por vias institucionais e pacíficas para tornar possível a convocação de novas eleições o mais rápido possível".

"Esta nova convocação, supervisionada pelas novas autoridades eleitorais, alinhadas com as recomendações preliminares da auditoria da OEA, deve permitir o restabelecimento da confiança no processo eleitoral, como um canal de expressão democrática da vontade popular. Esta é a maneira adequada de o país sair da crise atual", completa.

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